12/01/14

Panóplias e outros Poemas de Olavo Bilac

 Olavo Bilac - Alma Inquieta - Iba Mendes
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Olavo Bilac, aspectos biográficos e a crítica

Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 16 de  dezembro de 1865, num sobrado da rua da Vala. Bilac teve sua infância marcada  pela Guerra do Paraguai (1864-1870). Seu pai, o Dr. Brás Martins dos Guimarães  Bilac, médico, fora em missão para os campos de batalha, só retornando com o  fim da guerra. Ainda criança, participou da multidão que foi saudar o  desembarque do 13º  Batalhão dos Voluntários da Pátria, sob o alarido do povo,  as chaminés dos navios, o repicar dos sinos, o toque do Hino Nacional e tudo isto  envolvido pela brisa e o azul do mar. Bilac também e ainda em tenra idade ouviu,  de seu pai, narrativas impressionantes sobre a guerra, que certamente forjaram  nele o seu espírito patriótico.

Na adolescência, Bilac se embevecia pelos poetas franceses Victor Hugo,  Gautier, Leconte de Lisle e Herédia, e cultivava a amizade Artur de Oliveira (1851-1882), que chegou ao Brasil, vindo da França, trazendo consigo os segredos da  técnica parnasiana.

A vida amorosa de Bilac também foi um fator que moveu e influenciou sua visão do mundo e está fortemente registrada em sua poesia, e merece ser brevemente mencionada neste trabalho. Bilac amava Amélia, a irmã do poeta Alberto de Oliveira31, mas o irmão mais velho de Amélia, Juca, ao ver-se chefe da família pela morte do pai, negou o pedido de casamento de Bilac com Amélia, a inspiradora de Via Láctea, por considerá-lo um boêmio, irresponsável, que nem emprego tinha, embora Bilac não fosse tão boêmio assim. Este fato pode ter afetado sua vida acadêmica, levando-o a se desfazer dos cursos, atormentando e entristecendo sua vida. Bilac não mais amou outra mulher e sua vida de sucesso profissional provou exatamente o contrário do que pensava o irmão de Amélia.

Bilac estudou medicina no Rio de Janeiro, mas abandonou o curso para estudar Direito em São Paulo, que também não concluiu, abraçando o jornalismo e a literatura. Participou intensamente de política, das campanhas cívicas de alcance nacional e foi um defensor da instrução primária, da educação física e exerceu também a inspeção escolar Perseguido pelo governo do marechal Floriano Peixoto, por ocasião da revolta de 1893, escondeu-se em Vila Rica, Minas Gerais, e depois foi recluso na fortaleza de Laje, no Rio de Janeiro.

Conferencista notável e mestre das palavras, Olavo Bilac foi formador de opinião e de mentalidade, estreando-se em 1888 com seu livro Poesias, aos 23 anos. Acumulavam-se nele o jornalista profícuo, o propagandista entusiasmado da educação pública, o autor de poesias infantis, o patriota, o célebre conferencista mundano, tradutor, tratadista poético.
Exerceu diversos cargos públicos como: oficial da Secretaria do Interior do Rio de Janeiro, inspetor escolar do antigo Distrito Federal (Rio de Janeiro) e secretário da III Conferência Pan-americana do Rio de Janeiro, em 1906. Idealista e divulgador dos princípios nacionalistas, Bilac fez campanhas como a do serviço militar obrigatório, que ele viu como um meio de alfabetizar os adultos.

A personalidade de Olavo Bilac, de forte cunho literário e social, fez com que se tornasse o poeta mais lido do país nas duas primeiras décadas do século XX. Foi idolatrado em vida pelo público do Brasil, talvez por ter sabido elevar dois sentimentos humanos comuns: o amor à mulher e a veneração à Pátria. Segundo o crítico Sílvio Romero32 (citado por Barbosa, 1965):

Os versos lhe saem correntios, deslizam-se doces, maviosos, como se fossem falas decoradas e repetidas sem o mínimo esforço. Em suas composições avultam dois gêneros principais: idealizações históricas, feitas com invejável maestria, e efusões amorosas como não há melhores em línguas românticas (BARBOSA, 1965).  

De fato, Olavo Bilac foi um poeta parnasiano além de seus contemporâneos. Mais do que os poemas Herédia, os de Olavo Bilac eram requintados estudos de efeitos sonoros que poderiam ser extraídos da palavra falada. Este procedimento conferia plasticidade e vida à poesia de Bilac. Sua poesia transbordava de sonoridade e timbre, como que para desviar ao ouvido a sensação de “fórmula” da rígida estética parnasiana. Para ele o ouvido era o melhor mestre do poeta. O uso de variadas rimas, aliterações, assonâncias, elisões e absorções revestia a expressão de seu pensamento em cores, timbres, ritmos, sons e ruídos. Enfim, seus poemas preciosamente apurados, fluíam numa natureza sonora própria, numa alquimia que formulava música usando versos como instrumento.

Contudo, essa busca de novos elementos sonoros já se fazia presente na primeira metade do século XIX, na poesia de Allan Poe (1809 -1849) e era uma tendência da poesia finissecular simbolista de Baudelaire e Rimbaud (1854-1891). Podemos perceber analogamente esse novo conceito de som nas obras de Debussy (1862-1918), Schoenberg (1874-1951) e Webern (1883-1945).

Debussy, assim como Bilac, pesquisava as sonoridades da linguagem e as empregava como inovações musicais que eram baseadas, em certo sentido, nas inflexões sutis e especiais da língua e da poesia francesas, no caráter oposto ao forte acento métrico e ritmo da música italiana e alemã, na organização fluida e não-simétrica do metro francês. Os sons e seus padrões relacionam-se através de critérios auditivos arbitrários e sensuais, não se submetendo às regras do movimento e resoluções da lógica linear tonal. Essa dissociação do evento individual do som elevou o timbre e a articulação a um ponto de paridade com a harmonia e o ritmo. Esse som desvinculado e coisificado de Satie (1866-1925), Debussy, Shoenberg e Webern transformou a música, oferecendo ao século XX um amplo estudo tímbrico, gerando a expansão de técnica instrumental e orquestral, paralelamente à expansão de materiais.

Aplicava-se o uso de abafadores, sons velados nos violinos, articulação da língua nos sons de flauta e expressões como col legno, battuto e tratto. (SALZMAN, 1970)

Eis a observação de Sílvio Romero, confirmada pelo próprio poeta:

[...] Todas as palavras cabem no verso: tenha o versificador paciência, conheça a língua e adquira um apuro superior do ouvido. [...] [...] Da homofonia do verso trata Castilho33; não trata, porém, da rima, e nesta a uniformidade de som, variando apenas e quase sempre de mais abertos para mais fechados e vice-versa, é, a meu ver, sempre desagradável e não sei se algo haverá que a sancione.[...] (BILAC; PASSOS, 1905, p.33).

Mário de Andrade, em crítica ao poeta no Jornal do Comércio do dia 20 de agosto de 1921, reafirma o talento para a poesia artesanal de Bilac e descobre nele o poeta de vanguarda, que brincava de simbolismo:

[...] Por enquanto quero considerar Bilac como deputado da Beleza na terra do Brasil. [...] [...] Como deputado da Beleza era natural que Bilac estivesse estudado a arte de agradar por meio de seus versos... E que técnica formidável![...][...] Inteligentíssimo, estudioso, paciente, o tapeceiro de As viagens adquiriu uma facilidade, uma segurança, uma perfeição tal no manejo do alexandrino, e mesmo de outros metros, que confina com a genialidade. Se quiserem: Bilac é o malabarista mais genial do verso português. [...] [...] Quando devorei Tarde pela primeira vez, o meu pensamento parou estarrecido (não sei se me compreendem) diante destes versos: Um cometa passava... Reli, Tornei a ler. Creio mesmo que treli. Qual! Não compreendia! Que diabo! Olavo fizera simbolismo! Ou coisa que o valha? Não podia ser! Reli. Qual! Não entendia. Senti que pesava a minha alma parnasiana! Joguei-a fora. Eureka! Esplendor! Fecundação! As palavras brilhavam como vidas. As idéias palpitavam como profecias... [...] Fizeste com que o deputado da Beleza sonhasse o que sonhamos todos nós – a criançada de hoje – com os nossos olhos abertos: o futuro sincero e libertário da poética brasileira![...] E de ambos vives a zombar assim. [...] (BILAC, Obra Reunida, 1996, p.37).

Olavo Bilac também possuía plena e angustiada consciência das limitações da escola parnasiana, manifestadas em certos trechos de uma crônica sua, publicados em O Estado de São Paulo:

Qualquer um de nós pode, com maior ou menor esforço, fixar em versos mais ou menos perfeitos uma idéia mais ou menos nova. Tudo é questão de estudo e paciência: não há dificuldade que a pertinácia não vença; e fazer jogos malabares com as palavras é prodígio que só pode maravilhar os que não se iniciaram no mistério desta arte vulgar. Que valem nossos sonetos, nossas baladas, nossas fantasias de vôo curto? O artifício chinês que consome um ano de trabalho, em cavar e arrebitar o pedacinho de marfim, para dele extrair uma maravilha de escultura microscópica, tem mais valor do que qualquer um de nós... Poetas como o maior de nós, aparecem às dúzias, por ano, por esse vasto mundo; aparecem, brilham um momento, e apagam-se e desaparecem como flóculos de espuma no mar sem raias do tempo. “Poeta” quer dizer “criador” – continuador e rival de Deus -  capaz de tirar a luz das trevas e a inércia da morte, a palpitação da vida... Nós outros somos os miniaturistas do sentimento, os fabricantes dos pechibeques literários, que a moda aclama e repele, ao sabor dos caprichos. Um capricho nos eleva, outro capricho nos abate, e, dez anos depois da nossa morte, já os homens acham aborrecido e pretensioso aquilo que tanto esforço nos custa (PONTES, 1944, p. 551).
  
Cultor da perfeição estilística integrou, juntamente com Alberto Oliveira e Raimundo Corrêa34, a famosa tríade parnasiana brasileira. Seus poemas em forma de soneto de chave-de-ouro eram declamados em toda parte, pelos saraus e salões literários.
Em 1907, aproveitando-se da época em que a poesia ocupava a alma da grande maioria dos brasileiros, a revista carioca Fon-Fon promoveu um concurso para reconhecer o Príncipe dos Poetas e Bilac era o mais aplaudido, o mais popular, o mais idolatrado.

No dia três de outubro daquele ano, num grande banquete onde estavam representadas todas as classes sociais, Bilac recebeu a mais alta homenagem já prestada a um homem de letras no Brasil. Como Príncipe dos Poetas, Bilac então falou: “O que estais, como brasileiros, louvando e premiando, nesta sala, é o trabalho árduo, fecundo, revolucionário e corajoso da geração literária a que pertenço. [...]” (BARBOSA, 1965, p.105).

Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac, que tem por nome a fórmula do verso alexandrino (12 sílabas) faleceu em 1918, no dia 28 de dezembro, na rua Barão de Itambi, 35, de edema pulmonar em conseqüência de uma hipertrofia cardíaca da qual sofria havia anos. Seu velório foi do Silogeu Brasileiro e enterro, com imenso cortejo, no cemitério São João Batista.

As obras poéticas de Olavo Bilac foram: Poesias (1888): Profissão de Fé, Panóplias, Via Láctea, Sarças de Fogo, Alma Inquieta, As Viagens, O Caçador de Esmeraldas; Tarde (1919) e Poesias infantis (1895). Sua obra em prosa: Crítica e Fantasia (1904), Conferências Literárias (1906), Ironia e Piedade (1916) e Últimas Conferências e Discursos (1924).

Barbosa (1965, p. 9) inicia seu livro com uma reflexão que sintetiza a obra de Olavo Bilac: “A era Bilaquiana é um marco brilhante da história de nossa Poesia. Reveste-se, perante qualquer geração, de uma luminosidade de caríssimo relicário”.

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Fonte:
Francisco Braga: “uma análise poética e musical de sua canção  Virgens mortas, sobre soneto homônimo  de Olavo Bilac”. (Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação da Escola de Música da Universidade Federal de Minas Gerais Orientador: Prof. Dr. Maurício Veloso Queiroz  Pinto). Belo Horizonte, 2006.

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