29/11/13

Triste Fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto

 Lima Barreto - Triste Fim de Policarpo Quaresma - Iba Mendes
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A formação de um idealista


Policarpo  sustenta  seu  nacionalismo  através  da  leitura  e  o  defende  em  um  processo quase científico (dentro de um perfil próximo ao naturalista), conforme conclui  o narrador; no entanto, os juízos de valor emitidos por esse mesmo narrador a respeito  das tendências patrióticas de Policarpo revelam a tensão existente entre as duas visões  de  mundo  que  se  opõem,  como  pode  ser  comprovado  no  confronto  entre  os  dois  fragmentos abaixo, ambos expressos pelo narrador: 

[...]  o  que  o  patriotismo  o  fez  pensar  [Policarpo],  foi  num  conhecimento  inteiro  do  Brasil,  levando-o  a  meditações  sobre  os  seus  recursos,  para  depois  então  apontar  os  remédios,  as  medidas  progressivas,  com  pleno  conhecimento  de  causa.  (“A  lição de violão”, p. 17)

[Policarpo] Defendia com azedume e paixão a proeminência do  Amazonas  sobre  todos  os  demais  rios  do  mundo.  Para  isso  ia  até  ao  crime  de  amputar  alguns  quilômetros  ao  Nilo  [...]  (“A  lição de violão”, p. 18)

É  possível  observar  que  a  tentativa  de  imprimir  ao  espírito  nacionalista  de  Policarpo um caráter minimamente racional, científico, entra em conflito com o “crime”  que ele comete para defender sua posição. Dessa forma, a visão da verdade fica cindida  entre  personagem  e  narrador,  este  revelando  a  “mentira”  por  trás  da  suposta  objetividade pretendida por aquele.

Esse  pseudocientificismo  e  racionalismo  de  Policarpo  é  retratado  ao  longo  da  primeira  parte  do  romance,  sedimentando  a  caracterização  que  se  deseja  fazer  do personagem. Ele serve a um propósito específico: levar o leitor a criar uma imagem do  protagonista para, posteriormente, comprovar a vacuidade de sua constituição. O fato de  sermos levados a rir do personagem junto com o narrador nesse primeiro momento não impede que esse mesmo narrador nos enterneça, através de sua construção discursiva,  com  os  sucessivos  fracassos  pelos  quais  passa  o  personagem,  pois,  conforme  afirma  Sônia Brayner, “[...] O riso e a amargura dorida são os extremos que se tocam na obra  de Lima Barreto” (BRAYNER, 1979:157).

A complexidade de uma obra literária como TFPQ reside no fato de que ela se  articula  tanto  através  da  razão  cínica  e  crítica  do  narrador  quanto  da  paixão  do  personagem que a protagoniza. Embora o nacionalismo de Policarpo, elemento central  da  narrativa,  por  exemplo,  seja  identificado  e  criticado  pelo  narrador  por  seu  caráter  utópico, esse patriotismo jamais parece ao leitor inverossímil ou mesmo simplesmente  como um elemento sujeito à galhofa, ao desdém, e isso se deve, em grande parte, ao fato  de  que  a  paixão  de  Policarpo  é  plenamente  traduzida  e  realizada  através  do  mesmo  narrador que a contesta. Isso é possível porque, em vários momentos, o narrador narra  não sob o seu ponto de vista, mas sim sob o ponto de vista do personagem, traduzindo  seus  sentimentos  e  emoções.  Assim,  não  há  a  supremacia  absoluta  da  voz  crítica,  do  relato consciente e objetivo, há também a voz do outro, e é exatamente o deslocamento  do  ponto  de  vista  do  narrador  para  o  personagem  que  empresta  ao  texto  a  sua  carga  dramática, fazendo-nos compadecer do triste fim, do triste destino que se delineia desde  o começo.

Ao caracterizar o ufanismo de Policarpo, em “A lição de violão”, percebe-se que  o narrador não só expõe os elementos que solidificam a formação do personagem como  também demonstra a seriedade que o tema pátrio tem em sua vida. É possível afirmar  que  há  um  respeito  pelas  convicções que  motivam  o  personagem,  mesmo  que,  para  o  narrador, elas sejam desprovidas de valor concreto, porque integram um ideal de pátria  e, como tal, pouco se aproximam do real.  

[...] Policarpo era patriota. Desde  moço,  aí pelos  vinte anos, o  amor da pátria tomou-o todo inteiro. Não fora o amor comum,  palrador e vazio; fora um sentimento sério, grave e absorvente.  (“A lição de violão”, p. 17)  

Não  há  espaço  para  se  contestar  o  sentimento  patriótico  de  Quaresma,  para  se  duvidar de sua legitimidade, o que pode ser comprovado pela seleção de adjetivos que o  caracterizam,  “sério,  grave  e  absorvente”,  em  oposição  ao  que  seria,  de  fato,  um  sentimento  a  ser  criticado,  a  um  nacionalismo  falso,  “comum,  palrador  e  vazio”;      é  assim  que  o  narrador  constrói  o  arcabouço  de  uma  figura  incompreendida.  Se  o  narrador, ao  longo  da  história, irá  ironizar,  satirizar,  debochar dos  excessos  pátrios de  Policarpo, é porque, instituído de seu poder e estatuto na trama ficcional, a ele cabe o  papel de efetuar uma reflexão crítica não só do protagonista mas de todos aqueles que o
 condenam, direta ou indiretamente, à marginalidade.

No  mesmo  capítulo, “A  lição  de  violão”, a  oposição entre  a  visão  do  narrador  em relação ao país, metonimicamente representado através da caracterização do jardim  de   Policarpo,  e  a  do  personagem  se  comprova  através  da  escolha  lexical,  mais  especificamente  dos  adjetivos  selecionados.  A  estrutura  discursiva  apresenta  uma  sobreposição  das  impressões  do  narrador  com  as  de  Policarpo,  a  qual  se  evidencia  através  de  uma  contraposição  semântica,  demonstrada  pela  utilização  de  adjetivos  de  valor positivo, refletindo a perspectiva de Policarpo, e de valor negativo, associados à  perspectiva  do  narrador.  A  oposição  dos  pontos  de  vista  é  ainda  mais  acentuada  pela  utilização irônica das reticências como elemento de ênfase às críticas do narrador.

Acabado  o  jantar  [Policarpo,  Adelaide  e  Ricardo]  foram  ver  o jardim.  Era  uma  maravilha;  não  tinha  nem  uma  flor...  Certamente não se podia tomar por tal míseros beijos-de-frade,  palmas-de-santa-rita,          quaresmas               lutulentas,               manacás  melancólicos  e  outros  belos  exemplares  dos  nossos  campos  e  prados. [...] (“A lição de violão”, p. 24)

No  segundo  capítulo  da  primeira  parte  do  romance,  “Reformas  radicais”,  o  major  Quaresma  encontra-se  em  pleno  período  de  frutificação  de  suas  idéias  nacionalistas.  O  narrador  reforça  a  composição  patriótica  do  personagem  novamente  através  do  uso  anafórico  de  advérbios  de  intensidade,  do  uso  de  adjetivos,  que  funcionam como uma estratégia hiperbólica de construção positiva da imagem do país:   

[O  Brasil]  Tinha  todos  os  climas,  todos  os  frutos,  todos  os  minerais e animais úteis, as melhores terras de cultura, a gente  mais valente, mais hospitaleira, mais inteligente e mais doce do  mundo [...] (“Reformas radicais”, p.30)  

Ainda  assim,  desde  o  início  do  capítulo,  anuncia-se  o  que  o  título  já  avisa  de  antemão aos leitores: não há possibilidade de um final feliz para o personagem tendo ele  uma  visão  tão  fantasiosa  da  realidade.  O  que  o  narrador  coloca  em  xeque  a  todo  momento não é a veracidade dos sentimentos de Policarpo, mas sim a sua possibilidade  de realização em um mundo em que os interesses pessoais se sobrepõem  aos interesses  coletivos. Desse modo, no início do capítulo, a aparente tranqüilidade do espaço físico,  antes de ser uma demonstração real de calma, prenuncia os tumultos que virão: “[...] Na  sua  meiga  e  sossegada  casa  de  S.  Cristóvão[...]”  (“Reformas  radicais”,  p.  29

Essa  estratégia  de  compor  uma  caracterização  positiva  do  ambiente  em  contraponto ao que se encontrará na narrativa do ponto de vista dos eventos é constante  em  todo  o  romance.  O  leitor  é  levado  a  desacreditar  das  descrições  favoráveis  feitas  porque, ao longo do texto, elas se mostram pistas falsas; quase sempre quando há um  ambiente  físico  harmonizado  é  porque  haverá  uma  desarmonia  pessoal  para  o  protagonista.  Essa  desarmonia aparece,  nesse  primeiro  momento,  sob  a forma  de  uma  necessidade  do  personagem  de  reagir  frente  à  perda  das  tradições,  após  tentativa  infrutífera de resgatar aspectos da cultura afro-brasileira com tia Maria Rita:

[...] Como é que o povo não guardava as tradições de trinta anos  passados? Com que rapidez morriam assim na sua lembrança os  seus folgares e as suas canções? Era bem um sinal de fraqueza,  uma  demonstração  de  inferioridade  diante  daqueles  povos  tenazes  que  os  guardam  durante  séculos!  [...]  (“Reformas
radicais”, p. 35)  

É interessante observar que os dois primeiros períodos — em que se encontram  as  perguntas,  os  questionamentos,  quase  retóricos  —  parecem,  através  do  uso  do  discurso indireto livre, vir de reflexões de Quaresma. No entanto, a avaliação, a opinião  negativa que segue parece mais adequada ao narrador do que ao ufanista Policarpo. As  “vozes”, nesse caso, se misturam; há uma estrutura reflexiva: ao mesmo tempo em que  o  narrador  reflete  o  pensamento  do  personagem  e  o  traduz,  emite  sobre  ele  um  julgamento, uma conclusão que rebate a perplexidade de Quaresma, por meio de uma  constatação quase que óbvia da inferioridade pátria em relação aos outros povos.   

É  a  partir  desse  momento  que  o  trágico  destino  de  Policarpo  começa  a  se  delinear,  através  de  seu  desejo  de  reação,  que  será  um  traço  característico  de  seu  processo de sucessivos fracassos; é a sua vontade de sair do conhecimento livresco para  a ação que  determina a sua  trajetória  em direção  ao seu  “triste  fim”: “[...]  Tornava-se  preciso  reagir,  desenvolver  o  culto  das  tradições,  mantê-las  sempre  vivazes  nas  memórias e nos costumes...” (“Reformas radicais”, p. 35).

 Policarpo  não  é  um  medíocre,  embora  sustente  suas  opiniões  em  idéias  medíocres,  porque  cristalizadas,  fomentadas  em  seu  escritório,  à  base  de  leituras  que  desejavam transmitir uma idéia de pátria perfeita, a que ele deseja. É essa ausência de  mediocridade  que  o  torna  não  um  personagem  que  simplesmente  é  subjugado  pelos  acontecimentos, mas sim alguém que determina o seu destino através de uma série de  ações.

O  desejo  de  manutenção  de  nossas  tradições  leva-o  a  resgatar  o  costume  da  saudação em Tupinambá, resultado de um estudo das suas tradições por Policarpo. Tal  atitude,  representada  pelo  narrador  de  forma  satírica,  ridícula,  cômica  até,  contraria  a  austeridade, a  seriedade de  Policarpo e,  por isso mesmo, intensifica a  sua  tragicidade,  levando outros a questionarem pela primeira vez a sanidade do personagem:  

Desde dez dias que se entregava a essa árdua tarefa, quando (era  domingo)  lhe  bateram  à  porta,  em  meio  de  seu  trabalho  [os  estudos]. Abriu, mas não apertou a mão. Desandou a chorar, a  berrar, a arrancar os cabelos, como se tivesse perdido a mulher  ou um filho. A irmã correu lá de dentro, o Anastácio também, e  o  compadre  e  a  filha,  pois  eram  eles,  ficaram  estupefatos  no  limiar da porta. (“Reformas radicais”, p. 39)

O  retrato  cômico,  satírico  de  Policarpo  ganha  aqui  em  humor  por  ele  fazer  a  estranha  saudação  a  sério,  e  não  em  uma  brincadeira,  como  na  representação  do  “Tangolomango”.  A  encenação  da  saudação  destoa  do  perfil  sério  do  personagem,  intensificando o risível retratado, exemplicando o que Sônia Brayner afirma a respeito  do papel da sátira na obra de Lima Barreto:

A  sátira  em  Lima  Barreto  possui  um  conteúdo  que,  pelo  seu  lado  hiperbólico,  extremado,  excessivo,  cai  no  grotesco,  suportando  implicitamente  o  reconhecimento  de  uma  norma  ética,  utópica  no  estado  social  cotidiano  que  descreve,  suporte  básico de sua fatura literária militante. [...] próximas sempre do  cômico,  as  situações  de  confronto  entre  duas  formas  de  sociedade  —  a  vivenciada  e  a  idealizada  —  atacam  com  o  objetivo de corrigir através do desnudamento ridículo as normas preconceituosas e rígidas.  (BRAYNER, 1979:157)

O  inocente  evento  do  cumprimento  em  Tupinambá,  associado  à  idéia  fixa  da  necessidade de fazer algo pelo resgate das origens culturais, é que leva Policarpo a uma  sucessão  de  atitudes  que  culminam  em  seu  enlouquecimento  e  sua  conseqüente internação.  Nesse  momento,  a  simpatia  do  narrador  pelo  personagem  se  evidencia,  o  tom de galhofa cede espaço a uma respeitosa admiração, embora as diferenças  de ponto  de vista se mantenham. Não há lugar para a inocência no discurso engajado e crítico do  narrador, a quem nada nem ninguém escapa, a não ser os poucos personagens por quem  nutre algum tipo de enternecimento (como Policarpo ou Ricardo Coração dos Outros)  ou  alguma  semelhança  de  perspectiva  (como  Olga),  como  se  vê  a  propósito  do  requerimento de Policarpo solicitando a implementação do tupi como língua oficial:

Quem  soubesse  o  que  uma  tal  folha  de  papel  representava  de  esforço, de trabalho, de sonho generoso e desinteressado, havia  de  sentir  uma  penosa  tristeza,  ouvindo  aquele  rir  inofensivo  diante dela. Merecia raiva, ódio, um deboche de inimigo talvez,  o documento  que chegava  à mesa da Câmara, mas não  aquele  recebimento  hilárico,  de  uma  hilaridade  inocente,  sem  fundo  algum,  assim  como  se  se  estivesse  a  rir  de  uma  palhaçada,  de  uma  sorte  de  circo  de  cavalinhos  ou  de  uma  careta  de clown.(“Desastrosas conseqüências de um requerimento”, p. 61)  

O  narrador,  a  despeito  de  não  partilhar  das  opiniões  de  Policarpo,  toma  claramente partido do personagem, destaca o seu esforço, o seu trabalho, o seu “sonho  generoso  e  desinteressado”,  em  um  mundo  em  que  até  o  riso  é  de  uma  “hilaridade  inocente”, porque vindo de pessoas incapazes de analisar profundamente o que quer que  seja. A oposição aos ideais do major seria aceitável se fosse sustentada por argumentos  de  pessoas  respeitáveis,  íntegras  como  o  próprio  personagem.  Apesar  de  o  próprio  narrador  discordar  da  mentalidade  patriótica  do  personagem  e  permitir  que  o  leitor  partilhe de sua opinião, como se fosse alguém que também possuísse estofo moral para avaliar Policarpo da mesma forma que ele, não admite o desrespeito daqueles por quem  nutre aversão, dos representantes públicos do poder, a quem critica duramente durante  toda a narrativa. 

Embora  dele  discorde,  o  narrador  admira  o  espiríto  de  Quaresma,  o  que  se  expressa  no  uso  dos  adjetivos  com  que  o  caracteriza:  “desinteressado,  terno,  ingênuo,  inocente”. Revela-se aí, e em vários outros momentos, a relação ambígua, contraditória  que  há  entre  narrador  e  personagem:  embora  o  satirize,  vista-o  com  as  cores  da  comicidade, até o ridicularize, o narrador não deixa de ter simpatia, ternura e admiração  pelo  nacionalismo  sincero  e  livre  de  ambições  de  Policarpo.  Mesmo  porque,  se  o  narrador  não  se  coloca  a  favor  do  posicionamento  utópico  de  Quaresma,  coloca-se  menos ainda a favor do status quo;  na verdade, empreende uma crítica às duas posturas,  conforme destaca Silviano Santiago (1982:172): 

[...]  se  o  romance  faz  uma  crítica  violenta  às  forças  que  impedem o desabrochar das idéias de Policarpo, por outro lado  traz  ele  também  [...] uma  crítica  à  noção  idealizante  de  pátria  que Policarpo tenta pôr em prática. [...]

Assim,  o  fato  de  Policarpo  pecar  por  excesso  de  ingenuidade  não  desmerece a  sua  luta.  Na  verdade,  ao  ser  a  consciência  crítica  dessa  ingenuidade,  o  narrador  nos  mostra  a  impossibilidade  da  sinceridade  em  um  mundo  de  egoísmo  e  interesses,  destacando,  assim,  que  melhor  seria  o  mundo  se  houvesse  mais  policarpos  e  menos  “inocentes” arrogantes. Isso se evidencia no trecho em que, após a internação do major  Quaresma, o narrador reflete a respeito da loucura que acometeu o personagem, a partir de considerações feitas por Olga: 

“[...] as portas dos nossos infernos sociais [...] Não é só a morte  que  nivela;  a  loucura,  o  crime  e  a  moléstia  passam  também  a  sua  rasoura  pelas  distinções  que  inventamos”  (“O  bibelot”,  p.77)

Nesse  momento,  o  narrador  se  assume  como  um  tradutor  dos  pensamentos  de  Olga e, de certa forma, usa a personagem para marcar posições que ele mesmo defende.  Daí  muitas  vezes  haver  uma  intersecção  de  vozes,  indicada  pelo  uso  da  1ª  pessoa  do  plural,  que  inclui  não  só  o  narrador  como  elemento  que  possui  uma  visão  comum  à  apresentada,  mas  também  o  leitor,  levando-o  a  uma  reflexão  crítica.  Essa  intersecção  não permite que se defina, que se limite a quem pertencem as reflexões feitas:

E ela [Olga] pensava como esta nossa vida é variada e diversa,  como ela é mais rica de aspectos tristes que de alegres, e como  na variedade da vida a tristeza pode mais variar que a alegria e  como que dá o próprio movimento da vida. (“O bibelot”, p. 78)

Essa  estratégia  de  intersecção  de  vozes  é  utilizada  ao  longo  da  narrativa,  especialmente  como  elemento  de  contraposição  entre  os  discursos  do  narrador  e  o  de  outros  personagens.  Como  afirma  José  Luiz  Fiorin  (2004:80), todo  discurso  apresenta  mais  de  uma  visão  de  mundo,  dependendo  de  quantos  pontos  de  vista  forem  apresentados:

[...]  todo  discurso  desvela  uma  ou  várias  visões  de  mundo  existentes numa formação social. [...] Quando  o  discurso  tem,  em  seu  interior,  um  único  enunciador,  revela  apenas  uma  visão  de  mundo.  [...]  No  entanto, num romance há vários enunciadores de segundo grau  (personagens)  a  quem  o  narrador  delega  voz.  Essas  personagens podem manifestar diferentes visões de mundo. [...]   Além  das  diferentes  visões  de  mundo  apresentadas  pelos  personagens, o narrador pode ou não tomar partido por uma das  ideologias reveladas na obra. [...]  


Em  TFPQ,  pontos  de  vista  diferentes  e  conflitantes  são  mostrados  com  o propósito  de  evidenciar  a  positividade  do  protagonista  e  a  postura  sempre  crítica  do  narrador, que não toma partido por nenhuma ideologia.


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Fonte:
Marta Rodrigues: “Entre a crítica e a paixão:  os discursos do narrador e do protagonista em  Triste fim de Policarpo Quaresma”.(Dissertação  de  Mestrado  em  Literatura  Brasileira  apresentada  à  Coordenação  dos  Cursos  de  Pós-graduação  em  Letras  Vernáculas  da  Universidade  Federal  do  Rio de Janeiro.  Orientador:  Prof.  Dr.  Wellington  de  Almeida Santos.  Faculdade de Letras – Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ). Rio de Janeiro, 2007

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