09/11/13

Poesia Completa de Machado de Assis

 Machado de Assis - Poesia Completa
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Os livros estão em ordem alfabética: autor/título (coluna à esquerda) e título/autor (coluna à direita).

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Antes da missa” e “O bote de rapé” – uma breve análise da sociedade fluminense do século XIX


No ano de 1878, Machado publica cinco textos no jornal O Cruzeiro: “O bote de  Rapé”, “Um cão de lata ao rabo”, “Filosofia de um par de botas”, “Antes da missa” e  “Elogio da vaidade”, que fogem de uma classificação tradicional e da matéria que se podia  esperar que figurasse no meio jornalístico. O que aí notamos é uma mistura de gêneros, que  vai da escrita teatral ao diálogo filosófico e, talvez, pela dificuldade em definir a que  gênero pertencem, figurem na seção “Miscelânea” da edição Obra completa da Nova  Aguilar.

Há ainda outro curioso texto, e pouco referido, da autoria de Machado publicado no  mesmo veículo. Trata-se de “A sonâmbula”, ópera cômica bem curta, que, apesar do nome,  segue uma concepção distinta da ópera de Bellini, embora também trate da infidelidade  conjugal. O texto machadiano consta dos Dispersos coligidos por Jean-Michel Massa, e  retoma uma temática apreciada por Machado: o charlatanismo dos adivinhos e  prestidigitadores.

Nessas produções publicadas em O Cruzeiro, Machado pratica um exercício de  estilo, combinando gêneros diferentes, experimentando formas e modelos, enfim, buscando  uma nova expressão literária que culminaria na publicação das Memórias póstumas de Brás  Cubas, rompendo definitivamente com a estrutura tradicional das narrativas até então  veiculadas no Brasil.

O jornal O Cruzeiro começou a circular no início de 1878 e, ao que tudo indica, Machado foi um de seus principais organizadores, um mentor intelectual, digamos assim.  Essa função desempenhada por ele no periódico foi registrada em uma de suas cartas. Em  correspondência destinada a Salvador de Mendonça em 8 de outubro de 1877, havia um  convite ao amigo para colaborar no jornal:

Meu caro Salvador. / Escrevo-te à pressa, à última hora, e por isso me  dispensarás se te não digo uma série de cousas que há sempre que dizer  entre bons amigos que se não falam há muito. / Antes de tudo, estimo a  tua saúde e a de tua senhora e filhos. / Vai aparecer no 1.º do ano de 78  um novo jornal, O Cruzeiro fundado com capitais de alguns  comerciantes, uns brasileiros e outros portugueses. O diretor será o Dr.  Henrique Correia Moreira, teu colega, que deves conhecer. / Incumbiu- me este de te propor o seguinte: / 1.º Escreveres duas correspondências  mensais. / 2.º Remeteres cotações dos gêneros que interessem ao Brasil,  principalmente banha, farinha de trigo, querosene e café, e mais, notícias  do câmbio sobre Londres, Paris etc., e ágio do ouro. / 3.º Obteres  anúncios de casas industriais e outras. / Como remuneração: / Pelas  correspondências, 50 dólares mensais./ Pelos anúncios, uma porcentagem  de 20%./ Podes aceitar isso? No caso afirmativo, convém remeter a  primeira carta de maneira que possa ser publicada em janeiro. Caso não  te convenha, o Dr. Moreira pede que vejas se nosso amigo, Rodrigues,  do Novo Mundo, pode aceitar o encargo, e em falta deste algum outro  brasileiro idôneo./ Os industriais que quiserem mandar os anúncios  poderão também remeter se lhes convier, os clichês e gravuras. Quanto  ao preço dos anúncios, não está ainda marcado, mas regulará o do Jornal  do Comércio, ou ainda alguma coisa menos./ Esta carta vai por via de  Europa. No primeiro paquete escreverei outra, para remediar o extravio  desta, se houver./  
Desculpa-me a pressa, e escreve ao/ Teu do coração./ MACHADO DE  ASSIS.


Nessa missiva, há informações acerca do mês e do ano do lançamento do jornal,  mas não só isso. Pelo detalhamento feito por Machado na carta, ficamos sabendo também  como se estruturaria o jornal, qual o seu público, que assuntos seriam abordados, quais os  patrocinadores, e, o mais interessante, nos inteiramos de que Machado seria o principal  responsável pelo plantel de O Cruzeiro, selecionando aqueles que se incumbiriam de  prover-lhe artigos e textos, isto é, os intelectuais de talento que colaborariam na publicação.  Neste período, Machado já desfrutava de reconhecimento pela sua capacidade  intelectual, tendo lançado livros de poesia e de teatro, assim como traduções, mas suas  contribuições nos jornais recebiam maior destaque. Assim como no decênio de  60, deu seus  primeiros passos como cronista, no de 70, faria suas incursões pelo romance, estreando  com Ressurreição, em edição de Garnier, e prosseguindo na escrita de outros três livros do  gênero - A mão e a luva, Helena e Iaiá Garcia -, trabalhados inicialmente sob a forma de  folhetim.

Naquele período, final dos anos 70, o escritor consolidava uma fase de consagração  como prosador de narrativas mais longas, é o que deixa transparecer em outra carta, escrita  um ano antes, dirigida ao mesmo Salvador de Mendonça. Na missiva, Machado elogia o  artigo publicado por Salvador na revista Novo Mundo sobre seu livro de poesia,  Americanas, e fala do lançamento do romance Helena:  “Vai com este vapor um exemplar  da Helena, romance que publiquei no Globo. Dizem aqui que dos meus livros é o menos  mau; não sei; lá verás. Faço o que posso e quando posso.” (13 de novembro de 1876).   Obviamente há uma grande carga de modéstia nas palavras do escritor, mas,  segundo consta na carta, Machado dá importância ao fato de Helena ter recebido elogios da  crítica, no sentido de ser uma produção melhor que as anteriores. Talvez o escritor  estivesse se referindo ao artigo, sem assinatura, publicado em A Reforma, em 19 de outubro  de 1876.

Helena é um trabalho que pode competir com os mais bem acabados do  gênero.  
Já antes nos havia dado o Sr. Machado de Assis um outro romance, que,  pela finura das observações, desenho dos caracteres, estudo psicológico e  amenidade dos episódios, anunciava a posição eminente que teria de  ocupar entre os romancistas nacionais, o vigoroso autor de Ressurreição.  Helena, que lhe seguiu, é um grande progresso.
  
 Uma outra crítica a Helena, posterior à escrita da carta de Machado, também  destaca o romance como uma das melhores produções machadianas. Todavia o que nos  interessa é a ressalva que o autor do artigo, A. C. Almeida, faz à figura do poeta: “Nota-se,  contudo, uma coisa: que o estamos considerando como romancista (grifo nosso). Do  Machado poeta já não diríamos o mesmo, se bem que ande-lhe (sic) aureolado o nome por  apoteose balofa e louvaminheira.”

Definitivamente, o prosador começava a ocupar o vasto terreno literário de onde o  poeta, a princípio, era banido. Como um autor que respeitava o julgamento do outro sobre  seus escritos, Machado parecia avaliar atentamente o que se afirmava sobre sua obra e  buscava a justa medida de sua vocação.

A vida literária de Machado girava em torno dos jornais e foi esse o veículo que lhe  serviu de escola e oficina, que lhe apurou o estro. Além de O Cruzeiro e O Globo, citados  aqui, Machado já havia colaborado em outros periódicos, como A Marmota Fluminense,  (transformada posteriormente em A Marmota), O Futuro, O Espelho, Gazeta de Notícias,  Jornal das Famílias, Jornal da Tarde e Diário do Rio de Janeiro.

Quando destacamos os seis textos de O Cruzeiro, foi especialmente pelo fato de o  periódico trazer a público textos de natureza distinta da que a maioria dos jornais tinha por  hábito veicular. Normalmente, o que se lia nas diversas seções jornalísticas, além das  notícias e anúncios, eram traduções, romances em capítulos, novelas, contos, crônicas e  poemas. O anedotário também era bem farto, assim como as ilustrações, charges e  caricaturas. É curioso como O Cruzeiro rompe com esse padrão ao também oferecer aos  leitores textos teatrais e reflexões filosóficas.

Dois textos de Machado em O Cruzeiro nos interessam particularmente, por serem  peças teatrais escritas em verso: “O bote de rapé” e “Antes da missa”. Ambas as comédias  apresentam um aspecto singular: o papel da mulher na sociedade fluminense do século  XIX. O interesse de Machado pela questão feminina é muito natural se observarmos que,  por muitos anos, ele foi um dos principais colaboradores do Jornal das Famílias, e sua  vasta publicação neste periódico se estende de 1863 a 1878, o que comprova sua constância  na publicação de textos particularmente voltados para o público feminino. A publicação  oferecia às leitoras páginas de romance, contos, histórias morais, lições religiosas,  anedotas, receitas de economia doméstica, culinária, partituras musicais, modas e trabalhos  manuais - de artesanato a lições de corte e costura.

Desse universo tipicamente feminino, Machado retirou muitos perfis que viria a  desenvolver em sua obra. Da mesma forma, a convivência com tal meio ofereceu-lhe um  vasto conhecimento da  “alma sensível”, em confronto com o universo masculino, dos  leitores, aparentemente, “sisudos”, mas que, da mesma forma, representavam a frágil  intelectualidade da capital do Império, com seus “medalhões”, francamente favorecidos  pelo patriarcalismo.

Assim, procuraremos fazer um estudo mais atento dessas duas peças, “Antes da  Missa” e “O bote de rapé”, que, aliás, ainda não mereceram um estudo acurado dos críticos  da obra machadiana, assim como de Os deuses de casaca. A índole da sua comédia em  verso parece ser, sobretudo, a de apresentar a face caricata e burlesca da sociedade  fluminense, principalmente da elite, mas quase sempre de uma maneira enviesada, como  seu estro de escritor exigia: na aparência, apenas rindo da superficialidade dos tipos   sociais,  mas guardando, nas entrelinhas, críticas mordazes.

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Fonte:
Flávia Vieira da Silva do Amparo: “SOB O VÉU DOS VERSOS”  O LUGAR DA POESIA NA OBRA DE MACHADO DE ASSIS" ( Tese de Doutorado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras Vernáculas da Universidade Federal do Rio de Janeiro como quesito para a obtenção de título de  Doutor em Letras Vernáculas (Literatura Brasileira)  Orientador: Professor Doutor Antonio Carlos Secchin.  Co-orientador: Professor Doutor Claudio Murilo Leal ). Rio de Janeiro, 2008

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