22/12/13

Uma Campanha Alegre, de Eça de Queirós

 Eca de Queiros - Uma Campanha Alegre
Para baixar este livro gratuitamente em formato PDF, acessar o site  do “Projeto Livro Livre”: 
Os livros estão em ordem alfabética: autor/título (coluna à esquerda) e título/autor (coluna à direita).


---

---
A conjuntura Histórica

No que concerne especificamente a UMA CAMPANHA ALEGRE a obra é resultado de uma reorganização feita por Eça de Queirós em 1890 da parte que lhe cabia nos artigos escritos em colaboração com Ramalho Ortigão, sob o nome de "Farpas'. Tratava-se de publicações mensais, orientadas dentro de um sentido de crítica geral aos acontecimentos da atualidade portuguesa e à sociedade em geral, combinando o conteúdo doutrinário com o estilo humorístico e Irônico e que vão constituir-se na trave mestra de toda a obra posterior de Eça, entendida como decorrência deste "Inquérito social" prévio (veJa-se Saraiva, 1917), feito à sociedade Portuguesa. Entre o momento da escritura das “Farpas" e o da reformulação em Uma Campanha Alegre medeiam vinte anos, distância mais do que suficiente para torná-las obsoletas do ponto de vista dos objetivos práticos que tinham conduzido a sua produção. Esse fato está na origem do esclarecimento feito pelo autor a respeito das condições em que tinham sido gerados tanto tempo antes esses discursos, bem como de uma explicação quanto à razão de sua reedição. Deste modo o autor toma a seu cargo fornecer na Advertência, que precede os textos, uma série de Informações a respeito do condicionalismo da própria obra. Aí aponta como Ideais normativos do seu discurso a busca da Verdade, da razão e da Justiça; como motivação próxima o estado de decadência da sociedade portuguesa de seu tempo e suas Instituições e, como determinação Ideológica, uma interpretação um tanto ingênua e falseadora do socialismo proudhoniano, que radicava na crença da possibilidade de um acoplamento a uma política Pedagógica que apressasse a Evolução. Não nos cumpre, neste momento, aprofundar as divergências entre o socialismo utópico e a posição de  Eça, mas constata-se com certa facilidade quanto a utopia socialista convergiu com certos Interesses de classe do autor, Que via através da evolução das estruturas econômicas preservadas as garantias burguesas da ordem, sem os sobressaltos de uma revolução que pusesse em causa tanto o elitismo Intelectual e refinado, Quanto sua aliança com a alta burguesia brasonada do constitucionalismo monárquico português.

Contemporâneo da Comuna de Paris, Eça tem em relação aos movimentos de massa uma atitude ambivalente, ora manifestando um respeito submisso pelos grandes processos da História, ora ridicularizando a f alta de "modus operandl" do proletariado português e, em todo o caso, alertando o burguês para o perigo de um levante popular:

No entanto, cuidado! Aquele pano de Tunda não está Imóvel: agita-se como Impelido por uma respiração invisível. Alguém de certo está do outro lado. Enquanto a farsa se desenrola na cena alguém  por trás do fundo, espera, agita-se, prepara-se, arma-se talvez ... - Quem é esse alguém? As vossas consciências que vos respondam.  O que apenas podemos dizer é que não é o Sr. bispo de Viseu (Eça de Queirós, 1969: 21)

Este alerta que em parte, pelo menos, explica a campanha de Eça, justifica-se plenamente. os discursos vêm Intervir num contexto social e político marcado exteriormente pela agitação Internacional e Interiormente por um quadro de aparente abona e inação que o rotativismo político, realizado pela alternância no poder dos quatro principais partidos políticos, conduzia a acentuar. Entretanto, o perigo de um conflito social mais sério parecia rondar as estruturas do poder.

O sistema político português, a Regeneração, de orientação fundamentalmente capitalista, querendo avançar cem anos em um, entregava-se a uma política de fomento material,  seduzida por uma euforia de progresso, atrelada a promessas  demagógicas de bem estar social, que ameaçava conduzir o país  à falência e à dependência dos bancos internacionais, ao mesmo tempo que a primazia econômica e a fusão sucessiva dos partidos conduzia ao esvaziamento da vida política. Dentro da área Intelectual começava a cavar-se um fosso entre por um lado, o sistema constitucional, Já então sentido como desgastado pelos espertos socialistas e os Jovens Idealistas sardas de uma plêiade Intelectual contestaria, imbuídos de proudhonismo, acreditando na fraternidade universal, na felicidade humana na Terra, numa democracia que Instaurasse a reforma social sobre as ruínas das instituições abolidas e, profundamente céptica ao slmplismo político e ideológico do sistema.

No momento em Que os textos de Eça surgem, uma série de circunstâncias econômicas e sociais, decorrentes da alteração do quadro social tradicional, começava a fazer- se sentir. O operariado português, cuja consciência de classe era ainda rudimentar e que começara a organizar-se em associações na década anterior, passa a dar sinais de efervescência; a penetração do capitalismo no campo, expondo os camponeses da terra e ameaçando Jogá-los em massa  para a emigração alarga o grupo de descontentes, cada vez afastadas do poder Mais e engrossado pelas camadas da burguesia Insatisfeitas com a política de protecionismo econômico do governo a determinados setores da economia privada. A situação dá origem a uma crise social que tomará a forma de movimento de protesto em Janeiro de 1868, levando a um pronunciamento do forças tradicionais e gerando o origem, na década seguinte, republicano.  

---
Fonte:
Ana Maria Dantas Cunha de Miranda Oliveira: “Contribuição para o estudo da ironia em uma campanha alegre de Eça de Queiroz”. (Dissertação Departamento do Instituto apresentada ao de  Lingüística de Estudos da Linguagem. Da Universidade Estadual de Campinas. Orientador: Haquira Osakabe). Campinas, 1990.

Nenhum comentário:

Postar um comentário