26/01/14

A Queda dum Anjo, de Camilo Castelo Branco

 A Queda dum Anjo, Camilo Castelo Branco
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Contexto histórico-cultural e simbologia de Calisto Elói

Críticos têm insistido na semelhança do protagonista de A Queda dum Anjo, o Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda, com seu autor Camilo Castelo Branco.

Jacinto do Prado Coelho observa que “Em Camilo havia, na verdade, um Calisto Elói devoto de prosas velhas e genealogias, admirador duma simpleza clara e lapidar, rabugento ante modernismos ‘civilizadores’”.

Óscar Lopes sublinha ainda “uma certa proximidade paradigmática” entre o pré-nome do personagem e o do romancista.

Ao lado desse lastro autobiográfico na confecção da figura do morgado da Agra de Freimas, podemos acrescentar um contexto que Camilo denuncia e ironiza na crônica “Tesouro de Sábios”, publicada no jornal A Revolução de Setembro, a 11 de abril de 1861.

Trata-se de um disseminado gosto por citações latinas no Portugal da época, – gosto compartilhado por Calisto Elói e pelo próprio Camilo Castelo Branco. D. João de Castro, em célebre artigo sobre A Queda dum Anjo, aponta um contemporâneo do escritor oitocentista como inspiração para o herói desse romance. Nas palavras de Túlio Ramires Ferro, Segundo D. João de Castro, o modelo, vivo, do herói camiliano foi um fidalgo muito conhecido em Braga, Domingos de Barros Teixeira da Mota, que era senhor da casa vincular da Cruz, situada no concelho de Celorico de Basto.

Homem austero, apreciador de genealogias e cronicões, e adepto de D. Miguel, Domingos de Barros, que estava casado com uma senhora muito feia e muito rica, mundanizou-se em contacto com a vida elegante de Lisboa, onde se instalou quando o elegeram deputado.

De fato, os dados biográficos do aristocrata português e a trajetória do personagem de A Queda dum Anjo coincidem em muitos pontos, embora falte na vida do primeiro o registro de um adultério, o que motiva no segundo as conhecidas transformações.

Cerca de três anos antes de A Queda dum Anjo, Camilo publicou O Bem e o Mal, em que aparece um personagem com características impressionantemente muito semelhantes às de Calisto Elói. Padre Praxedes de Vila Cova, conta-nos o narrador, [...] sobre ser virtuoso, era grande letrado; a sua ciência, porém, atrasara-se dous séculos na história do espírito humano.

[...] sabia de cor Aristóteles e Platão. Filosofia, Física, História Natural, Gramática, Lógica, Metafísica, Poética, Meteorologia, Política, e mais um centenar de ciências todas lhas ensinaram os dous sábios de Estagira e Atenas. Na opinião dele, a inteligência do homem, depois de Platão e Aristóteles, envelhecera, ou fingira remoçar-se com atavios de ouropel e pechisbeques, sem quilate na experimentada mão de um sábio.

Era padre Praxedes copiosamente lido em livros portugueses anteriores ao século XVII, e possuía os melhores nas suas ponderosas estantes de castanho. Da época dos Senhores Reis D. João V e D. José I já pouquíssimos volumes, e esses mesmos estremados do ouro puro dos clássicos, se honravam de prender--lhe a atenção.

Além da leitura contumaz de autores tão antigos, ao lado de um desrespeito senão indiferença pelo conhecimento contemporâneo, outra coincidência entre padre Praxedes e Calisto Elói se destaca. Se o morgado da Agra de Freimas terá uma parentela de “altas dignidades da Igreja” e haverá em sua casa “onze retratos, que tinha de onze avós”, o personagem de O Bem e o Mal tivera “ao certo que seus derradeiros anos, muitos ou poucos, ali [na residência paroquial] seriam vividos ao pé da sepultura dos seus onze antepassados” , todos os quais eclesiásticos. O detalhe da repetição do número onze de um romance para o outro parece reforçar ainda mais a existência de um ‘parentesco’ entre os personagens, ou ainda de um arquétipo camiliano.

Mas talvez o parentesco do protagonista de A Queda dum Anjo que mais salte aos olhos seja o com Dom Quixote. O próprio narrador do romance, a propósito das pretensões de Calisto de salvaguardar a moral do casamento de D. Catarina, no primeiro parágrafo do décimo segundo capítulo (“O anjo-custódio”), sugerirá a semelhança: “Santa audácia! Bizarra índole de antigo cavaleiro, que abriga no peito a generosidade com que os heróis dos Lobeiras, Cervantes, Barros e Morais se lançavam às aventurosas lides, no intento de corrigir vícios e endireitar as tortuosidades da humana maldade!”

Acerca da proximidade entre Calisto e D. Quixote, porém, no que concerne à suposta loucura desses personagens, João Camilo dos Santos adverte:
[...] se a loucura de D. Quixote é um facto em geral admitido pela crítica cervantina, no caso de Calisto não parece que se possa falar de loucura. O contraste entre uma visão do mundo e um comportamento que aparecem como originais (distinguindo como “diferente” aquele que os encarna) e a visão do mundo e comportamento da maioria não implica forçosamente que haja perda da razão.

De qualquer maneira quixotesco, Calisto exemplifica a ampla ressonância cultural do livro de Miguel de Cervantes no século XIX português. Para esse fato o estudo Garrett, Camilo, Eça: entre Quixote e Sancho, de José Clécio Basílio Quesado, o de Maria Fernanda Abreu, Cervantes no Romantismo Português: cavaleiros andantes, manuscritos encontrados e gargalhadas moralíssimas, e outros chamam a atenção. Já em 24 de agosto de 1848, na gazeta Nacional, Camilo publicara uma crônica à guisa de conto intitulada “Cavalheiro Andante do Século 19”. Conforme Maria Fernanda Abreu noticia, esta teria sido a primeira criação ficcional do escritor oitocentista com base no personagem cervantino.

 Igualmente a D. Quixote, o narrador-personagem desse texto satírico, após leitura de narrativas sobre feitos épicos medievais, resgata uma donzela raptada por um sargento de telégrafo.

Como se pode observar, aqui também se chocam o antigo – representado pelas leituras de textos da Idade Média – e o novo – representado pelo tempo em que vive o narrador-personagem, a modernidade que o telégrafo emblema –.

Em Viagens na Minha Terra, de 1843, Almeida Garrett explicara a marcha da civilização, ou seja, “para nos entenderem todos melhor, o Progresso”,  lançando mão dos protagonistas das peripécias narradas em D. Quixote:
 [...] há dois princípios no mundo: o espiritualista, que marcha sem atender à parte material e terrena desta vida, com os olhos fitos em suas grandes e abstractas teorias, hirto, seco, duro, inflexível, e que pode bem personalizar-se, simbolizar-se pelo famoso mito do Cavaleiro da Mancha, D. Quixote, – o materialista, que, sem fazer caso nem cabedal dessas teorias, em que não crê e cujas impossíveis aplicações declara todas utopias, pode bem representar-se pela rotunda e anafada presença do nosso amigo velho, Sancho Pança.

O trecho pertence ao segundo capítulo da obra, onde o narrador esclarece: “[...] a minha obra é um símbolo... é um mito, palavra grega, e de moda germânica, que se mete em tudo e com que se explica tudo... quanto se não sabe explicar.”

 Assim como se utiliza das figuras de Quixote e Sancho para ilustrar o mecanismo dialético do progresso – o embate entre a força espiritualista e materialista –, o próprio romance funciona como ‘explicação’ simbológica da “situação cultural, política e social de Portugal”, segundo a excelente leitura de Helder Macedo.

 Ao analisar a novela “A Menina dos Rouxinóis”, inserida no romance, Macedo propõe: As duas personagens motrizes da sequência romanesca são Frei Dinis e Carlos – um absolutista e o outro liberal. Cada um deles representa D. Quixote e Sancho Pança em fases diferentes das suas vidas. Frei Dinis, que começou por ser “materialista” porque presa das paixões, espiritualizou-se através do remorso no frade austero em que veio a tornar-se; Carlos, após ter lutado pelos ideais do liberalismo, corrompeu-se e cedeu à matéria ao tornar-se barão.

Também o protagonista de A Queda dum Anjo se enquadra nessa fórmula. Na primeira fase de sua vida, é absolutista, defensor de rígida moral cristã-católica, mas depois – “presa de paixões” – converte-se ao liberalismo e torna-se barão. O personagem camiliano encarna, pois, num momento o espiritualista Quixote, e posteriormente o materialista Sancho. João Camilo dos Santos opera noutros termos, mas o resultado de sua leitura do romance corresponde ao exposto acima. Segundo o crítico, “Calisto, evoluindo e adaptando-se enfim, permite a Camilo pôr em cena a transição do Portugal antigo para o Portugal moderno”, e sendo assim, “A Queda dum Anjo é a história dessa transição”. 

 José Clécio Basílio Quesado concilia os dois aspectos da leitura:

Caído do “fragmento paradisíaco” de Miranda na babilônica Lisboa de usos e costumes novos, Calisto Elói é [...] a figuração de um povo que, no seu projeto de descaracterização político-econômica e cultural, se descompassou entre o passado e o presente, entre a sua tradição milenar e os influxos de uma modernidade mal urdida. [...] É, enfim, mais uma reduplicação de ficção lusa do idealismo quixotesco lançado nas vertigens abissais do materialismo de Sancho.


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Fonte:
Adriano Lima Drumond: “A imagem da nação portuguesa em A Queda dum Anjo, de Camilo Castelo Branco” (Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais, como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Teoria da Literatura. Área de Concentração: Teoria da Literatura Linha de Pesquisa: Literatura, História e Memória Cultural Orientador: Prof. Dr. Marcus Vinicius de Freitas). Belo Horizonte, 2007.

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