15/02/2014

Contos Gauchescos, de João Simões Lopes Neto

 Contos Gauchescos - Joao Simaes Lopes Neto - Iba Mendes
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A obra e seus “achados”

A obra propriamente literária do contista Simões Lopes é pequena mas de alta qualidade. Resume-se a dois livros publicados em vida, Contos Gauchescos (1912) e Lendas do Sul (1913), além de um livro póstumo, Casos do Romualdo (1952), que, em 1914, saíra em forma de folhetim, no jornal Correio Mercantil, inspirado em parte no célebre Barão de Münchausen, publicado em 1786, na língua de Goethe, por Gottfried August Bürger. Suas outras publicações, muitas delas sob diversos pseudônimos, são artigos de jornal, discursos, conferências e peças de teatro, que só recentemente vem saindo em livro, graças a infatigáveis representantes da pesquisa “lopesneta”. Sem esquecer o Cancioneiro Guasca, de 1911, importante coletânea de narrativa e poesia oral, algumas das quais reaparecem, estilizadas, como substrato mito-poético, na obra literária.

Neste ano de 2012, por ocasião do centenário dos Contos Gauchescos e, em 2013, das Lendas do Sul, justamente quando a Feira de Frankfurt terá o Brasil por tema, resolvi apresentá-los ao público alemão, fazendo palestras em universidades e organizando uma antologia bilíngue, que constitua uma amostra pequena mas significativa da narrativa simoniana, incluindo, além de um conto e de uma lenda, dos dois primeiros livros, um dos casos de Romualdo.

Simões não é de todo desconhecido na Alemanha, mas o que aqui circulou é ainda muito pouco. Em 1959 a editora berlinense Langenscheidt publicou um livro paradidático, cujo título “contos brasileiros”, aparece em português, seguido de um subtítulo em alemão: “Brasilianische Lekture mit Ubersetzungshilfen und Erlauterungen.

Aí se transcreve um dos mais belos contos do escritor gaúcho,“O Boi Velho”. Eu, pessoalmente, tenho contribuído como posso para divulgá-lo. Desde 1989, em diversos cursos que ministrei, na Freie Universität Berlin, foram lidos seus textos com os estudantes, alguns dos quais chegaram a escrever bons trabalhos sobre eles. Há inclusive uma tese de “Magister”, elaborada por Saskia Vogel, que mereceu a nota máxima. Mas agora trata-se de tentar divulgá-lo mais amplamente, por um livro bilingue, precedido de uma introdução que procure dar uma visão geral da obra para estrangeiros, mas que também vá um pouco além disso, despertando nos leitores/nas leitoras a vontade de ampliar o repertório e ir mais fundo na obra.

Este texto não deixa de ser um ensaio para essa introdução à breve antologia, que se intitulará Cem anos de imensidão, numa clara referência ao conhecido romance de Gabriel Garcia Marquez, Cem anos de solidão. Também no pampa a solidão é grande, mas aí ela vem associada à vastidão, que já Sarmiento assinala ao iniciar o seu célebre Facundo, livro que Simões Lopes certamente leu. Nos seus contos centenários, porém, o que se quer marcar é também a imensidão temporal e a imensidão de uma obra, na qual o tempo não se mede apenas pelo aniversário de sua publicação, porque imensa na sua brevidade ela internaliza, superpõe e funde a imensidão do espaço e a imensidão do tempo, fazendo-nos mergulhar num mundo muito antigo, cujas raízes culturais se perdem na noite dos tempos, mas que é presentificado pela narrativa literária, justamente quando a modernização começa a destruí-lo.

O escritor reiterou em discursos e conferências, em cerimônias e atos públicos, bem como em livros inconclusos, que foi esboçando um tanto sem método ao longo da sua curta vida, o desejo de contribuir para salvar a memória desse mundo do gaúcho em extinção. Às vezes é mesmo um tanto empolado como em algumas conferências e discursos. Mas quase sempre mostra senso crítico e engajamento social, como, por exemplo, na coluna intitulada “Inquéritos em contraste” ou nas crônicas de “O Rio Grande (à Vol d´Oiseau)” em que contrasta o luxo dos palacetes à pobreza do asilo de mendigos. Ou, mesmo, de um modo mais leve e zombeteiro, na invocação aos jovens de Pelotas para liderarem a comemoração do aniversário da cidade, criativamente, reafirmando uma cultura própria contra a mera reprodução de modelos estrangeiros.

A maior parte desses escritos dispersos, que vêm sendo aos poucos resgatados, comentados e publicados, graças ao empenho de alguns simonianos persistentes, corresponde em muito aos ideais político-pedagógicos dos principais intelectuais do tempo, dentro e fora do Rio Grande, como mostra detalhadamente o livro de Luís Borges, publicado em 2009. Há mesmo alguns textos ficcionais e poéticos de entretenimento, que o mostram bem informado e bem humorado, além de serem muito bem escritos. Esse é o caso, por exemplo, do folhetim, “A Mandinga”, publicado em jornal e só muito tempo depois, em livro. Bastante moderno, o texto divertido e crítico é, ao mesmo tempo, um longo conto de suspense, sendo esse recurso folhetinesco usado com maestria para prender os leitores e as leitoras.


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Fonte:
Lígia Chiappini: "Simões Lopes Neto, um poeta da imensidão". Nonada Letras em Revista. Porto Alegre, ano 15, n. 19, p. 97-108, 2012, disponível em: http://seer.uniritter.edu.br

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