28/11/13

Recordações do escrivão Isaías Caminha, de Lima Barreto

 Lima Barreto - Recordacoes do escrivao Isaias Caminha - Iba Mendes
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Temas stendhalianos em Lima Barreto

Quanto a Recordações do Escrivão Isaías Caminha,  o intertexto de  Lima  Barreto  com  Le  Rouge  et  le  Noir  é  evidente  em  diversos momentos da obra. A abertura do romance em si já é uma chave que  desvenda o teor das pretensões de Isaías Caminha. Antes do ingresso  nos  estudos,  o  pai  —  que,  sem  mera  coincidência,  é  um  padre  — informa  ao  narrador  que  este  nascera  no  dia  em  que  Napoleão  venceu  a batalha de Marengo.  As noções de História por  parte do  menino  são  limitadas,  mas  não  as  sementes  lançadas  no  espírito  dele: 

“A tristeza, a compreensão  e a desigualdade  de nível mental  do  meu  meio  familiar  agiram   sobre  mim   de  um   modo  curioso: deram-me anseios de  inteligência. Meu pai, que era  fortemente   inteligente   e   ilustrado,  em   começo,  na   minha  primeira   infância,  estimulou-me   pela  obscuridade  de  suas exortações.  Eu  não  tinha   ainda  entrado   para  o  colégio,  quando  uma  vez me  disse:  Você  sabe  que  nasceu  quando  Napoleão ganhou a  Batalha de Marengo? Arregalei os  olhos e  perguntei:  Quem  era  Napoleão?  Um  grande   homem,  um  grande  general...  E  não  disse  mais  nada.  Encostou-se  à  cadeira e continuou a ler  o livro.  Afastei-me  sem  entrar  na  ignificação de suas palavras; contudo,  a entonação de voz,  o  gesto  e  o  olhar  ficaram-me  eternamente.  Um  grande  homem!...

Essa  é  uma  referência  discreta  (tanto  que  foi  olvidada  pela  crítica  literária  barretiana),  mas  importantíssima  por  afirmar  o general  corso  como  inspiração  para  a  trajetória  do  narrador- protagonista Isaías Caminha.  Não é um  dado fortuito,  nem  deve ser  confundido  com  um  desejo  simples  de  arrivismo.  Quando  o  jovem  barretiano sonha mais tarde com  o momento  em  que “resgataria  o  pecado original  do meu  nascimento,  amaciaria o  suplício  premente,  cruciante e onímodo de minha cor”19, suas esperanças não repousam  de  forma  alguma  sobre  uma  esperteza  malandra,  um  casamento  arranjado  ou  uma  herança  inesperada  –  os  meios  tradicionais  de  arrivismo. 

O desejo de ascensão social deste Napoleão tupiniquim firmava-se,  como  o  irmão  mais  velho  Lucien  de  Rubempré,  nas  bases  do  reconhecimento  do  esforço  e  gênio  pessoais.  As  portas  lhe  seriam abertas não com a publicação das Marguerites ou L’Archer de Charles IX,  mas com  o título de “Doutor” advindo do estudo universitário.  A  glória  futura  na  Capital  do  país  seria  fácil  e  certa,  tanto  quanto  a  aclamação local do poeta Lucien nos salões de Angoulême e “as notas ótimas e os prognósticos da professora Ester” na “cidade de terceira  ordem” 20. Ambos, Lucien e Isaías, são obrigados a escolher entre dois caminhos:  os  sonhos  heróicos  da  juventude  ou  a  mediocridade  da  vida  provinciana,  um  espaço  limitado  do  qual  se  deve  escapar.  A  ambição que os  consome os faz escolherem  a primeira via,  mesmo  conscientes da  luta  entre  o vício  e a virtude que encontrarão.  Mas,  como escreveria Drummond, no meio do caminho tinha uma pedra: a  estrutura  social  ao  redor.  Esses  candidatos  a self  made  man  pertencem  a  sociedades  altamente  hierarquizadas,  em  que  as pessoas necessitam  da recomendação, do apadrinhamento e do favor  de outras  pessoas para abrir seus caminhos. Nada, porém, que a fuga  com  a amante Madame de Bargeton,  com  parentes  em  Paris,  ou  a  carta de recomendação para o Deputado Castro não resolvessem.  

Os  leitores de Lima  Barreto,  contudo,  somos brindados com  a  angustiosa ironia da trajetória de Isaías Caminha.  Pois a companhia  da  amante  é  por  demais  secundária  para  o  poeta  provinciano,  servindo dentro da trama apenas para levar Lucien da província para  Paris;  tanto  que  eles se separam  pouco  depois  de sua  chegada.  O  mesmo  não  se  dá  com  Isaías  Caminha.  Apesar  dos  recursos financeiros limitados para manter o perfil de dândi, tendo de recorrer  ao amigo e à irmã em Angoulême, Lucien tem ascendência nobre por  parte de mãe e conhece minimamente o código social da elite em que  pretende  penetrar.  Não  é  este  o  caso,  entretanto,  do  personagem  barretiano, consciente “de que o Rio era uma cidade grande, cheia de  riqueza,  abarrotada de egoísmo,  onde eu  não  tinha  conhecimentos,  relações, protetores que me pudessem valer…”

O conhecimento de que um amigo menos ilustre vencera no Rio afasta seus temores de mudar-se para a cidade grande,  mas ainda  assim  ele é obrigado a aceitar os conselhos do tio Valentim  para que  busque junto ao Coronel  Belmiro uma recomendação a fim  de que o  deputado  federal  Castro  lhe  arranje  um  emprego  enquanto  faz  os estudos universitários. Quando,  muitos dias mais tarde,  ao perceber  que o benfeitor, que dele deveria se encarregar, o desampara, ele fica  desolado,  passando  do  ódio  à  covardia  e  desta  ao  pavor:  “fiquei  amedrontado em  face das cordas,  das roldanas, dos contrapesos da  sociedade;  senti-os  por  toda  a  parte,  graduando  os  meus  atos,  anulando  os  meus  esforços;  senti-os  insuperáveis  e  destinados  a  esmagar-me,  reduzir-me  ao  mínimo,  a  achatar-me  completamente...”

Do abandono pelo almejado benfeitor deputado Castro até a entrada na imprensa,  tema do próximo capítulo, a história de Isaías Caminha se confundirá com  a de Lucien  em  muitos pontos.  Como o  personagem  balzaquiano,  ele  também  enfrentará  a  miséria  e  provações no período de adaptação,  tendo de trocar  a hospedagem  no hotel  inicial  por um  quarto modesto para estudantes,  a luta para  fazer as refeições diárias, frequentes visitas à biblioteca pública para  ler  grandes  autores,  a  amizade  solidária  com  homens  também  instruídos, a entrada no círculo de debates intelectual (o Cénacle , no  caso de Lucien; o grupo de positivistas, quanto a Isaías) e a troca de  ideias  e discussões  filosóficas  com  esses  novos amigos.  No  entanto  há,  evidentemente,  pontos  em  que  Lima  Barreto  segue  caminhos diferentes ao construir a trajetória do seu personagem.

A  descrição  do  protagonista  francês  envolve  traços  efeminados,  que  fazem  dele um  “Bacchus  indien”  e lhe dão  uma  excepcional  beleza  feminina   –  especialmente  pelo  contraste  com  Davi  Séchard  sobre  quem  se  “concentrent  les  traits  masculins”  da  dupla. Balzac realça o perfil andrógino e beleza excepcional do herói  que resultará em  tripla função narrativa:  1)  a relação submissa com  que  Lucien  formará  pares  –  abrindo  o  romance,  um  angélico  e  espiritual com David Séchard e, fechando a história, outro diabólico e  carnal  com  Carlos  Herrera26;  2)  a  aparência  sedutora  que  o  fará  conquistar  Madame  de  Bargeton  e  Coralie;  3)  o  caráter  fraco  que  contrasta a  beleza  do  seu  corpo  com  a  corrupção da alma ocorrida  tão rapidamente em Paris. No caso de Isaías, o autor e os trópicos lhe  dão um  “corpo regularmente talhado”,  um rosto oval  nem  “hediondo  nem  repugnante”  e  “a  tez  de  cor  pronunciadamente azeitonada”, conforme seu própria e lacônica descrição.

Tanto  em  Illusions  Perdues  quanto  em Recordações  do  Escrivão  Isaías  Caminha os  protagonistas  são  construídos  pelo contraste  entre  sua  aparência  e  a  dos  demais  personagens.  Entretanto,  Lucien  marca-se  pela  androginia,  uma  aparência  indefinida  em  gênero que se reflete na sua indefinição moral  e que  lhe abre várias portas na Province e em Paris;  enquanto Isaías,  pela  mulatice,  a  alteridade  excludente  que  limita  suas  oportunidades de   vencer na Capital. Há uma ilusão inicial, que nasce do contraste entre  ele e o pai versus a mãe, dará lugar à desilusão entre ele e o outro e,  posteriormente, entre ele e a sociedade como um todo. E o narrador-protagonista  barretiano  sente  tal  dado  na  pele,  literalmente,  nas primeiras duas primeiras experiência de racismo que enfrenta ao sair  do interior:  quando tratamentos diferentes em um balcão de estação  são  conferidos  a ele e a um  rapaz  loiro na hora de  exigir  um  troco  não  devolvido  e  quando  é  suspeito  de  ser  o  autor  de  um  furto  ocorrido no Hotel Jenikalé, apenas por ser o único hóspede mulato.  

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Fonte:
Walter Mendes dos Santos: “O Intertexto Balzaquiano em  Recordações do Escrivão Isaías Caminha”. (Tese  apresentada  ao  Programa  de  Pós-Graduação em  Estudos Linguísticos,  Literários e Tradutológicos em Francês do Departamento  de Letras Modernas da Faculdade de Filosofia,  Letras e Ciências Humanas da Universidade de  São Paulo como requisito para a obtenção do  grau de Doutor em Letras - Língua e Literatura  Francesa. Orientador: Prof. Dr. Gilberto Pinheiro Passos). São Paulo, 2012.

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