06/11/13

Ressurreição, de Machado de Assis

 Machado de Assis - Ressurreicao - Iba Mendes
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Lívia, Félix, Meneses: contraste de caracteres


Embora  Machado de  Assis anuncie que  tentara  contrastar  dois caracteres em  Ressurreição, é  preciso pontuar  que  não há  apenas dois personagens confrontados no  romance, por semelhanças e/ou diferenças: encontramos o confronto entre Félix e Lívia;  Félix e Meneses (conhecido de Félix); Lívia e Meneses; Lívia e Viana (irmão de  Lívia).  Considerando-se, porém,  que  Félix  é  o herói da  trama, é  de  se  supor que  o contraste mencionado na advertência envolva o personagem, de modo que devemos nos centrar nos dois primeiros confrontos, que  se  baseiam no ceticismo de  Félix  em oposição à  credulidade, seja de Lívia ou de Meneses.

Devemos observar, primeiramente, que apenas o contraste entre Félix e Meneses  é explicitamente enunciado no romance, como vemos na fala do narrador: 

Ao inverso de Félix, cujo espírito só engendrava receios e dúvidas, Meneses era antes de tudo propenso às  fantasias  cor  de rosa. Irmanavam-se  no ponto de  serem joguetes de sua imaginação (...)  

Tal era o contraste desses dous caracteres, que a estrela da viúva, não sei se  boa ou má estrela, reuniu a seus  pés.  Um, se  viesse a  adorar  um  rosto hipócrita, desceria na escala das degradações, com os olhos fitos na quimera da  sua  felicidade;  outro, ardendo pela mais angélica  das  creaturas  humanas,  quebraria com as próprias mãos a escada que o levaria ao céu. (ASSIS, 1977, p. 126) [grifo meu]

Essa passagem nos inclina a assumir que o contraste anunciado por Machado de Assis  no prefácio se  dá  entre  o protagonista  e  Meneses. Vejamos, contudo, de  que  maneira poderíamos mobilizar, dentro da situação esboçada em Ressurreição e do seu vínculo com o mote  do  romance, tanto o contraste entre  Félix  e  Meneses quanto o contraste entre o herói e Lívia.   

No enredo de  Ressurreição, Félix  e  Lívia, que  se  conheciam apenas de  vista,  entram em contato em um baile, depois do que o protagonista passa a frequentar a casa  da moça. Conforme vemos no início do romance, Félix está habituado a viver aventuras amorosas, e espera ter com Lívia um relacionamento de igual natureza. A disposição de Lívia é, contudo, diversa, de forma que se trava uma disputa entre Félix e a moça (entre  o “gavião”  e  a  “pomba”, nos termos do título do s timo capítulo do romance),  que termina com a “queda” do herói – intitulando-se “Queda” o oitavo capítulo do livro, que se inicia com este trecho:

O  desenlace  desta situação desigual  entre um  homem  frio e uma mulher  apaixonada parece que devera ser a queda da mulher: foi a queda do homem. Para triunfar da viúva, Félix contava apenas com a sua resolução; mas a viúva, além do seu amor, tinha dous auxiliares ativos e latentes: o tempo e o hábito.  Cada dia que passava caía como uma gota d’àgua no coração do médico, e ia  cavando fundo com a fria tenacidade do destino. (ASSIS, 1977, p. 102)

Lívia teria, assim, “triunfado” inicialmente sobre F lix; por m, a situação vai se  invertendo na medida em que ela passa a sofrer com o ciúme do herói, embora resista às  suas constantes dúvidas, acreditando que Félix, mesmo depois de romper várias vezes o relacionamento entre  ambos, assumiria  enfim  o compromisso matrimonial. Essa conduta de  Lívia  é  atribuída, no romance,  à  sua credulidade, como se  vê  nesta passagem, que  se  refere  às esperanças da  moça  após uma reconciliação com Félix,  depois da qual o protagonista promete a Lívia que irão se casar: “Tantas vezes apagada  do céu, reapareceria enfim a estrela da felicidade, e para sempre? Era caso de dúvida, à  vista do passado; mas a credulidade da viúva estava acima da sua experiência” (ASSIS,  1977, p. 151).

Nesse quadro, vemos o embate  entre  um homem movido pela suspeita, pela descrença, e uma mulher movida pela credulidade – sendo essa uma segunda batalha  entre Félix e Lívia –; desta vez, por m,   Lívia quem sai “vencida”. Sempre alerta  s mais vagas  alterações  no humor de  Félix, procurando adivinhar-lhe  qualquer possível desconfiança, ela entra num estado quase paranóico:

Lívia não se acostumou a ler logo na fisionomia do médico. Ele possuía em alto  grau a faculdade de esconder  o  bem  e o mal  que sentisse.  Era  uma faculdade  preciosa, que o orgulho educara, e se  fortificou com  o tempo. O  tempo,  entretanto, a pouco e pouco lhe foi adelgaçando essa couraça, à medida que se  prolongava e se  fortificava a luta. Então os  olhos  da viúva aprenderam  a soletrar-lhe no rosto os terrores e as tempestades do coração. Às vezes, no meio  de uma conversa indiferente, alegre, pueril, os olhos de Lívia se obscureciam e a  palavra lhe morria nos lábios. A  razão da mudança estava numa ruga quase  imperceptível que ela descobria no rosto do médico, ou num gesto mal contido,  ou num olhar mal disfarçado. (ASSIS, 1977, p. 107)

Ao final do romance, Lívia sucumbe, refutando o casamento com Félix. Dessa forma, a  batalha  entre  um cético e  uma crédula  termina  com a  vitória do primeiro. Contudo, essa vitória é  também uma  derrota, pois Félix  perde  o bem –  que, para  o narrador de Ressurreição, significa contrair matrimônio – pelo receio de tentar obtê-lo –  ou seja, por duvidar –, nos termos do mote de que o romance parte.

O desenvolvimento da  situação amorosa  vivida  por Félix  e  Lívia  confirmaria, portanto, o pensamento de  Shakespeare. No entanto, a  contraparte  lógica  desse  pensamento (conquista-se  o bem ao  não se  ter receio de  obtê-lo)  não pode  ser confirmada a partir do relacionamento do par central, pois a confiança de Lívia – fruto de  sua credulidade  –  só  lhe rendeu  um fracasso. Desse modo, é  num contraste entre  Félix e Meneses que a lição do romance se efetiva.

Como já visto em citação anterior,  Meneses, diferentemente de  Félix, era  “propenso a fantasias cor de rosa”, não se inclinando a desconfianças. A esse caráter de  Meneses se  pode  atribuir sua conduta no  romance. O  personagem, desconhecendo  a  história amorosa que se desenrolava entre o par central, insinua-se para Lívia, por quem se apaixonara, mas é refutado. A experiência de  não ser correspondido, porém, não o abate. Assim que descobre a relação entre Félix e Lívia, Meneses passa a auxiliá-los, e  supera sua decepção casando-se com Raquel – que não fora correspondida por Félix –, a  partir do que conquista, segundo o narrador, a felicidade. Meneses, portanto, não deixa  que  a  frustração o  impeça  de  confiar  em novos relacionamentos, e  aposta  numa  felicidade que de fato atinge, o que confirmaria a ideia de que se alcança o bem ao não  se ter receio de procurá-lo – contraprova para o argumento de Shakespeare. Félix, pelo  contrário, ainda  que  seja  correspondido por Lívia, não alcança  a  felicidade  com ela  devido às suas desconfianças, comprovando esse mesmo argumento.  

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Fonte:
Amanda Rios Herane: “Memória das Ilusões:  Um estudo de Ressurreição, primeiro romance de Machado de Assis”. (Dissertação  apresentada  ao  Programa  de  Pós-Graduação em  Literatura Brasileira, do  Departamento de  Letras  Clássicas e  Vernáculas  da  Faculdade  de  Filosofia, Letras e  Ciências Humanas  da  Universidade  de  São  Paulo,  para  a  obtenção  do título de Mestre em Letras Orientador: Prof. Dr. Hélio de Seixas Guimarães). São Paulo, 2011.

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