18/01/14

A Retirada da Laguna, de Visconde de Taunay

 Visconde de Taunay - A Retirada da Laguna --- Iba Mendes
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Dos relatos de Taunay: abordagem teórica em a Retirada da Laguna


Pensamos: Taunay justificou a invasão do território vizinho pelo fato de que as terras foram ameaçadas pelo governo López, por pensar em alargar as fronteiras do seu país, movido simplesmente pela ambição pessoal, como comentou Taunay em A retirada da Laguna (1997, p.37). E refletimos como se mostrou o homem que habitava essa região. E como transportamos nossa discussão acerca da territorialidade, das fronteiras desses povos excluídos em suas origens e ‘jogados’ em parte alguma, contrariando o pertencimento tão inerente às formações culturais dos povos indígenas. Mas, estes, convencidos pelo não índio, ‘mergulharam’ nos campos de guerra, não empunhando armas, mas carregando-as, vencendo os desatinos da fome, da miséria, da perda da terra. Ao que nos perguntamos: houve também a perda da identidade?

O mesmo olhar estereotipado paradoxal que é dirigido a Mato Grosso pelo viajante estrangeiro, passa ser recebido do brasileiro de outras regiões. Macro e micro espaços se reorganizam a partir de um único ponto que ao mesmo tempo fascina e aterroriza. O espaço exótico e tropical possui um encantamento que supera a realidade (MENEGAZZO, 2001, p. 119). 

Entendamos que Taunay pertencia a uma elite, que representava o poder monárquico, mas que escreveu seus relatos com o ‘olhar’ do europeu, nos campos de guerra. O olhar do viajante, do estrangeiro que ressignifica os valores dentro de sua visão de mundo, com os recortes do olhar europeu, mas diante de um mundo estranho a ele e a toda a equipe: o interior do Mato Grosso.

Se a estratégia de hegemonia é, literalmente, insignificável sem a representação metonímica da sua estrutura agonística e ambivalente de articulação, como poderia a vontade coletiva estabilizar e unificar sua interpretação como agência de representação, como representante de um povo? (BHABHA, 1998, p.57). 

Ao que havemos de tentar responder: “Mover o enquadramento da identidade do campo de visão para o espaço da escrita põe em questão a terceira dimensão que dá profundidade à representação do Eu e do Outro” (BHABHA, 1998, p.81). Na citação acima, o autor Bhabha, em O Local da cultura, aponta para a discussão de como a representação do Outro adquire uma ambivalência desconstrutora como poder do conhecimento e da identificação do sujeito. A identidade está confrontada na expectativa do Outro e é um modo contraditório de representação do outro presente no discurso colonial.

Quando falamos em identidade; pensamos que as culturas são processos identitários linguísticos; os quais também conflitivos:

A identidade étnico-cultural não é uma realidade muda, ela é fonte de sentido e de construção do real, mesmo onde aparece como marginalizada. [...] Isto significa que a etnia, isto é, o pertencimento étnico em processo, concorre na constituição de sujeitos e de grupos. É um elemento constituinte de práticas sociais, e ao mesmo tempo as práticas sociais vão constituindo a reconfiguração étnica (KREUTZ, 1998, p. 2).

Quanto a reconfiguração étnica citada pelo autor Kreutz, percebemos também no texto de Vargas (2003), referindo-se ao povo Terena:

Aproximando essa discussão identitária para a sociedade Terena, observa-se que ocorre um processo semelhante ao pensamento do senso comum, ou seja, que os índios Terena não seriam (são) mais índios de verdade, porque muitos deles não falam mais a sua língua, suas pautas culturais foram modificadas, alguns estão nas universidades, disputando trabalho com os não índios, deixando suas terras indígenas e morando nas cidades próximas a elas, em busca de melhores condição de vida e de trabalho (VARGAS, 2003, p.35). 

E em Taunay (1997), o índio ‘transformado’ pelas influências culturais, étnicas, geográficas, pela perda do seu território após a guerra, originou uma transformação nos grupos indígenas, pois almejavam buscar melhores condições de sobrevivência e subsistência. Como vemos em Vargas (2003), o homem indígena procurou as cidades, na tentativa de mudar sua condição, estudando e assumindo os conceitos do homem não índio.

A relação aos índios Terena, pode-se dizer que as transformações culturais não foram somente resultados de suas pautas culturais de convívio. As próprias forças sóciopolítica-econômicas da sociedade regional forçaram a isso: a Guerra contra o Paraguai foi fator determinante para o esparramo dos índios pelo território sul-mato-grossense. Tiveram suas aldeias destruídas e os antigos territórios que ocupavam tomados pelas fazendas que começaram a se formar na região. O esparramo indígena pelas fazendas aconteceu justamente com o fim da referida guerra; esse também foi o período em que os Terena formaram o principal grupo de trabalhadores da região, tornaram-se a mão-de-obra mais procurada pelos fazendeiros, sendo também os responsáveis pelo desenvolvimento econômico daquela região (VARGAS, 2003, p.35).

Na obra A retirada da Laguna, não encontramos comentários sobre os índios ao final da guerra. Alguns trechos no final da obra, que foram escritos em outras obras de Taunay, podem ser resgatados como importantes. Em A retirada, porém, não encontramos abordagens sobre as configurações étnicas provocadas pela mudança cultural ocorrida na guerra, que os índios foram transformados em agricultores nas fazendas. Parece-nos comum, ao autor, pois citou que os índios eram os que plantavam o milho e, nas Memórias (2004), Taunay comentou sobre as lavouras e os cultivos dos Terena, tendo o cuidado de tratá-los como um povo educado e trabalhador. Percebemos então, nas palavras de Kreutz (1998), que o processo cultural é sempre um processo conflitivo. O autor pondera: “[...] o tema do racismo não é apenas um ‘companheiro de viagem da exploração colonial’, legitimando-a, mas também constitui um paradigma profundamente vinculado com as lutas nacionalistas que acabaram desembocando nas duas Guerras Mundiais” (KREUTZ, 1998, p.10).

Entre a diversidade e a diferença existe um abismo insondável, uma distância política, poética e filosoficamente opressora. O outro da diversidade e o outro da diferença constituem outros dissimilares. A tendência de fazer deles o mesmo retorna todo discurso a seu trágico ponto de partida colonial, ainda que vestido com a melhor roupagem do multiculturalismo – mesmo que seja igualitarista ou diferencialista. Há uma política, uma poética e uma filosofia da diferença. Mas como descrever essas questões em inventar novamente o outro, sem mascará-lo, sem designá-lo, sem emudecê-lo, sem deixá-lo tenso com a fixação do diferente, sem constituí-lo num simples ventríloquo da nossa mesmidade, sem transformá-lo em uma espacialidade exterior da nossa (in) diferença? (SKLIAR, 2002, p.201-2).

Pois o outro que se apresenta diante de ‘nós’, não necessariamente é aquele que ocupa outro lugar no mundo, como percebemos em Taunay (1997), no qual o outro é sempre o diferente de ‘mim’, o sujeito que ‘me perturba’, como foram os índios, quando o autor os chama de selvagens. Ou as mulheres, tratadas como seres inexistentes e os soldados, como seres que ocupavam aquele espaço, não por merecimentos, mas por dever para com a Pátria. Pensemos: se ao tratar o “homem bruto” como tal, o autor pretendeu desestabilizar o homem primitivo/nativo, isso permitiria um espaço maior para ser ocupado pelo colonizador? Na cabeça de Taunay, seria uma forma de ‘criar espaço’ para o homem mais culto, mais inteligente, mais preparado cultural e socialmente, o homem branco europeu, o colonizador? Pensava ele que os ‘direitos humanos’ seriam apenas do povo considerado ‘mais evoluído’, como encontramos no século XIX? Os ‘valores’ de Taunay refletiram-se nos seus textos e apareceram nos seus relatos.

Dessa forma, Skliar (2003) nos provoca questionando de que, quem é, afinal, o outro? E discorre: “... não é uma pergunta cuja resposta possa nos conduzir à confortável e tranquilizadora conclusão de que todos somos, de certo modo, outros ou então todos somos, de certo modo, diferentes” (SKLIAR, 2003, p.102). Ao que podemos concluir: as diferenças existem, não é questão de hierarquizá-las. Vemos então, em Taunay, uma hierarquia, em que as diferenças são silenciadas em nome do poder que detinha? Taunay também se deteve diante das etnias indígenas e do que chamamos de popular, suas crenças e seus costumes foram revelados apelo autor nas Memórias (2004).

E o termo popular é definido por Hall (2009) como “a manipulação e aviltamento da cultura do povo”, e que “não existe uma ‘cultura popular’ íntegra, autêntica e autônoma, situada fora do campo de força das relações de poder e de dominações cultuais” (HALL, 2009, p.237). Em outra descrição, o autor assinala que: “[...] a cultura popular é todas essas coisas que o ‘povo’ faz ou fez. Aquilo que define seu ‘modo característico de vida”. (Idem, p.240) E problematiza que nem tudo o que um povo faz pode ser visto como cultura, pois seria muito comum, muito descritivo, precisa se descobrir o que é um “mero inventário descritivo”, afirma.

 Estudando e refletindo sobre os sujeitos na guerra, presentes ou não, percebemos a necessidade de se entender as relações interculturais que apareceram projetadas ao longo do discurso.

Assim se trabalhariam os processos de hibridização em relação à desigualdade entre as culturas, com as possibilidades de apropriar-se de várias simultaneamente em classes e grupos diferentes e, portanto, a respeito das assimetrias de poder e do prestígio (CANCLINI, 2008, p.XXVI).

O que é o diferente? Parte-se do contexto cultural/histórico que o diálogo que ocorreu entre as partes, ‘o homem europeu’ e o indígena, assim como os membros da coluna que também estiveram envolvidos na guerra, tenha decorrido da ”mistura de hábitos, crenças e formas de pensamento europeu com os originários das sociedades americanas” (CANCLINI, 2008, p. XXVIII).

Os fenômenos geográficos, econômicos, religiosos, morais e culturais tiveram uma força maior nos campos de guerra, e o sentimento de comunidade amparava os membros da comitiva tornando-os mais unidos num sentimento coletivo.
Esse estudo é uma reflexão acerca das diferenças em Taunay, especificamente na obra A retirada da Laguna. Escolhemos por analisar na obra recortes de textos que o autor informou-nos sobre as diferenças que se fizeram notar nos campos de guerra. Mas, Taunay não os mostrou. Apenas apresentou ‘olhares’ colonialistas, de um jovem descendentes de europeu, que trazia consigo ‘marcas’ da Europa tradicionalista com seus valores do século XIX, e o autor aplicou-os a todos. Para que questionar um modelo hierarquizador, eurocêntrico e apologético? Taunay convencido de que a forma mais adequada seria omitir certos apontamentos a D. Pedro II, à corte brasileira, às famílias europeias, para não produzir conflitos desnecessários, assim o fez em A retirada. Permitiu-se assim, fazer com que a sociedade conhecesse sua história tal e qual sentiu e viveu, que foram omitidas em A retirada,     mas escritas com detalhes, grosso modo, saborosas, nas Memórias, e publicadas somente cinquoenta anos após sua morte, conforme desejou o autor.

O fundamental, no entanto, é que se perceba o étnico como um processo e não como um dado resolvido no nascimento. O étnico constrói-se nas práticas sociais, num processo de relação. Por isso é fundamental entretanto para as relações de poder entre os diferentes grupos sociais e culturais (KREUTZ, 1998, p. 5).

Queremos saber quem foi Taunay: o representante de um povo? De uma nação? O legitimo representante do Governo Imperial durante a Guerra contra o Paraguai? O olhar eurocêntrico sobre o sujeito marginalizado socialmente?  Como podemos fazer a leitura dessa representação se ao mesmo tempo em que representava um povo, era representado pelos demais em função da e na guerra? Ao questionarmos sobre a posição ocupada por Taunay no campo da representação, perguntamo-nos se ele também era representado pela comitiva, pelos indígenas e até pelo inimigo? Na leitura da obra tentamos entender o que é esse espaço da diferença que nos move no sentido de buscar significações para nossa pesquisa.

Chegar a uma identidade significa encontrar diferenças, que nada mais são do que uma identidade enraizada em solo próprio, separada de outras identidades. Ao mesmo tempo em que a diferença isola, o receio de ficar só é superado pelo delineamento identitário. Frente ao Outro, os limites se definem e se superam (MENEGAZZO, 2001, p.113).

Não pensamos em criticar a obra A retirada, nem poderíamos pela relevância de sua narrativa para a história. Apenas procuramos discutir a maneira como o autor aborda o sujeito, que é o Outro, em seus relatos, e como os apresenta ao leitor. O objetivo é questionar como ultrapassar as fronteiras da literatura propriamente dita e transcender pelas imagens históricas, triunfalistas, que o autor criou, para apresentar conotações do poder, por ele representado. E percebermos como culturalmente Taunay se serviu da diferença entre os sujeitos, para representar o poder monástico que tinha se serviu da autoridade, e para isso, criou os sujeitos da guerra com o olhar eurocêntrico que trouxe consigo.

E imergindo nas questões de identidade pensamos com Kreutz em como: 

A cultura está vinculada à vida social. Movimentos sociais, conflitos, instituições, espaço social, a linguagem e a visão de mundo dos indivíduos, tudo isto é uma expressão cultural. As culturas, mesmo onde aparecem como marginalizadas e excluídas, não são realidades mudas, mas são fontes de sentido e de construção do real. O ser humano de fato nasce culturalmente situado, o que, no entanto, não é um destino já que vai re-situando sua situalidade cultural, retomando constantemente o conflito de tradições oculto sob o signo de uma “identidade estabelecida” (KREUTZ, 1998, p.5).

Procuramos entender como Taunay ‘significou’ a diferença. No texto de A retirada, traçou comentários a respeito da equipe que comandava a expedição de guerra. Em dado momento, porém percebemos que o autor deixou claro sua animosidade em relação ao comandante Camisão, um sujeito que, nos parece, a princípio, fora indicado para o cargo de comandante, segundo Taunay, sem ao menos ter condições de ser líder. A liderança não era seu forte. O autor nos mostrou momentos de ansiedade, em que o comandante titubeou em algumas passagens e, ao invadir o Paraguai, fora teimoso. Explicou que o comandante não era ligado a definições rápidas e imediatas, e quando as fez, surpreenderam Taunay.

Percebemos nesta citação:

Nosso comandante leu nesse despacho não o que havia ali, isto é, indicação facultativa, mas uma ordem formal e peremptória para avançar. Foram inúteis as observações que lhe fizeram a propósito do assunto: cego por sua suscetibilidade doentia, não aceitava sequer as objeções menos contestáveis (TAUNAY, 1997, p. 54).

Súbitas decisões que, segundo Taunay (1997) poderiam ter comprometido toda a equipe. Suas decisões foram marcadas por críticas de Taunay. Nesse questionamento julgamos importante também salientar a atitude de Taunay em relação a algumas passagens, quando comparou o exército brasileiro ao exército francês que usou na Argélia alguns tipos de assentos amarrados a cavalos para transportar os doentes.

E sobre o espaço das fronteiras, observamos no relato de Taunay o momento da chegada das tropas na fronteira do Brasil com o Paraguai:

Foi um momento solene, uma emoção a que ninguém escapou, oficiais e soldados. Ver o aspecto da fronteira que demandávamos representou para todos uma surpresa. Ninguém estivera ali antes. Alguns podiam já tê-la visto, mas apenas com os olhos de caçador ou de andarilho, para quem o chão é indiferente. A maioria de nós ouvira falar vagamente da fronteira, mas agora ali estava ela à nossa frente, como ponto de encontro de duas nações armadas, como campo de batalha (TAUNAY, 1997, p. 82).

O espaço da fronteira visivelmente mostrado a nós pelo autor como um espaço geográfico que, da mesma forma, não deixou de instaurar no grupo certa emoção, pois os destinos daqueles homens estavam interligados, pela história. Essas ideias generalizáveis tomaram forma e hoje, nós homens do século XXI, questionamos: o que é generalizável torna-se comum ao homem de forma a impetrar a violência e os costumes, todos como sendo uma verdade absoluta? Em uma guerra, as ordens, os mandos são sempre generalizáveis e, portanto não são questionados, pois não cabia naquele espaço/tempo regular as informações? Todos os mandos foram absolutos, cumpridos, suprimindo dos sujeitos seus direitos? O aceitável não se questionou, apenas foi cumprido nas defesas dos interesses políticos. E é necessário que

[...] enveredamos, inicialmente, pelo papel de textos como o de Taunay na divulgação para o mundo da barbárie e da violência das guerras. Por outro lado [...] não podemos deixar de questionar o quanto o generalizável é, a um só tempo, necessário na compreensão das coisas do mundo, estabelecendo as fronteiras entre o aceitável e o não aceitável, entre a barbárie e a solidariedade, entre o humano e o que já não parece humano, mas também o quanto o mesmo generalizável, quando transformado em senso comum, banaliza o jogo compreensivo, para torná-lo verdade unilateral e inconteste na defesa de interesses de grupos políticos, econômicos e culturais (SANTOS, 2010, p. 248).

Esses espaços de fronteiras ainda podemos entender como espaços de territorialidade, mas as questões não são tão simplistas: falar em fronteiras não é questão meramente espacial. Trata-se de um espaço de ocupação em que os sujeitos estão à mercê de suas trocas identitárias, benevolentes ou não; são espaços multiculturais e de trocas, espaços em que se alargam as relações.

Assim, A retirada da Laguna move-se pelo espaço das relações externas do Brasil com seus vizinhos geográficos – no caso de A retirada, o Paraguai – mas sobretudo como o Estado brasileiro inseria-se ou pretendia firmar-se em meio ao cenário do século XIX, marcado,       grosso modo, por uma ideia, por um projeto de modernidade, de cultura e por uma proposta econômica – o liberalismo. Avança-se, portanto, para além dos limites espaciais, intentando-se marcar um lugar para o Brasil que suplantasse a lógica do local, alocando-o em uma proposição de pertencimento a uma tradição maior, qual seja, a européia, inclusive do ponto de vista beligerante, com a Guerra da Tríplice Aliança ou Guerra do Paraguai (SANTOS, 2010, p. 249).

Que fazer com esses espaços que se interligam e criam rupturas, os espaços das diferenças que são aplicados em nosso meio sem que muitas vezes percebamos? Espaços em que as fronteiras são sinônimos de limites, de imbricações de espaços deslizantes em que configuram as relações dos sujeitos na formação de suas identidades. Os espaços marginais (dos sujeitos que vem da margem), também são significativos, na formação das diferenças. Muitas vezes, são espaços de exclusões, donde os sujeitos observam e analisam com os olhares subalternizadores, o olhar de Taunay. Os olhares atravessados de Taunay podem ser definidos como Kreutz propõe:

No monólogo cultural predominante, a diferenciação foi um estigma a ser superado pelo caminho da uniformização, na perspectiva de uma superioridade protetora, não se percebendo a “comiseração paternalista” como uma forma de discriminação (KREUTZ, 1998, p. 7).

“Na mesma prática de insensibilidade com as diferenças, situa-se a relação do colonizador cristão em relação aos povos indígenas” (KREUTZ, 1998, p. 8). E complementa: “O artifício de domínio do europeu, cristão-colonizador, era o de tornar os povos com culturas diferentes mais iguais a ele para colocá-los melhor a seu serviço” (Idem, p.8).

No contato do colonizador, aparece nitidamente a compreensão do processo identitário como algo monolítico e homogêneo, algo acabado, suscetível de ser transmitido. E esta concepção a-histórica, metafísica, levou-o a uma incapacidade total de diálogo com as culturas diferentes da sua. Entre os missionários, também era consensual que o modo de ser indígena não se ajustava aos padrões da sociedade lusa e hispano-colonial. A função da redução e da escola deveria ser a de transformar o modo-de-ser indígena, ajustando-o aos princípios euro-cristãos (KREUTZ, 1998, p. 8).

Parece-nos que para Taunay o olhar atravessado era um modo de ver o outro, legitimado pela diferença e pela ‘arrogância’ do olhar do colonizador. Pensemos como, mesmo em meio a tanta adversidade, o autor não se deixou influenciar pelos modos e crenças, costumes e gostos de outros povos? Mesmo que seu olhar tenha sido permeado pelos costumes e influências europeias, não teria sido Taunay um sujeito exposto às imbricações identitárias, pelo convívio de tantos anos junto aos combatentes, às transformações decorrentes da guerra, portanto também um sujeito em transformação?

Foi Taunay também um outro, sujeito de si mesmo, que ao término da guerra percebeu-se ‘capturado’ pelos modos dos índios, pela natureza do interior dos pantanais, ou tão somente pelo olhar frágil e doce da bela índia Guaná Antonia, por quem disse nas Memórias (2004) ter sido apaixonado? Estas reflexões de fato nos remetem a pensar como Taunay também foi um sujeito ajustado e imbricado culturalmente, podendo nem ter se dado conta disso, no final de tudo. 

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Fonte:
Elisa Maria Balzan: “A criação da diferença na obra a Retirada da  Laguna de Visconde de Taunay”. (Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação  – Mestrado e Doutorado em Educação da Universidade  Católica  Dom  Bosco,  como  parte  dos  requisitos  necessários  apresentados  para  obtenção  do  título  de  Mestre em Educação. Área de concentração: Educação. Orientador: Prof. Dr. Neimar Machado de Sousa). Campo Grande, 2012

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