09/02/14

Contos de Florbela Espanca

 Contos de Florbela Espanca
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O tempo e o ser literário em Florbela Espanca


Até agora eu não me conhecia,
Julgava que era Eu e eu não era
Aquela que em meus versos descrevera
Tão clara como a fonte e como o dia.
  
Na obra de Florbela Espanca, encontramos a fantasia desbordante do inconsciente, destinada a debilitar a importância do objeto para obter uma supervalorização do sujeito. Florbela foi, desde criança, tocada pelo medo de mudanças, do mecanismo do envolvimento nas modificações da vida: Aos oito anos já escreve versos e discursa à moda dos comicieiros da terra. ‘A minha dor é um convento’ – diz, e procura ob ter, por intermédio da poesia, proteção contra o mundo exterior. Sua obra caracteriza-se pelo viés do decadentismo e variantes temáticas, tais como o silêncio, a natureza, o sonho, a mitologia, a morte e relações intertextuais. Segundo Trevisan, ao compará-la com Cecília Meireles, ambas mostram os seus aspectos ideológicos sob o ponto de vista de Hayden White, o qual apresenta uma perspectiva culturalista para os estudos literários. No processo intertextual percebe-se que estão em sintonia com suas manifestações poéticas, líricas e temáticas, isso porque a poesia moderna projeta a dispersão do eu em direção ao mundo do desejo e da utopia, onde o poema torna-se um espaço possível de liberdade, aberto desde o Romantismo.

 Segundo Rezende, as questões do feminino e do erótico, presentes nas obras de Florbela Espanca, sob a ótica comparatista, ampliam os limites da poesia da época, ao criar versos em que dá voz à sensualidade, ao enfatizar o corpo como um lugar em que as paixões se embatem, característica que a torna pioneira, no início do século XX, em Portugal e, respectivamente, na criação de uma literatura que se volta para essas temáticas. Ao se refletir sobre a maneira que Florbela articula o tema do erotismo em seus versos, é possível ver similaridades e diferenças que confirmam e ampliam os limites do que se sabe sobre a poesia feminina e, ao mesmo tempo, valorizam a individualidade de Florbela. Para Rezende, Florbela se serve do soneto, o qual era moda na época, para expressar as emoções represadas em seu íntimo e revelar o seu prazer ou desprazer, o seu recato ou a sua ousadia e os reflexos dos momentos idealizados ou vividos pela paixão.

O decadentismo português, movimento que surgiu a partir de 1880, devido a crítica feita por Paul Bourget sobre a poética de Baudelaire, caracterizando de decadentes as obras que continham aspectos mórbidos em criações e, repassadas de pervertido misticismo e morfinomaníaco deixa uma certa herança na obra florbeliana, que refletia os valores culturais do começo do século, também do simbolismo, mas que, segundo Moisés, vai colocá-la numa espécie de interregno, sem vínculo maior com as tendências em voga. Segundo Saraiva, o Simbolismo constituiu uma corrente importada e pouco definida entre os portugueses. Os temas do sonho evasivo, da intuição vidente, da mística oculta e os textos cheios de símbolos de sinestesias, tenderam a diluir-se entre os diversos ramos literários da época, em uma sociedade ainda muito agrária, cuja proclamação da República ocorrerá em 1910, com uma bifurcação de correntes - passadistas: neogarretismo, lusitanismo, nacionalismo e integralismo; - e por outro lado a Renascença Portuguesa e o saudosismo. Devido Florbela Espanca não se situar diretamente numa ou noutra escola literária, percebemos, como Saraiva, que a arrumação de autores por grupos, escolas ou concepções de vida é um simples método de exposição(...) e não nos deve fazer esquecer a multiplicidade e fluência concretas das personalidades e das obras literárias. Assim, segundo Saraiva, Florbela Espanca é uma das notáveis personalidades líricas isoladas, pela intensidade de um emotivo erotismo feminino (...).
  
Ao propor debater a poesia feita por mulheres, Maria Lúcia Dal Farra discorre sobre o gênero da escrita, o qual passa por um fingimento poético, de forma que não é difícil uma mulher praticar uma escrita feminina e uma masculina, assim também o homem. Então, Dal Farra questiona sobre como é possível, na poesia feminina, analisar a maneira da mulher expor os seus assuntos mais íntimos, a sua intimidade. Tem-se, no texto, como referente, as obras de Florbela Espanca, Gilka Machado e Cecília Meireles, cujos trechos são analisados em decorrência de como essas poetas tratam a temática da vida feminina.


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Fonte:
Elizete Dall’com Une Hunhoff: “O Tem po: fator de identidade nas obras de Florbela Espanca e de Cecília Meireles”. (Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Estudos Comparados  de  Literaturas     de Língua Portuguesa, do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas,  da Faculdade de Filosofia,     Letras  e Ciências Humanas, da Universidade de São Paulo, para obtenção do título de Doutora em Letras. Orientadora: Profa. Dra. Maria dos Prazeres Santos Mendes). São Paulo, 2008.

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