16/02/14

Lourenço, de Franklin Távora

 Lourenço, de Franklin Távora
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O Matuto e Lourenço: irmãos de O Cabeleira

Em outros tipos de circunstância, quando fora do contexto político e na condição de “cavaleiro errante” do sertão, Lourenço também entoa com freqüência versos da memória popular pernambucana, semelhantes às quadras registradas n’ O Matuto. A tradição oral, portanto, além de representar uma das vozes da história do Brasil, como se viu n’ O Cabeleira, desempenha o papel de arte poética genuinamente nacional, capaz de aflorar da alma de um povo completamente integrado à natureza e à vida “primitiva”. Os momentos de evocação desta “musa popular”, intrínseca ao cotidiano dos matutos, podem ser quaisquer que demandem a expressão dos seus sentimentos mais íntimos e impetuosos: situações de guerra, de solidão, de amor, de vingança, de festa. Assim, a poesia popular acompanha o cotidiano do povo, aqui representado pelos sertanejos almocreves, de modo a constituir um dos elementos etnográficos explorados no projeto de ficção nacionalista de Távora. As relações entre natureza, cultura popular e homem do campo, neste caso, expressam novamente o “naturalismo sertanejo” desenvolvido pelo autor, isto é, as ações específicas do meio semi-selvagem sobre o mestiço rústico, a essência “arqueológica” da poesia brasileira e os aspectos fisiológicos do sertanejo.

O desfecho do conflito entre “nobres” e mascates, que sempre se mantém no segundo plano da narrativa, dá-se antes mesmo que ecloda novo levante da população e das forças armadas. Em tempo de evitá-lo, a Coroa concede perdão aos “nobres” que são liberados das prisões e condenações.

Afetado até o fim pela sua essência brutal, Lourenço ainda dá mostras de sua má índole. Marianinha, que se manteve apaixonada pelo matuto desde a primeira vista, quando insiste em se colocar como obstáculo entre ele e Damiana, é ferida pelo rapaz com uma facada, em um acesso de raiva. Diante deste acontecimento, a menina ferida e sua mãe Joaquina se afastam da família de Marcelina. Depois de comemorado o positivo desfecho dos conflitos políticos para os “nobres”, Lourenço tenta uma reaproximação com Marianinha. As famílias, que festejam o retorno de Francisco, harmonizam-se, mas a rapariga recusa o pedido de casamento do jovem sertanejo. Em sinal de remorso e nobreza de intenções, ele oferece as terras que lhe foram doadas pelo padre Antonio à Marianinha, considerando o ato um meio de desfazer a má impressão que a ex-pretendente guarda dele. Semelhante ao personagem Arnaldo, de José de Alencar, o sertanejo abandona a possibilidade de procurar por Damiana e prefere a liberdade de herói desajustado, do que concretizar quaisquer laços amorosos. A narrativa se encerra com a partida de Lourenço, seguida de elogios à virtude dos pobres do campo:

Três dias depois, quando os galos começaram a amiudar, Lourenço montou a cavalo à porta do sítio do Cajueiro, Francisco e Marcelina, de pé, do lado de fora, viram-no partir, viram-no desaparecer, ouviram ambos, com as faces inundadas em lágrimas, os últimos ruídos dos passos dos cavalos, que conduziam para bem longe o melhor das esperanças, o melhor dos afetos daquelas existências tão boas, tão dignas, tão irmãs, – daquelas existências tão ricas na sua pobreza, tão grandes no seu pequenino mundo, tão nobres na sua humilde condição – dois tomos de uma obra que se poderia intitular – Trabalho, bom senso e virtude.1

Desapegado dos bens, dos amores, dos ressentimentos mal resolvidos e ainda da tutela afetiva dos pais adotivos, o sertanejo deixa para trás a impressão memorável de um homem forte, destemido e capaz de remediar a sua maldade com os ensinamentos virtuosos de Francisco e Marcelina. Por esse motivo, ao contrário do que acontece n’ O Cabeleira, é concedido ao herói o mérito de continuar sendo um “filho da liberdade”107. O desfecho de Lourenço, com todos os horrores que a guerra e as índoles perversas apresentam no romance, encarrega-se de corrigir todos os personagens desvirtuados ou desonrados e assinala os objetivos da obra, tão importantes quanto reafirmar a identidade nacional: instruir e moralizar. Para garantir a repercussão da narrativa entre o público amplo e os leitores especializados, depois de publicá-la em folhetim na Revista Brasileira, o autor financia uma edição de 200 exemplares na Tipografia Nacional, no mesmo ano de 1881.

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Fonte:
Cristina Betioli Ribeiro: “um norte para o romance brasileiro: Franklin Távora entre os primeiros folcloristas”. (Tese apresentada ao programa de Teoria e HistóriaLiterária do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL)da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP),como requisito para obtenção do título de Doutor emTeoria e História Literária, na área de LiteraturaBrasileira. Orientadora: Prof.ª Dr.ª Márcia Azevedo de Abreu). Instituto de Estudos da Linguagem. Unicamp – FAPESP - Campinas / 2008

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