13/12/13

Crônica Completa de Lima Barreto

 Lima Barreto - Contos Completos - Iba Mendes
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Lima Barreto: Crônica e Política

Lima Barreto era uma das vozes dissonantes deste projeto  republicano modernizador do país. Em crônica feita sobre os  planos do prefeito Carlos Sampaio, Lima escreve:  “Vê-se bem que a principal preocupação do atual prefeito do Rio  de Janeiro é dividi-lo em duas cidades: uma será a européia e a outra  indígena”.

Escreve Maria Zilda Ferreira Cury, em seu livro Um mulato  no Reino do Jambon: as classes sociais na obra de Lima Barreto:  “Não podemos esquecer que os primeiros escritores da literatura  portuguesa foram cronistas e que alguns de nossos melhores poetas  hoje dedicam à crônica uma considerável parte de sua produção [e que]  o jornalismo se insere em algumas das obras mais significativas de  Lima Barreto como uma microrrepresentação do próprio mundo na obra   representado, ratificando de maneira flagrante as contradições no  complexo social”.

Lima Barreto, com o uso de uma linguagem mais próxima da  oralidade, mostra ao leitor de sua crônica a ideologia  dominante e o quanto estava voltado para seu tempo, para os  embates e os conflitos da sociedade deste tempo, no espaço de  sua cidade. Osman Lins pontua que:

“Esses artigos e crônicas, alguns violentos, outros cheios de  delicadeza e quase todos repassados de humor — revelando Lima Barreto  com lentes de aumento deformantes, absurdos que um tratamento mais  comedido deixaria indenes —, formam decerto um acervo de grande  interesse documental e literário. Abrigam flagrantes numerosos,  variados e vivos da nossa vida política e mundana do primeiro quartel  de século, do nosso movimento literário (...) e das transformações  ocorridas na aparência do Rio (...) e como atrativo suplementar  revelam o escritor no ato de mesmo de reagir e opinar”.

Registrar é criar memórias da história humana, é tornar  possível que cada geração se aproprie da bagagem cultural  produzida ao longo de todo o desenvolvimento de nossa espécie.  O registro possibilita que se revisitem fatos e idéias, que se  reflita sobre cada um destes fatos e idéias, ou da história das  idéias (Neves, 1992, pp 76-77).

Registrar em um especial tipo de linguagem, a literária,  acessa a chave da imaginação, que lida com a rotina do homem,  com suas grandezas e fraquezas. Aquele que registra e escreve,  aquele que é escritor, sabe, de antemão, que seu escritos, seu  registros, servirão para:

“Fazer com que ninguém possa ignorar o mundo e se considerar  inocente diante dele. Sabe que ele é o homem que nomeia aquilo que  não foi nomeado. (...) O escritor engajado sabe que a palavra é ação,  ideologia, e que o uso que dela faz é político, (...) provoca  indignação ou entusiasmo em seu leitor. (...) Toda obra literária é  um apelo. Escrever é apelar ao leitor para que este faça passar à  existência objetiva o desvendamento que empreendeu por meio da  linguagem”.

O escritor-cronista expressa-se por um discurso especial,  que contém suas impressões e sua memória. Ambas estão  encerradas ali, em seu discurso, como se camadas fossem,  repletas de outras camadas e outras camadas, de histórias,  culturas, e muitas significações para estas histórias e  culturas, individuais e depois coletivas. É este escritor,  sobretudo o cronista, um homem-memória, na definição de  Margarida de Souza Neves:  “Cronistas (...) são ‘homens-memória’ e desempenham seu ofício  como autores e intérpretes da memória coletiva. (...) e a crônica é  um elemento constituidor de um imaginário social. (...) A crônica  estabelece um curioso diálogo com o leitor, do qual dão testemunho  cronistas de temporalidade distintas”.

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Fonte:
Cristina Nunes de Sant´Anna: O cronista Político Afonso  Henrique de Lima Barreto”. (Dissertação apresentada ao Curso de Pós-Graduação em   Ciência Política da Universidade Federal Fluminense -  UFF, como requisito parcial para a obtenção do Grau de   Mestre).Niterói, 2008

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