14/12/13

A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós

 Eca de Queiros - A Cidade e as Serras - Iba Mendes
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A oposição Cidade/Campo, a ambigüidade do narrador e a poética da alteridade em A Cidade e as Serras


Muito se tem discutido sobre a obra A Cidade e as Serras, de Eça de Queiroz. Críticos como António José Saraiva, Óscar Lopes, Jacinto do Prado Coelho, Ernesto Guerra da Cal e Maria Lúcia Lepecki, por exemplo, teceram comentários os mais variados possíveis acerca do referido texto. Mas seria essa obra apenas um texto preocupado em “ridicularizar o progresso técnico” ou o conceito de civilização como “armazenamento de comodidades”, como pretendem Saraiva e Lopes? Ou, como pretende Jacinto do Prado Coelho, seria uma obra “reacionária”, “infiel à personalidade literária” de Eça de Queiroz? Poder-se-ia tomá-la, ainda, como uma simples exaltação dos valores tradicionais portugueses por meio do cotejo cidade/campo? Ou a questão central está, conforme aponta Lepecki, na ambigüidade da narrativa? Em maior ou menor grau, pode-se dizer que há uma dose de coerência em cada um desses pensamentos, mas há de se destacar, ainda, uma outra e interessante possibilidade de análise da questão: a utilização da técnica do distanciamento ou ponto de vista distanciado, que tem por finalidade a isenção e o senso crítico no ato de discernir.

Segundo Jacyntho Lins Brandão (2001), de tal estratégia discursiva valeu-se largamente em seus textos Luciano de Samósata com a finalidade de explicitar e pensar a diferença. E é dessa forma que em A Cidade e as Serras podem se apresentar o olhar de um narrador aparentemente ambíguo (Zé Fernandes) – uma vez que há uma contradição entre seu discurso e suas ações – e o ponto de vista deslocado/distanciado da personagem Jacinto, que tornam possível a leitura do texto queirosiano como uma metáfora da poética da alteridade, como se verá adiante.

Ainda de acordo com Brandão (2001), essa poética está assentada sobre duas bases: a submissão do próprio ao critério do outro, através da justaposição de diferenças, e a contemplação do próprio por meio de uma perspectiva deslocada, que representaria o foco mais correto:

Diferentes perspectivas de alteridade podem ser descobertas nos textos de Luciano [...]. Ressalta, antes de tudo, seu gosto por personagens marginalizadas, como prostitutas, eunucos, escravos, pobres e humildes. [...].
[...]. Outro ponto em que se descobrem dados interessantes diz respeito ao gosto por espaços de alteridade, representados pelo submundo das grandes cidades, bem como por lugares estrangeiros, pelo exótico, por desertos, o mundo dos mortos, os confins da terra, o extraterrestre, as utopias. (p.140)
[...]. O que haveria contudo de peculiar em Luciano seria uma mudança de enfoque: não mais o outro traduzido pelo próprio [...] mas o próprio posto em juízo a partir do ponto de vista do outro, pelo simples fato de ser contraposto a ele. [...]; a opinião fidedigna deve partir dos outros (álloi), ou seja, a verdade só pode surgir quando se rompe a esfera do costumeiro para avaliá-lo de perspectiva diferente, eliminando o risco do erro por ignorância. (p. 140-141)

Porém, é importante ressaltar que essa justaposição de diferenças que marca a submissão do próprio ao critério do outro não pode se assentar na questão pura e simples da contraposição de culturas, pois o puramente outro não possuiria os elementos necessários para um julgamento crítico imparcial:

Não se trata simplesmente de um grego que vê, com olhos gregos, os outros. Não se trata também, entretanto, de um outro que vê, como olhos estrangeiros, os gregos. A questão da alteridade em Luciano passa pelo estatuto pouco definido do aculturado que, deixando de lado o que lhe é próprio, adota outra cultura mas não se sente nunca totalmente adotado por ela. (p.143)

Assim, é justamente o fato de o outro ser um aculturado – e, portanto, conhecer os costumes do próprio – e de o próprio assumir um ponto de vista distanciado que viabiliza a criação de um espaço para o riso e para a crítica.

Nesse contexto ambivalente cria-se espaço para o riso e para a crítica, pois o completamente outro não teria os canais para entender-se e comunicar-se com a esfera do próprio, e o completamente próprio não teria a isenção que a distância fornece para rir de seus próprios valores. (p. 147)

Em A Cidade e as Serras Zé Fernandes e Jacinto assumem essa perspectiva deslocada que viabiliza a isenção, conforme já tivemos oportunidade de mencionar no capítulo 3 deste trabalho. O primeiro, por ser aculturado: o habitante de Guiães, no Douro, que vai estudar em Paris, tornando-se amigo de Jacinto, e que retorna a Portugal para cuidar dos negócios da família, onde fica por 7 anos, quando, então, volta à França. O segundo, por, ao longo de sua trajetória, perceber aquilo que lhe é próprio por duas vias distintas: o grande e civilizado Jacinto – inimaginável habitante do campo, proprietário de um luxuosíssimo Palacete em Paris, para quem a suprema felicidade resumia-se no acúmulo de conhecimento e tecnologia – e, mais tarde, o Jacinto rural, serrano, que, tendo partido a contragosto para suas terras em Tormes e ficado lá mais tempo do que previra, acaba por estabelecer uma relação harmoniosa e prazerosa com as Serras.

Desse modo, os espaços Cidade e Campo perdem a sua importância dentro do texto queirosiano enquanto espaços físicos propriamente ditos, bem como perde o foco principal a questão da oposição pura e simples entre Civilização e atraso cultural. O que está em jogo, portanto, não é mais a representação vulgar de duas culturas distintas, assentadas sobre esses dois espaços, mas a forma de se pensar essas culturas, personificadas pelas personagens Zé Fernandes e Jacinto; um pensar tanto do ponto de vista daquele que é próprio como do ponto de vista do outro, do “estrangeiro”.

Tomando-se primeiramente Zé Fernandes, é patente certo consenso em torno da questão da astúcia e da ambigüidade desse narrador, uma vez que ele se mostra (pretensamente) dissimulado quanto ao que realmente sabe e pensa e contraditório por criticar a cidade e a civilização que tanto o fascinam. Dessa forma, e ainda de acordo com a crítica geral, tem-se um comprometimento do ponto de vista, do foco narrativo, visto que a caracterização de Jacinto, suas idéias e seus ambientes chegam ao leitor totalmente filtrados pelo olhar desse narrador “dissimulado”.

Mas esse ponto de vista aparentemente comprometido pode ser visto como aquela perspectiva deslocada mencionada acima.

Ainda segundo Jacyntho Lins Brandão, em seu texto O rir dos Gregos (2003), o riso grego pode se dar de várias formas. Uma delas é a inserção de um terceiro elemento – um terceiro homem – na história. Esse terceiro elemento é o responsável por observar a cena e, com sua fala, despertar o riso tanto nas personagens como no leitor pelo ridículo dessa mesma cena. Esse “terceiro” pode ser um homem comum, um não iniciado num certo tipo de saber que, observando do exterior, assume a função satírica. Por outro lado, esse “terceiro” também pode ser um expert, cuja função passa a ser denunciar aqueles que “sabem pela metade”. Finalmente, esse “terceiro” pode ser um estrangeiro, preferencialmente um bárbaro, que rirá de certos costumes/culturas. Porém, conforme aponta Brandão, esse “terceiro” não pode ser um “bárbaro” completo, pois, ao ridicularizar/rir de certos costumes gregos, seria tomado pelas demais personagens do grupo em que se insere como alguém sem cultura e que, conseqüentemente, desconhece os costumes de um povo civilizado. Dessa forma, esse terceiro geralmente é filho de mãe grega, pois, assim sendo, pode observar a situação por ambos os lados, “por fora e por dentro”, ou seja, pode rir daquilo que conhece.

Transpondo-se essa teoria para A Cidade e as Serras, pode-se encontrar em Zé Fernandes esse terceiro elemento: o aculturado que, conhecendo e fazendo parte de “dois mundos", de dois espaços distintos – um “menos Civilizado” (Portugal e a família), outro com excesso de Civilização (Paris e Jacinto) – pode “rir de”, satirizar aquilo que bem conhece e que considera absurdo, ridículo e risível (os excessos existentes no mundo de Jacinto). É a utilização do riso com função crítica dessacralizadora, uma vez que põe a nu tudo aquilo que se esconde sob a aparência da grandiosidade.

Vejam-se, por exemplo, esses trechos do capítulo em que Zé Fernandes retorna a Paris após sete anos em Portugal e reencontra Jacinto e o seu palacete, o 202:

E, todavia, nada mudara durante esses sete anos no jardim do 202!
[...].
Mas dentro, no peristilo, logo me surpreendeu um elevador instalado por Jacinto – apesar do 202 ter sòmente dois andares, e ligados por uma escadaria tão doce que nunca ofendera a asma da sr.ª D. Angelina! Espaçoso, tapetado, ele oferecia, para aquela jornada de sete segundos, confortos numerosos, um divã, uma pele de urso, um roteiro das ruas de Paris, prateleiras gradeadas com charutos e livros. [...].
Eu murmurei, nas profundidades do meu assombrado ser:
Eis a Civilização! (QUEIROZ, 1912, p. 24). (Grifo nosso).

[Jacinto] Amarrotara com cólera a carta começada – eu escapei, respirando, para a Biblioteca. Que majestoso armazém dos produtos do Raciocínio e da Imaginação! Ali jaziam mais de trinta mil volumes, e todos decerto essenciais a uma cultura humana. [...]. (p. 28). (Grifo nosso).

Outro momento da narrativa em que se verifica o olhar sarcástico de Zé Fernandes pode ser observado na descrição do jantar oferecido por Jacinto ao Grão-Duque, quando o prato principal a ser servido, um peixe raro trazido pelo ilustre convidado, encalha dentro do poço do elevador da cozinha. Segue-se, aí, uma autêntica cena carnavalizada, uma vez que nobres e serviçais, lado a lado, rodeiam o poço escuro do elevador da cozinha na tentativa frustrada de “pescar” o peixe do jantar, utilizando, como anzol, um gancho que pertencera a Princesa de Carman e que, agora, umas das convidadas ostentava. Vê aí o leitor, diante de seus olhos, uma autêntica imagem da praça pública carnavalesca bakhtiniana, e ouve claramente ressoar o riso dessacralizador – riso esse provocado pelo ridículo da cena observada.

Dessa forma, seja por meio de seus maliciosos comentários, seja por meio da descrição de cenas observadas, tem-se não um narrador ambíguo, dissimulado, mas um narrador distanciado e irônico que, assumindo uma perspectiva deslocada, possui a isenção necessária para julgar aquilo que vê. Zé Fernandes é, portanto, o terceiro elemento, o aculturado de que fala Jacyntho Lins Brandão, que, conhecendo bem os dois espaços – o citadino e o campestre/serrano – e seus respectivos costumes, pode ironizar e satirizar as falhas e excessos existentes nesses “dois mundos”.

Mas a função do astuto narrador de A Cidade e as Serras não se limita apenas a ironizar e satirizar costumes: ela vai mais além. Zé Fernandes surge ao leitor como um narrador que tem uma tese a demonstrar e a provar, tese esta que de fato fica provada ao final do romance. Assim, ele é alguém que satiriza não o progresso ou a Civilização em si, mas, sim, um tipo de mentalidade que vê no acúmulo de bens materiais, de facilidades e de comodidades que esse progresso e essa Civilização podem trazer (traduzidos pelos excessos de Jacinto) a única forma de se atingir a felicidade.

Assim, a própria veracidade da Idéia concebida por Jacinto, O Príncipe da Grã Ventura, em tempos de Universidade – a Idéia de que “o homem só é superiormente feliz quando é superiormente civilizado” –, Idéia essa resumida pela “Equação Metafísica” Suma ciência x Suma potência = Suma felicidade, é posta em xeque pelo narrador quando este se reencontra com o amigo sete anos mais tarde.

O trecho transcrito abaixo, apesar de longo, retrata bem o tédio de Jacinto e a ironia do narrador diante da ineficácia do acúmulo e dos excessos de Civilização na tentativa de alcançar a “felicidade suprema”:

Reparei então que o meu amigo emagrecera: e que o nariz se lhe afilara mais entre duas rugas muito fundas, como as dum comediante cansado. Os anéis do seu cabelo lanígero rareavam sobre a testa, que perdera a antiga serenidade de mármore bem polido. Não frisava agora o bigode, murcho, caído em fios pensativos. Também notei que corcovava. (p. 25). (Grifo nosso).

– E acumulaste civilização, Jacinto! Santo Deus... Está tremendo, o 202!
Ele espalhou em torno um olhar onde já não faiscava a antiga vivacidade:
– Sim, há confortos... Mas falta muito! A humanidade ainda está mal apetrechada, Zé Fernandes... E a vida conserva resistências. (p. 26). (Grifo
nosso)
E, através da Biblioteca, penetrámos na sala de jantar – que me encantou pelo seu luxo sereno e fresco. [...]
[...].
Mas já eu me começava a inquietar, reparando que a cada talher correspondiam seis garfos, [...]. Todo um aparador porém vergava sob o luxo redundante, quase assustador de águas – águas oxigenadas, águas carbonatadas, águas fosfatadas, águas esterilizadas, águas de sais, outras ainda, em garrafas bojudas, com tratados terapêuticos impressos em rótulos.
– Santíssimo nome de Deus, Jacinto! Então és ainda o mesmo tremendo bebedor de água, hem?... [...]
Ele derramou, por sobre toda aquela garrafaria encarapuçada em metal, um olhar desconsolado:
– Não... É por causa das águas da Cidade, contaminadas, atulhadas de micróbios... Mas ainda não encontrei uma boa água que me convenha, que me satisfaça... Até sofro sede.
Desejei então conhecer o jantar do Psicólogo e do Simbolista [...].
Começava honradamente por ostras clássicas, de Marennes. Depois aparecia uma sopa de alcachofras e ovas de carpa...
– É bom?
Jacinto encolheu desinteressadamente os ombros:
– Sim... Eu não tenho nunca apetite, já há tempos... Já há anos.
[...]. E por sobremesa simplesmente laranjas geladas com éter.
– Em éter, Jacinto?
[...]
– É novo... Parece que o éter desenvolve, faz aflorar a alma das frutas...
Curvei a cabeça ignara, murmurei nas minhas profundidades:
– Eis a Civilização!
E descendo os Campos Elísios, encolhido no paletó, a cogitar neste prato simbólico, considerava a rudeza e o atolado atraso da minha Guiães, onde desde séculos a alma das laranjas permanece ignorada e desaproveitada dentro dos gomos sumarentos, por todos aqueles pomares que ensombram e perfumam o vale, da Roqueirinha a Sandofim! Agora porém, bendito Deus, na convivência de um tão grande iniciado como Jacinto, eu compreenderia todas as finuras e todos os poderes da Civilização.
E, (melhor ainda para a minha ternura!) contemplaria a raridade dum homem que, concebendo uma idéia da Vida, a realiza – e através dela e por ela recolhe a felicidade perfeita. Bem se afirmara este Jacinto, na verdade, como Príncipe da Grã-Ventura! (p. 33-35). (Grifo nosso).

Desse modo, portanto, e desde o começo da obra, Eça de Queiroz coloca em confronto não os espaços físicos Cidade e Campo propriamente ditos, mas dois olhares distintos focalizando culturas igualmente distintas: o olhar de Zé Fernandes, que, por ser aculturado e conhecer bem essas duas culturas, possui a isenção necessária para um julgamento imparcial, e o olhar de Jacinto, ainda comprometido pela falta de distanciamento que viabiliza essa isenção.

Faz-se patente nesse excerto, assim, a velha ironia queirosiana: o escritor português utiliza-se desses dois espaços – a aldeia de Guiães e o palacete dos Campos Elísios – não com a mera finalidade de confrontar duas culturas diferentes; também não faz desse confronto pretexto para uma simples exaltação dos valores tradicionais portugueses; muito menos faz de tais espaços meios para enfatizar ideais conservadores. Eça de Queiroz, conforme mencionado acima, parece querer colocar em xeque a cultura extremamente materialista que vê nos excessos de facilidades e comodidades que a Civilização pode oferecer o único meio de se conquistar a felicidade.

Outros muitos trechos que mostram claramente essa ironia decorrente do deslocamento de perspectiva que possibilita ao narrador a isenção e, portanto, um julgamento correto daquilo que o cerca podem ser facilmente encontrados no decorrer do texto, porém, os trechos selecionados parecem suficientes para ilustrar a linha de interpretação proposta.

Lançando-se agora o foco sobre Jacinto, observa-se, durante a trajetória da personagem no texto, uma gradual transformação de pensamento e de comportamento em relação ao materialismo exacerbado que a caracterizava desde o princípio do romance.

Jacinto, que “entre a inconsciência e a impassibilidade da Natureza, tremia com o terror da sua fragilidade” e que, em meio a esta, via a “inutilização de todas as suas faculdades superiores”, Jacinto, para quem “ao cabo duma semana rural, de todo o seu ser nobremente composto só restava um estômago e por baixo um falo”, tem um primeiro lampejo de consciência quando é levado pelo amigo Zé Fernandes à Basílica do Sacré-Coeur, em construção nos altos de Montmartre, de onde vê a cidade por um ângulo de visão diferenciado, inusitado. Contemplando Paris do alto, a personagem – para quem “a idéia de Civilização não se separava da idéia de Cidade” – começa a perceber, por meio do discurso filosófico do amigo e do quadro que tem à sua frente, que essa cidade tão cheia de encantos, com todo o progresso material alcançado, pode, por aquela perspectiva, se afigurar como uma mera ilusão do ser humano.

[...]. Sob o céu cinzento, na planície cinzenta, a Cidade jazia, toda cinzenta, como uma vasta e grossa camada de caliça e telha. E, na sua imobilidade e na sua mudez, algum rolo de fumo, mais ténue e ralo que o fumear dum escombro mal apagado, era todo o vestígio visível da sua vida magnífica.
Então chasqueei risonhamente o meu Príncipe. Aí estava pois a Cidade, Augusta criação da Humanidade. Ei-la aí, belo Jacinto! Sobre a crosta cinzenta da Terra – uma camada de caliça, apenas mais cinzenta! No entanto ainda momentos antes a deixáramos prodigiosamente viva, cheia dum povo forte, com todos os seus poderosos órgãos funcionando, abarrotada de riqueza, resplandecente de sapiência, na triunfal plenitude do seu orgulho, como Rainha do Mundo coroada de Graça. E agora eu e o belo Jacinto trepávamos a uma colina, espreitávamos, escutávamos – e de toda a estridente e radiante Civilização da Cidade não percebíamos nem um rumor nem um lampejo! E o 202, o soberbo 202, com os seus arames, os seus aparelhos, a pompa da sua Mecânica, os seus trinta mil livros? Sumido, esvaído na confusão de telha e cinza! Para este esvaecimento pois da obra humana, mal ela se contempla de cem metros de altura, arqueja o obreiro humano em tão angustioso esforço? Hem, Jacinto?... Onde estão os teus Armazéns servidos por três mil caixeiros? E os Bancos em que retine o ouro universal? E as Bibliotecas atulhadas com o saber dos séculos? Tudo se fundiu numa nódoa parda que suja a Terra. Aos olhos piscos de um Zé Fernandes, logo que ele suba, fumando o seu cigarro, a uma arredada colina – a sublime edificação dos Templos não é mais que um silencioso monturo da espessura e da cor do pó final. O que será então aos olhos de Deus!
E ante estes clamores, lançados com afável malícia para espicaçar o meu Príncipe, ele murmurou, pensativo: – Sim, é talvez tudo uma ilusão... E a Cidade a maior ilusão! (p. 100-102). (Grifo nosso).

Mas esse primeiro lampejo de consciência, juntamente com os aborrecimentos causados pelas constantes falhas dos equipamentos mecânicos do 202, ainda não é suficiente para desencadear a grande transformação em Jacinto. Mesmo a insatisfação e o tédio constantes e o pessimismo a que se entrega o Príncipe da Grã-Ventura não bastam para que a personagem consiga refletir com imparcialidade sobre a sua situação. Isso porque Jacinto ainda está em estreito contato com o “seu mundo”, com o “seu espaço”, o que não lhe possibilita o distanciamento necessário para um julgamento isento e correto.

É somente quando está em Portugal, portanto já distante de todos os luxos e comodidades que o 202 lhe oferece – uma vez que o seu plano de reformar a antiga casa de Tormes e de equipá-la com todos os utensílios do Palacete de Paris antes de lá chegar não se concretiza –, que a transformação em Jacinto tem início. A beleza e a simplicidade das serras vão, aos poucos, sobrepondo-se à irritação e à desolação da personagem frente à falta de “Civilização” (segundo seu conceito) com a qual se vira forçado a conviver.

Importante é enfatizar, entretanto, que, num primeiro momento, esse encantamento em relação às belezas naturais das serras é o encantamento de um neófito, de um iniciado que, surpreendido pelos encantos do campo, esquece o atraso cultural daquele espaço. É somente quando está frente a uma situação drástica – como, por exemplo, quando vê o estado deplorável em que se encontra a sua casa – que recobra a consciência da realidade em que está inserido:

No meu Príncipe já evidentemente nascera uma curiosidade pela sua rude casa ancestral. Mirava o relógio, impaciente. Ainda trinta minutos!
Depois, sorvendo o ar e a luz, murmurava, no primeiro encanto de iniciado:
– Que doçura, que paz... (p. 159)
[...]. O ar fino e puro entrava na alma, e na alma espalhava alegria e força. [...].
– Que beleza! (p. 164)
E, entre o rosnar dos cães, num bracejar desolado, [Merchior] balbuciou uma história que por seu turno apavorava Jacinto [...]. [...].
Ninguém esperava s. ex.ª! [...]. Na casa as obras seguiam devagarinho, devagarinho... O telhado, no sul, ainda continuava sem telhas; muitas vidraças esperavam, ainda sem vidros; [...].
[...].
Jacinto replicou, com uma decisão furiosa:
– Amanhã troto, mas para baixo, para a estação!... E depois, para Lisboa! (p. 165-166)
Jacinto caminhou lentamente para o poial duma janela, onde caiu esbarrondado  pelo  desastre, sem resistência ante aquele   brusco desaparecimento de toda Civilização! [...]. (p. 168)
– Olha para este horror! – murmurava Jacinto arrepiado. (p. 169)

Portanto, o processo de transformação da personagem só se inicia, efetivamente, à medida que ela enceta um outro processo: o de aculturação.

À medida que Jacinto vai se aculturando, passa de simples neófito a observador crítico, o que lhe permite um julgamento mais isento daquilo que vê, conhece e vivencia. Os comentários do Príncipe da Grã-Ventura, agora, não estão mais assentados sobre a simples admiração das belezas naturais ou das delícias das serras, mas sobre a comparação racional e imparcial do aculturado que começa a conhecer “os dois espaços”, “as duas culturas”, “os dois mundos”:

Dentro, na “nossa sala”, ambos nos sentámos nos poiais da janela, contemplando o doce sossego crepuscular que lentamente se estabelecia sobre vale e monte. No alto tremeluzia uma estrelinha, a Vênus diamantina [...]. Jacinto nunca considerara demoradamente aquela estrela, de amorosa refulgência [...] nem assistira jamais, com a alma atenta, ao majestoso adormecer da Natureza. [...]. Daquela janela, aberta sobre as serras, entrevia uma outra vida, que não anda sòmente cheia do Homem e do tumulto da sua obra. E senti o meu amigo suspirar como quem finalmente descansa, (p. 171-172). (Grifo nosso).
– Óptimo!... Ah, destas favas, sim! Oh que fava! Que delícia!
[...].
– Deste arroz com fava nem em Paris, Melchior amigo! (p. 174).
(Grifo nosso).
– Quo te carmina dicam, Rethica? Quem dignamente te cantará, vinho amável destas serras?
[...].
Na Cidade (como notou Jacinto) nunca se olham, nem lembram os astros – por causa dos candeeiros de gás ou dos globos de eletricidade que ofuscam. (p. 175) (Itálico do autor). (Grifo nosso).

E tanto seu olhar é agora isento que, parafraseando Descartes, Jacinto não se mostra um mero maniqueísta:

– [...]. Mas nada mais belo, e mais vão, que uma cavaqueira, no alto das serras, a olhar para as estrelas!... Tu sempre vais amanhã?
– Com certeza, Zé Fernandes! Com a certeza de Descartes. “Penso, logo fujo!” Como queres tu, neste pardieiro, sem uma cama, sem uma poltrona, sem um livro?... Nem só de arroz com fava vive o Homem! Mas demoro em Lisboa, para conversar com o Sesimbra, o meu Administrador. (p. 178). (negrito do autor).

E, como é sabido, a personagem não parte para Lisboa: permanece, sem o conhecimento de Zé Fernandes e para a surpresa deste, por um mês em Tormes. Jacinto, recuperando a bagagem extraviada que continha os utensílios vindos do seu Palacete em Paris, consegue finalmente promover a reforma no velho casarão. O que há de se ressaltar é que tal reforma é realizada de maneira comedida e racional. Para o espanto de Zé Fernandes, O Príncipe da Grã-Ventura não atulhara as serras com todos aqueles apetrechos, toda aquela “Civilização” que o 202 possuía. Seu agir foi direcionado por um pensar crítico que fez com ele se ativesse às modificações básicas e necessárias.

Mas eu, ávido pela história daquela ressurreição:
– Então, não estiveste em Lisboa?... Eu telegrafei...
– Qual telégrafo! Qual Lisboa! Estive lá e cima, ao pé da fonte de Lira, à sombra duma grande árvore [...]. E também a arranjar o meu palácio!
Que te parece, Zé Fernandes? Em três semanas, tudo soalhado, envidraçado, caiado, encadeirado!... Trabalhou a freguesia inteira! Até eu pintei, com uma
imensa brocha. Viste o comedouro?
– Não.
– Então vem admirar a beleza na simplicidade, bárbaro! (p. 189).
– Agora, Zé Fernandes, estou saboreando esta delícia de me erguer pela manhã, e de ter só uma escova para alisar o cabelo.
– Tinhas umas nove.
– Nove? Tinha vinte! Talvez trinta! E era uma atrapalhação, não me bastavam!... Nunca em Paris andei bem penteado. Assim com os meus setenta mil volumes: eram tantos que nunca li nenhum. Assim como as minhas ocupações: tanto me sobrecarregavam, que nunca fui útil! (p. 192- 193).

Aculturado, Jacinto agora possuía o olhar distanciado e isento de Zé Fernandes. Aprendeu a olhar o espaço serrano com outros olhos, mas nem por isso deixou de reconhecer as falhas e o atraso das serras. Ao perceber que seus empregados viviam miseravelmente, em precárias condições, iniciou a revolução final em suas terras, provendo seus domínios com médicos, escolas e habitação, tornando-se o “Pai dos Pobres”. Casou-se com a prima de Zé Fernandes e se estabeleceu definitivamente em Portugal, tendo alcançado a tão sonhada felicidade.

Porém, tal desfecho aponta para uma outra questão: a questão da utopia queirosiana. Sem sombra de dúvidas, Eça de Queiroz encontra a solução perfeita para o atraso em que se encontrava Tormes, a “solução fácil”, segundo alguns críticos, uma vez que, para pessoas com posses – como Jacinto – não é difícil transformar o real no “ideal”. Entretanto, antes de se pensar numa mera utopia por parte do escritor, banalizando-se, assim, o sentido de sua obra, talvez se pudesse pensar numa séria advertência de Eça em relação não somente ao atraso cultural de um país inteiro, mas também em relação a um tipo de mentalidade generalizada e dominante – mentalidade essa que assolava o homem do século XIX – que via no extremo materialismo a única forma possível de se conquistar a felicidade.

Por tudo isso, pode-se dizer que A Cidade e as Serras constitui uma autêntica metáfora da alteridade, uma vez que não se tem, como ponto crucial da questão, apenas a “ridicularização do progresso técnico” ou do conceito de civilização como “armazenamento de comodidades”, nem se trata de uma simples exaltação dos valores tradicionais portugueses por meio do cotejo cidade/campo, muito menos de uma obra “reacionária” por parte de Eça de Queiroz, mas de uma obra que põe em foco a alteridade, a diferença, modos de vida e de pensamento com a intenção de, no ato de discernir, se pensar e discutir criticamente essa diferença de forma isenta.


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Fonte:
Ana Paula Foloni Gambá: “Eça de Queiroz, leitor de Luciano de Samósata? A presença luciânica nos textos O mandarim, A relíquia e A cidade e as serras”. (Tese de Doutorado apresentada à Faculdade  de Ciências e Letras de Assis – UNESP – Universidade Estadual Paulista – para a obtenção do título de Doutor em Letras (Área  de Conhecimento: Literatura e Vida Social).    Orientador: Rosane Gazolla Alves Feitosa). Assis, 2009

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