18/01/2014

Ao Entardecer, de Visconde de Taunay

 Visconde de Taunay - Ao Entardecer - Iba Mendes
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Os livros estão em ordem alfabética: autor/título (coluna à esquerda) e título/autor (coluna à direita).

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Informações sobre Ao Entardecer: contos vários

Ao entardecer: contos vários é uma coletânea de contos escritos pelo Visconde de Taunay que foram primeiramente publicados em jornais e depois reunidos pelo próprio autor em um livro previamente intitulado “Já Crepúsculo”, em 1899. Porém, com sua morte neste mesmo ano, Visconde de Taunay não presenciou a impressão do seu livro, deixando um dos seus últimos trabalhos nas mãos de seu irmão Luiz Goffredo de Escragnolle Taunay, que conclui este projeto publicando o livro com um título mais suave e definitivo, em 1901.

O único texto crítico encontrado até agora sobre este livro é o prefácio de sua segunda edição, escrito por Affonso de Escragnolle Taunay – o filho do Visconde de Taunay – em publicação de 1926, pela editora Melhoramentos de S. Paulo. Neste texto obtivemos algumas informações preciosas, que orientaram uma parte da nossa pesquisa, sobre a localização dos contos publicados nos jornais, os quais justificam a nossa proposta de reedição deste livro com a sua respectiva atualização ortográfica. Segundo o prefaciador, estes contos foram escritos depois de 1893, e alguns deles – “Pobre menino”, “Ciganinha” (os dois contos sob o pseudônimo de Heitor Malheiros) e “Uma Vingança” (ganhador do primeiro prêmio do concurso da Gazeta de Notícias) – foram publicados na imprensa diária do Rio de Janeiro. “Cabeça e Coração”, ainda de acordo com Affonso, talvez tenha aparecido pela primeira vez num jornal de São Paulo e, quanto aos contos “Rapto original” e “O Estorvo”, ele não menciona nenhum dado sobre eventuais publicações anteriores ao livro.

Desta forma, a partir de tais informações, conseguimos localizar os contos publicados na Gazeta de Notícias, e, para a nossa surpresa, encontramo-los dispostos de forma diferenciada nas páginas do jornal – não nos folhetins, como era de costume publicar estes tipos de textos, mas nas primeiras páginas, num espaço bastante privilegiado da Gazeta de Notícias – o que sugere a relevância dos textos e também do autor para o público leitor de sua época. “Pobre menino!” apareceu com o título em inglês “Poor Boy!” nos dias 26 e 27 de maio de 1893; já “Ciganinha”, por ser um conto muito mais extenso, foi publicado nos dias 11, 13, 15, 17, 21, 23, 25 e 27 de junho do mesmo ano, estes dois com o pseudônimo de Heitor Malheiros – como Affonso nos informa; “Uma Vingança” foi publicado no dia 07 de abril de 1894 com o pseudônimo de Santos Baena; e “Rapto Original”, no dia 20 de setembro de 1894 com o pseudônimo Gaudeamus igitur. Sobre os contos “O Estorvo” e “Cabeça e Coração”, infelizmente não tivemos dados suficientes para localizá-los.

O primeiro volume de Ao Entardecer: contos vários apareceu, portanto, em 1901, publicado pelo livreiro H. Garnier, e teve uma tiragem bastante reduzida, de apenas 1675 exemplares. Segundo Affonso, “muito pequena divulgação coube ao livro, inexplicavelmente, pois os demais de seu autor tem as suas edições rapidamente esgotadas. E realmente, decorridos vinte e tres annos tornavam-me scientes os editores que a primeira tiragem se vendera toda.” (TAUNAY, 1926, p. 3)

Ao compararmos as tiragens de Ao Entardecer com as do romance Inocência – talvez a obra do Visconde de Taunay mais conhecida e lida até os dias de hoje, com 33 edições publicadas em português até 1952 e traduções feitas para, entre outras línguas, o alemão, o espanhol e o polonês, além do fato de ter sido o primeiro romance brasileiro a ser traduzido para o japonês no século XIX (MARETTI, 2006) – entendemos este tom melancólico com o qual Affonso de E. Taunay trata da questão da recepção deste livro.

Ao adentrarmos nos universos construídos nestes contos, compartilhamos deste mesmo sentimento do prefaciador, não apenas por se tratar de uma obra de um grande mestre da literatura brasileira, mas também e principalmente porque, aqui, reconhecemos as grandes habilidades narrativas do escritor, já atestadas em seus romances mais conhecidos. Nestes contos deparamos com uma verdadeira versatilidade narrativa, com a qual os respectivos narradores exploram as facetas trágicas, cômicas, satíricas e irônicas que dão o tom a cada um dos textos. Por exemplo, para “Pobre menino!”, “Cabeça e coração” e “Uma vingança”, observamos o tom trágico; para “Rapto original”, o cômico-irônico; para “Ciganinha”, o cômico; e para “Estorvo”, o tom irônico-trágico. Além dessa versatilidade, estes contos ainda apresentam alguns traços de modernidade como a intertextualidade (nos momentos em que as referências literárias desempenham funções diversas), as digressões (nas vozes outras que se inserem aqui e ali), alguns momentos metalingüísticos, a virtuosidade descritiva característica do autor e o caráter urbano-culto da linguagem (que o leva a caracterizar os falares e as práticas culturais interioranas).

Diante destas qualidades encontradas nos contos que compõem este livro, pensamos no que pode ter dado errado, ou no que realmente aconteceu para que ele tenha tido esta recepção, ou, melhor dizendo, tenha sido tão pouco lido e seja praticamente desconhecido nos dias atuais. Talvez uma das possíveis respostas a esta nossa inquietação seja aquela já exposta pelo Affonso de E. Taunay, da pouca divulgação feita ao livro, pois, como diz o ditado popular, “a propaganda é a alma do negócio”.

Apesar de nos atermos especificamente a Ao Entardecer: contos vários, torna-se válido registrar aqui que encontramos, em nossas pesquisas feitas em busca de algum outro texto crítico referente ao livro (além do prefácio de sua segunda edição, já citado), alguns estudiosos que também manifestam um sentimento melancólico quanto à obra “esquecida” do Visconde de Taunay. Dentre eles destacamos um trecho do artigo “O Visconde de Taunay no seu sesquicentenário”, de Odilon Nogueira de Matos, publicado na revista Notícia Bibliográfica e Histórica em 1993:

É lamentável que obra tão vasta esteja praticamente esquecida, pois apenas dois de seus livros continuam sendo reeditados, A Retirada da Laguna      e Inocência. Aliás, Taunay teve a presciência disto, tendo consciência, segundo afirmação sua, de que só essas duas obras chegariam à posteridade. O que é pena, pois na sua produção há páginas de leitura útil, agradável e salutar até para os nossos dias: os perfis de personagens com as quais conviveu; as descrições da natureza brasileira; os estudos históricos constantes de Reminiscências e Homens e cousas do Império, os relatos de viagem de ida e volta do Mato Grosso, publicados sob os títulos de Marcha das Forças e Viagens de outrora, nos quais há elementos excelentes para uma geografia retrospectiva das regiões percorridas; a vida social numa fazenda paulista da época da escravidão, em Mocidade de Trajano; as crises financeiras dos primeiros tempos da República, em O Encilhamento, e por aí afora... (MATOS, 1993, p.19-20)

Resgatamos, portanto, com este trabalho, um dos Visconde de Taunay contista e lançamos, desta forma, uma nova luz a uma das últimas obras escritas pelo autor de Inocência, numa tentativa de recuperar e evidenciar a importância dos contos de Ao Entardecer para a atualidade. 


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Fonte:
Sandra Regina Vieira dos Santos: “Sob A Luz Crepuscular:  uma leitura de Ao Entardecer (1901), do Visconde de Taunay”. (Dissertação apresentada  à  Faculdade  de Ciências  e  Letras  de  Assis  – UNESP  – Universidade  Estadual  Paulista  para  a  obtenção do título de Mestre em Letras  (Área  de  Conhecimento:  Literatura  e  Vida Social). Orientadora:  Dra. Maria  Lídia  Lichtscheidl Maretti). Assis, 2008

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