08/11/13

Memorial de Aires, de Machado de Assis

 Machado de Assis - Memorial de Aires
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A estética da velhice


Para  Augusto  Meyer  (1958,  p.  50)  havia  no  Memorial uma  “indulgência  crepuscular” que tornava a obra um “livro cinzento” e morto: 

Mas a indulgência também é sonolência, o abandono parece cansaço.  Livro  cinzento,  livro  morto,  livro  bocejado  e  não  escrito.  Aires?  Fidélia? Tristão e o casal Aguiar? Só vejo uma personagem – o Tédio.  A  “letargia  indefinível”  [...]  tomou  conta  do  velho  Joaquim  Maria  definindo-se. É agora um imenso bocejo, capaz de engolir o mundo.

Comparado às demais obras de Machado de Assis, o Memorial, à primeira vista,  favorece  esse  tipo de  leitura,  a  qual  é  partilhada  por  muitos  críticos.  Márcia  Lígia  Guidim, pautando-se nesse rico filão da crítica brasileira, postula que essa obra é “mal-estruturada”:

Apesar  da  valorização  exagerada  de  Carolina  como  leitora  crítica  na  produção machadiana, considera-se que o Memorial de Aires, iniciado  após sua morte, constitui-se numa produção arrastada e penosa, frente  a um quadro rotineiro de tristeza, licenças e consciência das restrições  fisiológicas da velhice. Embora parte da crítica considere o tom desse  romance  um  equilíbrio  machadiano  perfeito  (o  que  quer  que  “equilíbrio” queira  dizer...)  a  maior  parte  dos  críticos  (Mário  Matos,  Eugênio  Gomes,  Mário  de  Andrade)  vê  o  romance  como  obra  crepuscular, melancólica e mal-estruturada. (2000, p. 24).

Não pretendo,  neste  trabalho,  defender  a  tese  de  que  o  Memorial  seja  a  obra  prima  de  Machado de  Assis;  considero que  esse  livro,  em  termos  de  organização  estrutural, nada deve às obras anteriores. O fato de ser um livro sobre a velhice (narrado  por um narrador velho e escrito por um escritor velho) não significa, necessariamente,  que a obra também seja velha. A novidade desse livro, aliás, foi percebida, quase que  intuitivamente, por Lúcia Miguel Pereira:

Agora, uma grande conformidade lhe vinha e lhe revelava, na última  hora, um dos segredos da vida: a aceitação, a humildade do coração.   E  por  isso  esse  livro  de  velhice  tem  um  inconfundível  acento  de  poesia, uma frescura orvalhada, um som claro de cristal. (Machado de  Assis, p. 206).

Apesar  de  afirmar  que  o romance  veicula  o tema  da  humildade  e  de  ser  um  “livro de velhice”, Pereira chama-nos a atenção para a sua “frescura orvalhada”, ou seja,  ela  usou uma  metáfora  da  juventude  para  dizer  que  essa  obra  está  imbuída  de  um  elemento novo. Contudo, a idéia de que o Memorial de Aires é uma elaboração própria  da  velhice,  constituiu um  dos  pontos  centrais  na  obra  Armário de  Vidro,  de  Márcia  Lígia Guidim: 

Mover-se  sob  ‘centros  sensoriais  e  existenciais’  exigiriam  também  o  abandono  de  certos  recursos  estilísticos  que  deram  tom  e  direção  à  obra  machadiana.  Atrás  mostramos  que,  em  certas  cartas,  Machado  propunha um ‘estilo da velhice’, baseado na contenção imagética e na  restrição temática ‘para não enfarar’. (2000, p. 78) 

A  contenção imagética  apresenta-se  sob diferentes  formas  e,  de  fato,  pode  ser  pensada  como um  “estilo da  velhice”.  Vimos  nas  análises  precedentes  que  o narrador  evita a ênfase e busca uma tonalidade neutra. Guidim afirma que a contenção é obtida  mediante um freio estilístico:  

Há,  por  essa  razão,  um  freio  que  pontua  as  frases  descritivas:  “Vejamos  se  posso...”,  “sei  que  não  é  seguro...”,  “Naturalmente...”,  “como que ajuda”, “senti...”. Esse efeito se amplia muito no parágrafo  seguinte  ao  primeiro  que,  descrevendo  os  anfitriões,  se  abrirá  sobre  eufemismos, perífrases e, sobretudo com grande reserva para evitar a  hipérbole (2000, p. 107).

 As  figuras  de  retórica  utilizadas  são brandas  e  deixam  evidente  o desejo de  comedimento e, como vimos, mesmo quando há ênfase, essa é rapidamente submetida a  uma releitura mais branda. Além desse recurso, Guidim salienta, também, que o “estilo  de  velhice”  pode  ser  percebido,  ainda,  na  ausência  da  ironia  aguda  (2000,  p.78),  “rebarbativa, espalhafatosa e violenta” (2000, p. 150). Os argumentos feitos pela autora  são praticamente  os  mesmos  por  nós  enfatizados  ao longo deste  estudo e,  de  fato,  podem ser usados para justificar a presença de um estilo de velhice.  No entanto, essas  constatações,  de  natureza  estilística,  não  servem  de  base  para  algumas  afirmações  lastreadas  na  biografia  de  Machado de  Assis:  “Seu último romance  ...  padece,  pelos  temas,  forma  e  estilo,  da  melancolia  típica  do escritor  que  não   mais  vibra  com   a  criação” (2000, p. 80). Guidim, não hesita em apontar defeitos na obra:  

A fase tardia machadiana se mostrará, para falar como Adorno, pouco  elaborada do ponto de vista técnico, da condução estilística da frase,  do  enfoque  narrativo  subordinado  à  escolha  do  gênero  literário  e  do  tratamento temático de questões  sobre a  velhice  e a  morte. (2000, p.  147).

Guidim  parece  estar  pensando  de  acordo com  os  pressupostos  da  estilística  tradicional a qual, de acordo com Bakhtin, não é adequada para o estudo do romance.  Percebe-se isso, sobretudo, quando ela ironiza o equilíbrio machadiano: “[...] o que quer  que  “equilíbrio”  queira  dizer...”  (2002,  p.24)  e  também  quando se  refere  às  análises  feitas  pela  “crítica  tradicional”:  “A  rigor,  a  crítica  tradicional  tem  tido dificuldade  de  analisar a obra somente sob critérios estéticos e tem preferido colocar o romance quase  na  fronteira  de  documento”.  Vimos,  ao longo deste  estudo,  que  o estilo de  qualquer  romance  é  determinado pela  orquestração entre  as  diferentes  unidades  de  estilo (que  chamamos  de  poética do romance)  e  não pelo  estilo de  uma  determinada  voz  (da  personagem,  do narrador,  de  um  gênero literário).  Por  conseguinte  a  poética  do  Memorial não é obtida por um determinado estilo; não se trata, apenas, de uma poesia  que se apresenta isolada no interior do enunciado, mas de uma poética que se faz aflorar  pela articulação entre as vozes dos diferentes sujeitos que povoam o romance; por isso,  é que se pode afirmar que a poética do Memorial se situa no nível metadiscursivo:

O  nível  metadiscursivo  torna  evidente  a  significação  paradoxal,  pois  os  enunciados  do  narrador  propõem  duas  vias  de  apreensão:  entrevistos  sob  a  perspectiva  do  senso  comum,  eles  se  encaminham  para um sentido único e conclusivo; visualizados pela contradição que  os  caracteriza,  introduzem  significações  múltiplas.  Entretanto,  a aceitação  do  significado  literal  dos  enunciados    pode  ocorrer  na  medida  em  que  se  desconsidera  a  contradição  que  lhes  é  inerente  quando contrapostos uns aos outros; reconhecida a antilogia, ou seja, o  caráter  opositivo  dos  enunciados,  que,  apesar  disso,  validam  tanto  a  afirmação  quanto  a  negação,  institui-se  o  movimento  circular  do  paradoxo. (SARAIVA, 1993, p. 184).

É  justamente  por  isso que  podemos  afirmar  que  a  poética  do romance  no  Memorial de Aires está a serviço da poesia e não do plurilingüismo, pois como salienta  Saraiva, a perspectiva paradoxal introduz a polissemia.  Discordamos,  do mesmo modo,  quando Guidim  afirma  que  o “enfoque  narrativo”  é  pouco elaborado  porque  estaria  “subordinado à  escolha  do gênero  literário”. Ora, Machado não utiliza o diário de um modo convencional, caso contrário,  o Memorial  deveria  ser  pautado pelos  clichês  comuns  aos  romances  autobiográficos  (forte  subjetivismo;  sentimentalismo derramado;  focalização  única;  narrativa  com  começo meio e fim, entre outros). O que vemos no Memorial é um aproveitamento das  potencialidades do diário, ou seja, Machado de Assis  deixa o gênero falar: é esse tom  menor que é fundamental e que possibilita a articulação harmoniosa entre as diferentes  vozes. 

O  tratamento temático acerca  da  velhice  também  não pode  ser  visto como um  modo convencional de ver o mundo: se, por um lado, Aires aceita o papel passivo de  aposentado, por outro, o autor, o responsável último pela significação da obra, nega essa  passividade  ao  reproduzir,  “nas  malhas  do texto”,  o drama  vivido por  Aires;  são os recursos formais, pautados pelo paradoxo, que possibilitam a releitura desse velho tema,  ou como assevera Aires: “o drama é de todos os dias e de todas as formas, e novo como  o sol, que também é velho”. Por isso o universo axiológico não pode ser percebido sob  uma única ótica, a da resignação passiva e benevolente de um velho:   

[...]  a  ideologia  do  cálculo,  da  comédia,  do  fingimento  e  do  favor,  força  vital  das  Memórias,  ficou  muito  esmaecida  no  Memorial.  E  mais:  relativizou-se  o  peso  tão  machadiano  do  egoísmo,  já  que  os  jovens  (Fidélia  e  Tristão)  têm  direito  –  reconhecido  sem  chiste  pelo  conselheiro  –  de  separar-se  “alegremente  do  caduco  e  do  extinto”.  Pode-se  até  perguntar  ao  velho  bruxo,  que  sempre  acreditou  na  gratuidade dos gestos humanos: haverá no Memorial uma aceitação da  bondade  como  procedimento  pessoal  e  social?  Parece  que  sim.  (GUIDIM, 2000, p.150).
  
Efetivamente  há  uma  aceitação da  bondade  que  muitas  vezes  é  afirmada  sem  uma sombra de ironia, no entanto, para que essa bondade pudesse ser aceita no universo romanesco,  tornou-se  necessário embaralhar  a  perspectiva  analítica,  caso contrário,  o  romance descambaria para a pieguice. Portanto, não se trata de uma volta à convenção,  como quer  Guidim  (2000,  p.147):  trata-se  de  uma  técnica  inovadora  que  tem  por  objetivo fazer  aflorar  para  o primeiro plano do romance  uma  atmosfera  agradável  e  harmônica;  condição necessária  à  poesia  no romance.  De  certo modo,  Guidim  acaba  afirmando isso, mas, não aprofunda o seu argumento:

Não  pretendo  afirmar  que,  porque  ficou  velho,  o  escritor  aceitará  irrestritamente a  convenção, o ajuste, os pactos  sociais – o que seria  temerário,  mesmo  porque,  na  construção  dos  personagens,  o  conselheiro Aires, observador arguto, passaria a ser lido como um tolo  frente à Brás Cubas. A questão é, como sugere Adorno, estrutural. Ou seja,  a  velhice  não  transforma  mas  contamina  o  ponto  de  vista  machadiano. (2000, p.151, grifo da autora).

Ora, Guidim afirma, juntamente com Adorno, que a velhice “contamina o ponto  de  vista  machadiano”;  é  isso que  ocorre  de  fato;  mas,  para  se  chegar  lá,  sem  parecer  ingênuo – já  que  o conselheiro Aires  é  um  “observador  arguto”  –,  foi  necessário um  árduo trabalho de  elaboração estilística  (poética  do romance).  Portanto,  não se  pode  falar  em  frouxidão  no estilo do romance,  posto que  essa  frouxidão  (que  efetivamente  existe  no enunciado)  é  feita  mediante  um  trabalho de  elaboração.  Podemos  indagar,  ainda:  como se  pode  falar  que  o  Memorial  é  um  romance  convencional  se,  até  hoje,  depois  de  atravessarmos  todo o oceano modernista  ele  ainda  se  conserva  como uma  obra difícil (apesar de ser aparentemente fácil)?   

Discordamos  também  que  o Memorial  seja  uma  representação estética  totalmente  fora do seu tempo, como quer Guidim:

Machado  de  Assis  buscou  uma  representação  estética  para  expressar  suas mórbidas inquietações, mas, sobretudo, para aceitar sua iminente   exclusão  artística  e  existencial  de  um  cenário  cultural  que  muito  ajudara a criar no país [...] Machado de Assis ficou fora da euforia do  “bota-abaixo”,  o  grande  plano  de  urbanização  do  prefeito  Pereira  Passos. Ficou fora da “art-nouveau”. (2000, p.148). 

Postular  que  o Memorial  apresenta-se  como uma  representação estética  das  “mórbidas  inquietações”  do escritor  Machado de  Assis  é  uma  forma  unilateral  de  interpretação  que  não  se  sustenta,  posto que  esse  romance,  como  já  foi  enfatizado,  é  construído sob uma perspectiva paradoxal, portanto, não pode ser lido, apenas, sob um  único horizonte axiológico.  

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Fonte:
Lucilo Antonio Rodrigues: “A Poesia no Romance: Memorial de Aires, Um  Caso Exemplar”. ( Tese  apresentada  ao Instituto de  Biociências,  Letras  e  Ciências  Exatas  da  Universidade  Estadual  Paulista,  Câmpus de São José do Rio Preto, para obtenção do  título  de  Doutor  em  Letras  (Área  de  Concentração:  Teoria  da  Literatura. Orientador: Prof. Dr. prof. Dr. Aguinaldo José Gonçalves). São José do Rio Preto, 2007

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