28/12/13

Cancioneiro, de Fernando Pessoa

 Fernando Pessoa - Cancioneiro - Iba Mendes
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O símbolo da noite no “Cancioneiro” pessoano

Propícia ao devaneio e à meditação, a noite é um campo demasiadamente fértil para a articulação simbólica. A insônia, o sono, o sonho, a escuridão e o sombrio, decorrentes da temática noturna, confirmam o caráter multifacetado e a grandiosidade deste símbolo e o complementam, por isso toda e qualquer análise do símbolo da noite não pode ignorar essas derivações.

Embora comumente utilizada e quase obrigatória no discurso poético, a noite recebeu tratamentos diferenciados ao longo dos períodos literários. Ao contrário dos autores seiscentistas e árcades, que tinham dela uma visão parcialmente estética e estereotipada, foi particularmente na escola Pré-romântica que o tom de mistério e a sugestão da morte, estimulados pelos ares noturnos, pela inspiração sepulcral e pela atmosfera tumular, ganharam especial destaque.

O cenário da noite, como moldura à lamentação diante dos jazigos, aos questionamentos sobre a fugacidade da vida, à igualdade dos seres perante a morte, à imortalidade da alma, ao mistério da existência, passou a ser um dos refúgios prediletos do eu-lírico que intencionava rememorar acontecimentos dolorosos, numa atitude nostálgica e pessimista, abrandar mágoas ou meramente encontrar algo de natureza perfeita para servir como reflexo do seu estado psicológico depressivo e torturante.

O ambiente noturno, no qual as cores são limitadas, os sons aplacados e a movimentação controlada, combina com as carências, tristezas e dúvidas daqueles que nele se inserem e o buscam como correspondência do seu interior. Daí a harmonia intimista entre os sentimentos do sujeito poético e a noite, ressaltada especialmente pela sensibilidade romântica. A solene quietude noturna, entrecortada apenas por rumores imprecisos, e a visualidade fantasmagórica, em contraste com a alegria ruidosa e a clareza dos espetáculos diurnos, fazem da noite um espaço confortante para se chorar. Após a intensidade experimentada pelas paixões durante o dia, a noite prenuncia o alívio, a consolação e a calmaria aos dramas íntimos.

Fernando Pessoa é considerado por muitos críticos um poeta noturno, em função da recorrência da noite no seu universo lírico. O fato de o símbolo pessoano surgir e se desenvolver mediante a imaginação concreta, que alia a sensibilidade à mundividência do indivíduo, faz com que a noite, além da sua carga simbólica naturalmente intensa e plurissignificativa, tenha um leque de possibilidades psíquicas, capazes de revelar incontáveis emoções poéticas.

O dualismo noturno, ancorado simbolicamente em dois pólos opostos, o das trevas, cujo ônus é negativo e o da claridade vindoura, indicativa de um aspecto positivo, é contemplado de maneira complexa e, por vezes, paradoxal, nas composições pessoanas, sobretudo nos poemas incluídos no “Cancioneiro”.

O aspecto representado pela escuridão, por exemplo, geralmente símbolo do desaparecimento de todo conhecimento exprimível e analítico, do vazio, da destruição, do tédio, da insegurança e da solidão, faz da noite uma “hora morta”, como diz Pessoa, em que é “Tudo tão inútil! / Tão como que doente / Tão divinamente / Fútil – ah, tão fútil” (PESSOA, 1998, p. 107). Contraditoriamente, porém, esse vazio às vezes sofre um abrandamento nos textos do poeta. Devido ao fato de a noite suspender, de certo modo, a dramaticidade, proporcionando um afastamento do indivíduo em relação ao sofrimento, à dor da existência, ela pode simbolizar, também a purificação do pensamento, das idéias, da memória; a suavização dos anseios mais elevados, dos desejos e afetos sensíveis. Daí a escuridão pessoana ser amainada por discretos sinais de luz.

O fato de ser um recurso, mesmo temporário, contra o peso da vida, não torna a noite menos angustiosa, mas pode justificar a sua condição de objeto invocado e buscado incansavelmente nos poemas de Fernando Pessoa: “Ó tarde, fica noite, e alma / Tenha perdão” (PESSOA, 1998, p. 136). À noite, então, talvez seja até possível ser feliz: “E ao anoitecer. / Tomara eu ter jeito / Para ser feliz...” (PESSOA, 1998, p. 119).

O amanhecer conta com a claridade, que põe fim à escuridão. Sua carga simbólica, comumente positiva, em função da relação estabelecida com as gestações, germinações e conspirações diversas, inspiradas pelo nascer do dia, ganha em Pessoa um caráter desolador de negatividade, responsável pelo freqüente estado de languidez e tristeza indefinida do sujeito poético pessoano frente às horas diurnas: “De manhã há o pranto” (PESSOA, 1998, p. 119). Isso significa que o dia vindouro, na sua concepção, apenas renova o sofrimento do indivíduo, provando a impotência humana diante das forças e dos mistérios existenciais: “Saber que continuará a haver o mesmo mundo amanhã – como nos desalegra!” (PESSOA, 1998, p. 111); “O novo dia trazer-me o mesmo dia do fim / Do mundo e da dor- / Um dia igual aos outros, da eterna família / De serem assim” (PESSOA, 1998, p. 144).

As horas noturnas, “ocas e perdidas”, são tão fugazes e transitórias quanto a vida. Por isso, o constante paralelo feito pela poética pessoana entre a noite e a morte. Se viver é estar à espera do suspiro derradeiro, a noite nada mais é do que a moldura simbólica do fim de todas as coisas; uma antecipação da morte e símbolo de seus mistérios: “Com a noite tudo acaba” (PESSOA, 1998, p. 150). Sob esse ângulo, a noite é símbolo da morte. O que é a morte senão uma noite eterna? Tal constatação é dolorosa e o sujeito poético pessoano tem consciência disso, por essa razão, suas meditações parecem mais graves, suas cogitações mais profundas e suas dores mais pungentes diante do cenário noturno. Apesar desse prenúncio de aniquilamentos, a noite pessoana, paradoxalmente, ainda é capaz de amenizar a perturbação causada pelos problemas diários, abrandar as mágoas adquiridas durante o dia e as dores implacáveis que acompanham o indivíduo. O verso citado acima, em que há a constatação de que no espaço noturno “tudo acaba”, adquire o significado de que é possível, igualmente, mesmo que por pouco tempo, apaziguar os estados doridos da alma.

Pela noite, então, que é morte, é possível se fundir aos Cosmos, numa reintegração perfeita com a natureza. Trata-se do “eu” que deixa sua individualidade e pequenez para voltar a ser “todo”, regressando às origens, à pátria primigênia. Esse princípio, tão caro aos simbolistas, encontra eco em Fernando Pessoa. Esse, porém, não é o motivo maior da busca noturna pessoana. Mais do que a fusão com o universo, fim alcançado pela morte, a noite é a alternativa viável para enfrentar a vida, enquanto o sono derradeiro não vem.

Incentivado pela capacidade imaginativa do poeta, os símbolos que envolvem o ambiente noturno transitam entre a realidade íntima e a exterior do sujeito poético. Esse eu-lírico notívago, suas reações, sentimentos, pesares, esperanças, enfim, as abstrações que ele promove durante seu mergulho íntimo são o cerne da investigação pessoana. A transposição metafísica e a transcendência que desse processo decorrem são pautadas, em Pessoa, pela intelectualização de emoções, percepções e sensações. O resultado é a correspondência entre o homem e o universo, pela qual é possível desvendar um estado de espírito comum a ambos, ocultado pela ação simbólica. Esse procedimento pessoano obedece, notoriamente, aos preceitos do símbolo nos moldes da escola simbolista.

Os constantes questionamentos do eu-lírico pessoano: “Que morta esta hora! [...] Para quê? Para quê? P’ra ser o que se vê / Na alva areia batendo? Só isso?” (PESSOA, 1998, p. 108) não são perguntas arroladas no imediatismo de uma imagem da natureza, mas em dúvidas existenciais, favorecidas pela noite, já que ela eleva o indivíduo, fascinando-o e o impulsionando a ordenar seus dramas pessoais. O sujeito poético dos poemas pessoanos, para tanto, é dotado de uma clareza mental quase obsessiva, o que o faz ter consciência de si, das coisas ao seu redor, e da dor que sente, até mesmo quando se entrega ao sonho.

Os poemas de Pessoa que aludem ao símbolo da noite contam com outro recurso assistente e também bastante freqüente: a exploração da memória. É a rememoração que sustenta o jogo dialético entre sonho e realidade, entre os acontecimentos passados e presentes e até a transposição metafísica, geralmente seguida de uma constatação melancólica: “De resto, nunca sei nada. / Minha alma é a sombra presente / De uma presença passada.” (PESSOA, 1998, p. 150) O passado, segundo Carlos Felipe Moisés (1979, p. 61-68), é “uma verdade mais consistente e duradoura, para contrapor à precária e escorregadia realidade presente”. Isso justifica os momentos em que o poeta recorre a ele, numa recriação imaginativa desse tempo, com o intuito de apreender um sentido para a vida, ora inatingível.


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Fonte:
Mônica Império Simiscuka: “O símbolo da noite no “Cancioneiro” de Fernando Pessoa”. (Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Literatura Portuguesa, do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, para a obtenção do título de Mestre em Letras. Orientadora: Profª. Drª. Annie Gisele Fernandes). São Paulo, 2007

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