20/11/13

Poesia Completa de Bernardo Guimarães

 Bernardo Guimaraes - Poesia Completa - Iba Mendes
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A Origem do Mênstruo:  A heresia bernardina


A heresia cometida por “A origem do mênstruo” tem se mostrado inaceitável para o status quo do cânone, que a rejeita fortemente, influenciando,  inclusive os ousados editores dos versos obscenos de Bernardo. Neste sentido  chama a atenção que as advertências de Machado e de  Bandeira, quanto às  qualidades elevadas da lira bernardina, não tenham produzido efeito de alterar a  recepção do poeta pelos demais operadores do cânone. Mesmo agora, que  existe um maior interesse pelo texto de Bernardo, o interesse é relativo e restrito, não se estendendo ao conjunto da obra. Uma postura que se vê em Haroldo de  Campos, um dos patronos dos estudos atuais. Mesmo Antonio Candido, que  privilegia a obra bernardina extensivamente, quando realiza estudos específicos,  que  aprofundam análise da poesia obscena e pantagruélica, recusa-se a  trabalhar com o poema do mênstruo.  

A qualidade da crítica de Bernardo aos modelos hegemônicos no  romantismo brasileiro seria sua desgraça, motivo que, segundo Süssekind, o  colocaria à margem.

Ao nosso ver, esta exclusão também  tem entre seus  fundamentos a aproximação que faz dos clássicos, de características heréticas e de modo rebaixado, embora inegavelmente precisa nas escolhas, aspecto que  faz de sua obra pornográfica uma arte de grandes qualidades.  Neste aspecto a  censura que sofre não é diferente daquela sofrida por outros autores de posição  destacada e segura nas esferas canônicas. Censura que aparece de mais de  uma forma. Um caso é a da famosa  Priapeia, apresentada como da pena de  Virgílio, numa edição de suas obras completas de 1469, seria censurada em  outras edições posteriores ou seria atribuída a outros poetas mais  reconhecidamente lascivos.

Ação exemplar é aquela censura sofrida por  Horácio, quando seus versos expõem libidinagem e sexualidade numa linguagem mais direta, comentada em capítulo anterior. Como seria possível censurar um dos nomes que não cessam de significar o próprio cânone? Certamente que não será uma atitude fortuita e, muito menos, inocente, tomada por um editor  isoladamente. Ao contrário, trata-se de uma postura que se mantém por um  período longo, em mais de uma das grandes traduções da obra do autor,  conforme demonstra Bélkior. Todo o processo parece ligado à manutenção do  equilíbrio das forças do campo literário, pois não parece aceitável para o conceito adotado pelo grupo hegemônico, que sentimentos e ideais degradantes ou  animalescas possam estar no texto de um autor canônico, daí não se poupar o  grande Horácio ou um Bernardo qualquer. 

O poema sobre o mênstruo, assunto tabu, lembram os psicanalistas e os  antropólogos, realiza um complexo exercício poético, trata do feminino, assunto  privilegiado para o romantismo, e faz uma apropriação dos clássicos da estirpe  de Ovídio, Camões e Gonçalves Dias, sem que fique a dever aos parodiados, a  não ser uma atitude menos herética — não fosse a paródia um recurso dos  mais sofisticados. Faz isso de uma forma absolutamente visceral, mostrando uma  mulher bem distante da virgem dos lábios de mel, da índia pura e bela, dominada pelo abraço do jovem e mulherengo imperador brasileiro, pagando por tanta  audácia o preço de ser excluído da própria exclusão. Visceral, para não haver  dúvidas, no sentido que toca na imagem feminina no que ela tem de mais íntimo e de interesse vital para a manutenção da espécie, seu sexo e sua capacidade  de reprodução, que a menstruação indica. 


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Fonte:
Irineu Eduardo Jones Corrêa: “Bernardo Guimarães e o paraíso obsceno A floresta enfeitiçada e os corpos da luxúria no romantismo”. (Tese de Doutorado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras (Ciência da Literatura), Faculdade de  Letras, Universidade Federal do Rio de  Janeiro, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Doutor em Letras (Ciência da Literatura). Orientador: Professor Doutor Luiz Edmundo Bouças Coutinho). Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2006.

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