12/01/14

Poesias Infantis, de Olavo Bilac

 Olavo Bilac - Poesias Infantis - Iba Mendes
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Os livros estão em ordem alfabética: autor/título (coluna à esquerda) e título/autor (coluna à direita).



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Bilac e a literatura infantil: civismo e ideologia nos primeiros Livros para crianças brasileiras

 Conhecido poeta da Belle Époque, Olavo Bilac foi o autor brasileiro que mais produziu textos de ficção para as crianças brasileiras até que Monteiro Lobato entrasse em cena no início da década de 1920. No mesmo período aproximaram-se dele, em volume de produção, somente o seu mais freqüente colaborador, Coelho Netto, e João Köpke, este último distinguindo-se dos demais por não enfatizar tanto os conteúdos cívicos.

 Esta constatação soa surpreendente devido ao pouco conhecimento que temos sobre estes livros que, não obstante, são os fundadores da literatura infantil produzida no Brasil. Aqui considero literatura infantil de uma maneira assumidamente restrita e conservadora, como textos de caráter ficcional, escritos por adultos, intencionalmente para crianças.

No que diz respeito à biografia de Bilac, a importância que o autor atribuía à produção de livros infantis está exemplarmente descrita na conversa relatada por João do Rio ao visitá-lo para recolher suas respostas à enquete publicada em O Momento Literário.
- Oito horas já? Há não sei quantas escrevo eu.
- Versos?
- Oh! Não, meu amigo, nem versos, nem crônicas — livros para crianças, apenas isso que é tudo. Se fosse possível, eu me centuplicaria para difundir a instrução, para convencer os governos da necessidade de criar escolas, para demonstrar aos que sabem ler que o mal do Brasil é antes de tudo o mal de ser analfabeto. Talvez sejam idéias de quem começa a envelhecer, mas eu consagro todo o meu entusiasmo — que é a vida — a este sonho irrealizável. [...] (apud Bueno: 1996, 28)

Estudos mais recentes sobre o autor vêm (re)descobrindo essa sua faceta de homem de ação, a qual norteou, por exemplo, a compilação feita por Alexei Bueno para publicação da Obra Reunida de Bilac pela Nova Aguilar em 1996. No parágrafo inicial da “Nota editorial”, diz o organizador:

Poucas figuras da vida mental brasileira, no decisivo período que vai das vésperas da queda da monarquia até a segunda década do século presente, tiveram uma projeção consensual, formadora de opinião e de mentalidade, comparável à de Olavo Bilac. Além do poeta, de imensa aceitação popular, acumulavam-se em Bilac o jornalista, o autor de poesias infantis, o propagandista entusiasmado da educação pública e do serviço militar obrigatório e, em suma o patriota, caráter para o qual convergiam todas as atividades mencionadas. (Bueno, 1996: 9)

 O “jornalista” Bilac, por sua vez, foi estudado e compilado por Antônio Dimas nos três volumes publicados em 2002 pela EDUSP, Ed.UNICAMP e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo.

Para além destas referências, deve-se sublinhar o interesse que Através do Brasil, em co-autoria com Manuel Bomfim, tem despertado44, motivando estudos específicos ou ganhando destaque em abordagens mais panorâmicas da literatura infantil.

Porém, a despeito das qualidades que permitem que este livro seja considerado o “livro-nação” brasileiro por excelência, para usar o termo cunhado por Patrick Cabanel na caracterização dos diversos “tours de la nation”, é na análise do conjunto dos textos infantis de Bilac que conseguimos delinear a tópica que configura a ideologia nacionalista presente na sua obra.

 Ao lado de traduções, compilações e uma obra de divulgação histórica, Bilac escreveu, individualmente ou em co-autoria, cinco livros para o público infantil: A terra fluminense (Bilac; Coelho Netto, 1898); Contos Pátrios (Bilac; Coelho Netto, 1904); Poesias Infantis (Bilac, 1904); Teatro Infantil (Bilac; Coelho Netto, 1905) e  Através do Brasil (Bilac; Manuel Bomfim, 1910). Destes, somente A terra fluminense, editado pela Imprensa Nacional, não teria outras edições, sendo,, contudo alguns de seus capítulos incluídos em Contos Pátrios, justamente os menos informativos e com mais elementos ficcionais.

 Os outros livros, todos pela Francisco Alves, teriam vida mais longa: Teatro Infantil estaria na 5ª .edição em 1926 e é o menos comprometido com a educação cívica. Poesias Infantis, primeiro volume da “Biblioteca dos Jovens Brasileiros” na sua 27ª . edição em 1961. Contos Pátrios, segundo volume da mesma Biblioteca, seria o que em termos numéricos alcançaria o maior êxito (considerando as dificuldades de localização dos exemplares que podem conduzir a uma conclusão equivocada), chegando à 50ª . edição em 1968, e Através do Brasil, disputando o título de best-seller do civismo com Contos Pátrios, chegaria a 43ª . edição em 1957.

 Mais do que o surgimento de um gênio na nossa literatura infantil como foi Lobato, que ofusca a produção anterior e coloca as expectativas sobre essa literatura em um novo patamar, me parece que as razões para o desinteresse acadêmico em relação a estes livros ligam-se menos a sua qualidade discutível do que ao preconceito em relação ao seu caráter fortemente ideológico, que é justamente o que quero examinar aqui.

Pois, ao contrário do que aparenta, a literatura cívica da Primeira República não é um conjunto de textos ideologicamente homogêneo. A análise de uma de suas principais características, o ufanismo, presente em todos os textos em maior ou menor grau, demonstra que não é sempre que o orgulho exacerbado da pátria oblitera a consciência das deficiências nacionais.
[...]


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Fonte
Patrícia Santos Hansen: “Olavo Bilac, ideólogo do nacionalismo brasileiro”. (Relatório final do projeto de pesquisa apoiado pelo Pós-Doutorado no Estado do Rio de Janeiro da CAPES/FAPERJ (09/2010-08/2011) - Supervisora: Ângela de Castro Gomes). Rio de janeiro, 2011, disponível em: http://www.ie.ul.pt/

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