18/01/14

Por que me ufano de meu país, de Afonso Celso

 Afonso Celso - Por que me ufano de meu pais - Iba Mendes
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Porque me ufano do meu país. Right or wrong, my country


O livro é dedicado aos filhos – Affonso Celso de Ouro Preto, Carlos Celso de Ouro Preto e à memória de João Paulo de Ouro Preto – e escrito para “celebrar a nossa Pátria o quarto centenário do seu descobrimento”. Foi concluído em Petrópolis, Rio de Janeiro, no dia 8 de setembro de 1900. Desde a primeira edição, consta abaixo do título o sugestivo subtítulo right or wrong, my country, dístico que é a síntese mais perfeita do ufanismo nas tradições anglo-saxônicas e em língua inglesa (MARTINS, 1978, p. 148). A editora Laemmert publicou a primeira edição em 1901, a qual es- gotou-se em alguns meses, fazendo nova edição no mesmo ano.  Foi editado em tamanho in-16, com 204 páginas. A partir dessa edição, passou a ser publicado pela livraria Garnier (Rio de Janeiro/Paris), com o mesmo número de páginas, mas in-18 (quinta edição, 1912; sétima edição, 1915; décima edição, 1926; décima primeira edição, 1937; décima segunda edição, pela F. Briguet, 1943). Na décima edição, de 1926, a obra foi revista e atualizada, e compôs a “Coleção dos Autores Célebres da Literatura Brasileira”. Essa edição, em tamanho in-12, tem uma tiragem de 10.000 exemplares numerados, o que permite verificar o grande sucesso da obra vinte e cinco anos depois.

O seu sucesso também pode ser aquilatado pelas inúmeras traduções – francês, alemão, inglês e italiano. Para o francês, foi traduzido por M. C. (Condessa de Serra Negra), com o título Pourquoi je m’enorgueillie de mon pays, com uma notícia preliminar da tradutora sobre o autor e com inúmeras fotografias, as quais não constam na edição brasileira. Foi editado pela Garnier em 1912, com 276 páginas, com a seguinte observação petit livre de vulgarisation qui renferme une documentation assez sûre. A tradu- ção para o alemão foi feita por Herman Faulhaber, com o título Warum Bin ich stolz auf mein Vaterland?, tendo sua terceira edição em1910 (Berlim, O. Brandstetter). A obra não apresenta bibliografia, mas na última página consta uma nota em que o autor esclarece ao leitor as fontes utilizadas – “Os principais fatos e observações componentes deste opúsculo, colheu-as o autor nos livros de Elisée Reclus, Robert Southey, Porto Seguro, Wappoeus, João Francisco Lisboa, Barão de Rio Branco, João Ribeiro e outros que escreveram sobre o Brasil”. Complementa a nota com a observação de que “nem sempre foram citados nomes e obras, com indicações precisas, por se tratar de ligeiro trabalho de vulgarização”.

A leitura da obra permite ainda identificar outros autores e leituras realizadas: Américo Vespúcio; Pero Vaz de Caminha; Padre Simão de Vas- concelos – Notícias Curiosas; Rocha Pitta – História da América Portuguesa; Simão Estácio da Silveira; Alexandre Humboldt;  Maurício Lamberg; Gonçalves Dias; Augusto Fausto de Souza – A Bahia do Rio de Janeiro, sua história e descrição de suas riquezas; Agassiz; Pieter Wilhen Lund; Victor Hugo; Oliveira Martins; Oliveira Viana; Ernest Renan.

A obra está dividida em 42 pequenos capítulos, os quais procuram demonstrar a superioridade brasileira, a partir de onze argumentos e fatos: grandeza territorial, beleza física, riqueza, variedade e amenidade do clima, ausência de calamidades, excelência dos elementos que entraram na formação do tipo nacional, não ter sido povoado por degradados, os nobres predicados do caráter nacional, nunca sofreu humilhação e nunca foi vencido, procedimento cavalheiresco e digno com os outros, as glórias a colher a sua história.

No capítulo 40, o autor faz um resumo das grandezas do Brasil, em que evidencia o espírito otimista e entusiástico que o anima a provar que ser brasileiro significa distinção e vantagem, incitando o leitor a propagá-los, cultivá-los e engrandecer o amor pelo país, mote da obra. Para o autor,

...o Brasil constitui um dos mais vastos países da terra, capaz de conter toda a população nela existente; reúne imensas vantagens a essa grandeza territorial, quais a situação geográfica, a homogeneidade material e moral, o progresso constante; é belíssimo; possui riquezas incalculáveis; goza de perpétua primavera, sem jamais conhecer temperaturas extremas; não sofre calamidades que costumam afligir a humanidade; resulta a sua população da fusão de três raças dignas e valorosas raças; bom, pacífico, ordeiro, serviçal, sensível, sem preconceitos, não deturpa o caráter desse povo nenhum vício que lhe seja peculiar, ou defeito insusceptível de correção; nunca sofreu humilhações, nunca fez mal, nunca perdeu uma polegada do seu solo, nunca foi vencido, antes tem vencido poderosas nações; sempre procedeu honesta e cavalheiramente para com os outros povos, livrando, com absoluta abnegação, de odiosas tiranias seus vizinhos mais fracos; cheio de curiosidades naturais, depara elevadas glórias a quem estudar e amar; na sua história, relacionada com os mais notáveis acontecimentos da espécie humana, escasseiam guerras civis e efusões de sangue, sobejando feitos heróicos, formosas legendas, preclaras figuras, luminosos exemplos; primeiro país autônomo da América Latina, segundo do Novo Mundo, sempre manifestou espírito de independência, desfrutou liberdades desconhecidas em outras nações, mostrou-se apto para todas as melhorias, produziu representantes distintos em qualquer ramos de atividade social, resolveu com calma e sensatez, à luz do direito, a mór parte das suas questões, acolheu carinhosamente quem quer que o procurasse, aumentou sem cessar.

 Após essa extensa lista de fatos, que comprovam a superioridade brasileira, o autor conclui que “o brasileiro passa dias mais felizes, dias mais tranqüilos, mais risonhos, mais esperançosos que o alemão, o francês, o inglês”.

Para Affonso Celso, os traços principais do nosso caráter nacional seriam:

...sentimento de independência, levado até à indisciplina; hospitalidade; afeição à ordem, à paz, ao melhoramento; paciência, resignação; doçura, longanimidade, desinteresse; escrúpulo no cumprimento das obrigações contraídas; espírito extremo de caridade; acessibilidade, que degenera, às vezes, em imitação do estrangeiro; tolerância, ausência de preconceitos de raça, cor, religião, posição; honradez no desempenho de funções públicas ou particulares.

Para reforçar suas idéias, citas as palavras balizadas de Victor Hugo sobre os brasileiros: “sois homens de sentimentos elevados, sois uma generosa nação. Tendes a dupla vantagem de uma terra virgem e de uma história antiga. Um grande passado histórico vos liga ao continente civilizador. Reunis a luz da Europa ao sol da América”.

O autor não faz referência às mazelas que afligem o Brasil: analfabetismo, epidemias, catástrofes, escravidão etc. Por exemplo, quando se refere à escravidão, relativiza suas graves conseqüências e procura demonstrar o processo pacífico, natural, em pé de igualdade que foi a incorporação da população escrava “muitos continuando a trabalhar, sem ressentimentos recíprocos, ao lado dos seus ex-donos”. O quadro trágico da realidade nacional é pintado com muitas cores, nuançado ao leitor, através da significativa questão final: “em que ponto do globo, em que página da história se registra uma revolução social, econômica e política desta magnitude e alcance, executada de maneira tão nobre?”. (p. 187)

Quanto ao futuro, o autor é de um otimismo magnífico, excessivo:

“viveremos, cresceremos, prosperaremos. A educação, o aperfeiçoamento, hão de vir. Somos ainda uma aurora. Chegaremos necessariamente ao brilho e ao calor do meio dia. (...) Cumpre que a esperança se torne entre nós, não uma virtude, mas estrita obrigação cívica” (p. 198). Apesar dessa exaltação, o autor não deixa de sinalizar ao leitor os perigos que ameaçam o Brasil: maus governos; separação do território nacional em vários Estados; intervenção nos seus negócios de alguma potência estrangeira; problemas relativos à afirmação de uma república nacional e internacionalmente reconhecida. Conclui esse capítulo citando Ernest Renan – “o que une e constitui as nações é o sentimento do passado, a posse em comum de um rico legado de tradições, o desejo de viver juntos e a incessante vontade de manter e continuar a fazer valer indivisa a herança recebida”, reforçando a premissa “depende simplesmente dos brasileiros unir e constituir assim o Brasil”. (p. 195)

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Fonte:
Maria Helena Câmara Bastos: “Amada pátria idolatrada: um estudo da obra Porque me ufano do meu país, de Affonso Celso (1900)”. Educar em Revista, núm. 20, 2002, pp. 1-16, Universidade Federal do Paraná, Brasil, 2002, disponível em: http://www.redalyc.org/

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