15/12/13

O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queirós

 Eca de Queiros - O Crime do Padre Amaro - Iba Mendes
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Algumas considerações sobre as personagens Amaro e Amélia

Amaro nasceu em Lisboa na casa da Marquesa de Alegros. Seus pais eram criados da casa. Quando pequeno era franzino, acanhado e cheio de espinhas carnais. Desde criança,  tinha contato com o clero. Desde os onze anos, ajudava à missa, e passava seus sábados limpando a capela. Foi para o seminário aos quinze anos e quando saiu ainda era jovem, bonito e estava mais forte. O rosto ovalado, a  pele trigueira, os cabelos pretos levemente anelados, tudo isto fazia de Amaro um homem atraente. Tinha plena consciência da vida de limitações que lhe fora imposta, e por esse motivo, criticava o clero por não poder realizar seus desejos carnais e naturais. Desde sua chegada a Leiria, a cada instante desejava Amélia e fazia muitos planos para concretizar esses desejos. Era um homem fraco e ambicioso que claramente não tinha vocação para o sacerdócio. 

Já Amélia era a rapariga mais bonita da cidade de Leiria. Tinha vinte três anos e era muito desejada. Foi criada entre os padres e sua mãe sempre recebia visitas eclesiásticas. Tomou lição de piano com o Tio Cegonha e animava as reuniões dos padres à noite em sua casa. Alimentava uma verdadeira adoração por festas de igreja e pela convivência com os santos, provavelmente fruto de sua carência paterna de certa maneira suprida temporariamente pela convivência com os padres, de tal maneira, que desejava ser freira. Deixou envolver-se pelo Padre Amaro por meio de suas imaginações. Em apenas um momento de lucidez se dá conta da gravidade de suas atitudes, quando se afasta de Amaro e pede perdão a Deus pelos seus erros. Porém, sua decisão durou pouco, pois Amélia possuía uma relação de total  dependência com Amaro que a cegava, impedindo-a de avaliar com clareza as conseqüências dos seus atos que contradiziam sua educação e suas convicções religiosas.

Em um segundo momento, uma complicação surge por meio da figura anticlerical e revolucionária de João Eduardo; o namorado que se sentindo traído escreve um comunicado que será publicado no jornal  O Distrito, sob pseudônimo, atacando o clero e revelando algumas de suas indiscrições e liberdades por suspeitar da fervorosa relação que sua noiva tem com o Padre Amaro. João Eduardo funciona como o agente catalisador e  questionador da situação abusivamente dominante,  e, moral e religiosamente conflitante do clero em cidades provincianas. A dinâmica que se segue comprova claramente ao leitor esse fato, pois a jovem beata, já grávida de Amaro, é maliciosamente induzida a ceder às pressões do padre para casar-se com João Eduardo, e assim, encobrir o pecado por trás da verdadeira paternidade da criança que espera. Perseguido implacavelmente pelos padres, em uma clara alusão aos conflitos existentes entre o clero e a ciência, João Eduardo perde a noiva e o emprego.

A dinâmica que se segue revela a tensão que se estabelece no triângulo amoroso Amaro- Amélia- João Eduardo. Em razão do comunicado, convencida por Amaro de que seria a melhor solução para ambos, Amélia aceita se casar com João Eduardo e Amaro muda-se de sua casa. A difamação e perda de status que o comunicado impetrou aos padres fazem com que os mesmos, na figura do Padre Natário, desejem incessantemente sua revelia. Natário, usando o santo e confidencial meio da confissão, descobre o autor do artigo e conta a Amaro. Perseguido pelo padre, João perde a noiva e o emprego. Muda-se de Leiria. Amaro aproveita-se para aproximar-se mais de Amélia e passa a ter reações íntimas com ela que acabam por gerar um fruto, a personificação indesejada do pecado: um filho. Nesse momento, o caráter de Amaro é posto a prova e, temeroso de perder seu imaculado prestígio social e religioso, o desenlace dessa trama indesejada pelo Padre resultará em um estado de desgraça iminente: Amélia dá a luz na Quinta, longe da mãe; não resiste à tristeza e morre um dia após o parto. A criança é entregue a uma "tecedeira de anjos" e morre. Devido ao descontrole das  circunstâncias, o padre Amaro foge.  

Em seu estado final, ou seja, em sua terceira versão, o romance aproxima-se de uma crítica social mais rígida e voraz quando descreve a cena em que Amaro e o Cônego Dias se encontram ao acaso no Chiado e foram andando até o Largo de Camões, em Lisboa. Já nitidamente recuperado dos acontecimentos de Leiria, Amaro segue com sua carreira  eclesiástica procurando uma nomeação na paróquia de Vila Franca, próxima da capital. Dos fatos ocorridos em Leiria, o Padre parece ter aprendido a lição que não se deve envolver-se com mulheres solteiras, apenas com as casadas. Nesse momento, Eça parece caracterizar bem o ambiente conectado à figura de Amaro: em meio às novidades políticas que vinham de França, numa Lisboa imersa num “mundo decrépito” que “se movia lentamente”, Amaro  apresenta-se com o espírito tão “renovado” quanto à atmosfera que envolvia a cidade; tão embrenhado de si e de suas aspirações políticas dentro da igreja, quando a descrição que o conde de Ribamar fazia de Lisboa e dos acontecimentos ocorridos em Paris. 


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Fonte:
Raquel Alves Franco: “Literatura e cinema no universo queirosiano: duas adaptações de O Crime do Padre Amaro”. (Dissertação apresentada ao Programa de  Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal Fluminense, como requisito para obtenção do Título de Mestre em Literatura Portuguesa . Orientadora: Profa. Dra. Ceila Maria Ferreira Batista Rodrigues Martins). Niterói, RJ, 2009 .

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