07/02/14

Contos e Fantasias, de Maria Amália Vaz de Carvalho

 Contos e Fantasias, de Maria Amália Vaz de Carvalho
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Os contos


Maria Amália, em sua ficção, pensa o papel feminino relacionado à família. Os conflitos, dramas, alegrias e tristezas passam-se neste ambiente. Em seus contos, não há mulheres na política ou nas universidades. Suas narrativas analisam o cotidiano, são contos que retratam a sociedade por um ponto de vista de mulher.

Sua escrita, por vezes, adquire tom de conversa ou de confissão, o que aproxima o leitor, tornando fácil a identificação com a trama.

A obra ficcional de Maria Amália Vaz de Carvalho, no Jornal do Commercio do Rio de Janeiro, se concentra entre os anos de 1870 e 1880. Retrata a família em todas as suas complexidades. Os contos desta autora seguem a vida das mulheres do século XIX, no seu dia a dia, mostrando sutilmente como encontravam saídas para sobreviverem em uma sociedade baseada no patriarcalismo. Aponta as contradições e os conflitos sociais presentes. Apresenta a sua versão para os dramas maiores que afetavam o viver das mulheres.

Maria Amália hoje é uma autora estigmatizada. Suas convicções, ao apoiar o papel da mulher na família como importante para o equilíbrio social, são vistas como submissão às vontades dos homens. Entretanto, se lermos com atenção a sua obra ficcional, devidamente contextualizada, veremos as frestas existentes em favor das mulheres. O lugar que a sociedade lhes destinava à época era dentro dos lares, ao lado dos seus maridos e filhos. Tudo que fosse diferente disto era motivo de indignação. Portanto, era dentro deste ambiente e consideradas tais circunstâncias que deveriam partir as reivindicações por seus direitos.

Ela apoiava sim o lugar das mulheres em seus lares, não queria a dissolução das famílias, pois, como católica e mãe – assim o supunha – não poderia defender algo diferente. Entretanto, seus artigos e ficções apontam seu desejo de mobilidade social e funcional das mulheres de seu tempo. Neles lemos o sentimento conjugal tomando forma, mas com visíveis alterações nos contratos entre pais e filhos; as mulheres buscando instrução e debatendo igualmente com os homens questões filosóficas e literárias; e o combate à vida fútil das moças.

Maria Amália tentava mostrar, através de sua ficção, o retrato do que ela esperava ser uma família ideal, harmoniosa e colaborativa entre seus membros. A mulher ocupando-se de tarefas domésticas e tendo a clareza reflexiva para tomar decisões em conjunto com seu marido, criando seus filhos de modo a que viessem frutificar em suas vidas e obtivessem sucesso. Apoiando o papel familiar da mulher, a autora poderia transitar pelos assuntos sobre os quais gostaria que a sociedade refletisse. E isto não dentro de jornais ou revistas feministas estigmatizadas pelo preconceito, mas no interior de periódicos respeitados no mundo masculino.

A sociedade liberal portuguesa da segunda metade do século XIX se modificava intensamente e não era diferente com o universo feminino. Convivendo com o novo e o tradicional, Maria Amália retratava estas mudanças. Seguindo um fio condutor, que é a visão feminina, estudou as modificações através de comportamentos e anseios e, através das narrativas conseguiu retratá-las. Assim, a ficção lhe dava maior liberdade para transitar por assuntos que, talvez, ela considerasse complicados de serem publicados em artigos, como por exemplo, o adultério, a bastardia e profissões das mulheres, que sustentavam a educação masculina. As narrativas lhe conferiam um poder de introduzir assuntos espinhosos que possivelmente estavam sendo ou podiam ser debatidos dentro dos lares.

Peter Gay afirma que a ficção é uma fantasia, uma ilusão, na qual os indivíduos se veem, se imaginam e repensam suas vidas. Conforme um romance, novela ou conto atinge um determinado número de circulação satisfatória, ele passa a ser debatido de forma mais intensa e o assunto entra na sociedade mais facilmente: 

O que quer que sejam e o que quer que façam, sejam elas conscientes ou inconscientes, as fantasias se situam no limiar entre a imaginação pessoal e a coletiva, e servem como ponte entre elas. Isso se aplica com mais verdade à ficção, que consiste em fantasias disciplinadas, ordenadas e embelezadas. […] Os impulsos e as ansiedades do indivíduo fornecem a energia, mas é a cultura que fornece as matérias-primas para as fantasias, arquitetadas de acordo com requisitos estéticos. O que faz das fantasias um material histórico tão rico é, em grande parte, o fato de não serem simplesmente fantásticas.
Os romancistas e os críticos literários do século XIX tinham noção de tudo isso. (GAY, 2000, p. 124)

Seja como for, a ficção pode ser um retrato da sociedade, mas pode ser também uma preparação para algo que ainda está por vir.

Os contos de Maria Amália não eram fantasiosos em nenhum aspecto. Apenas tratavam do universo a que a mulher estava condicionada naquela época. O que os diferencia é o foco nos percalços a que as mulheres, via de regra, estavam sujeitas, seja através de amores impossíveis, impedimentos legais ou complicações financeiras; como se portavam e como saíam ou não de certas situações embaraçosas.


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Fonte:
Bianca Santos Coutinho dos Reis: “Cérebros e Corações”: a ficção de Maria Amália Vaz de Carvalho no Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro”. (Dissertação apresentada como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre, ao programa de Pós-Graduação em Letras, da Universidade do Estado do  Rio de Janeiro. Área de concentração: Literatura Portuguesa. Orientador: Prof. Dr. Sérgio Nazar David). Rio de Janeiro, 2012.

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