10/11/13

Oliver Twist, de Charles Dickens (traduzido por Machado de Assis)

 Charles Dickens - Oliver Twist - Iba Mendes
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Oliver Twist no Brasil 

No dia 23 de abril de 1870, o editor do  Jornal da Tarde, periódico do Rio de  Janeiro, anunciava o romance que iria suceder a publicação de Tenente Roberto:

NOVO FOLHETIM. Começa hoje o magnífico e longo romance do célebre – CARL DICKENS  –  intitulado:  OLIVEIRO  TWIST.  As  situações dramáticas e cômicas, os lances inexperados, as aventuras surpreendentes de que este romance está cheio, dão a esperança de que terá um sucesso ainda maior que o do – Tenente Roberto. (Jornal da Tarde, ano I, nº 150,  p.1, grifos no texto)

Trata-se  da  tradução  de  Oliver  Twist de  Charles Dickens.  Interessante  notar  que apenas o autor do romance consta do anúncio no periódico. Como se saberia,  então,  que  Machado  de  Assis é  o  autor  dessa  tradução?  No  estudo  crítico  e  biográfico sobre o escritor brasileiro, Lúcia Miguel Pereira (1955, pp.121-122) afirma  que, em 1870, além de colaborar com a  Semana Ilustrada e o Jornal das Famílias,  Machado iniciou a tradução de um folhetim para o Jornal da Tarde – não concluída  pelo autor. Em nota explicativa, Pereira esclarece:

Em  carta  conservada  no  arquivo  da  Academia  Brasileira  de  Letras  e  publicada por Fernando Néri, alude Machado de Assis a esse trabalho sem  lhe  mencionar o  nome;  entretanto,  o  folhetim  publicado  no  momento  pelo  Jornal  da  Tarde,  o Oliver Twist,  de  Dickens,  não  sofreu  nenhuma  interrupção.  Será  essa  a  tradução  de  que  fala?  Terá  sido  acabada  por  outro?  Deve  ter  sido,  porque  é  a  única  do  jornal  no  momento.  (PEREIRA,  1955, p.122)

De fato, como se pode verificar no Jornal da Tarde, Oliveiro Twist permanece  no  folhetim  do  periódico  até  23  de  agosto  de  1870,  quando  se  publica  o  último  capítulo,  o  capítulo  de  número  cinquenta  e  três,  que  revela  o  destino  de  cada  personagem  da  trama.  Segundo  Jean-Michel  Massa  (1965,  p.  529),  não  se  pode  duvidar de que pelo menos vinte e oito capítulos dessa tradução, compilados por ele  em  Dispersos de  Machado  de  Assis,  tenham  sido  feitos por  Machado  de  Assis.  

Prova disso é uma carta encaminhada pelo próprio Machado aos diretores do  jornal, na qual o escritor brasileiro comunica a desistência do trabalho que fazia para  o periódico:

Era resolução minha [de Machado], de acordo com o recado que de V. Ex. recebi,  por  intermédio  de  nosso  comum amigo,  o  doutor França,  esperar a  chegada  do  sr.  Oliveira  para  nos  entendermos  todos  três  a  respeito  do  trabalho  que  faço  para  o  Jornal  da  Tarde  como  tradutor do  folhetim.  Nisto  atendia  eu  à  consideração  devida  para  com  os  dignos proprietários  do  Jornal  da  Tarde.  –  Sobreveio  porém  uma  circunstância  que  me  obriga  a  modificar aquela  resolução,  e  dizer a  V.  Ex.,  que  não  posso  continuar a  traduzir o folhetim, como até agora fazia. Não querendo pôr embaraços ao  Jornal  da  Tarde,  continuarei  a  tradução  até  sábado,  18.  (GALANTE DE SOUSA, J., 1955, p. 452 apud LÍSIAS, R., 2002, p. 16)

Com  esse  comunicado,  Machado  teria  encerrado  sua  contribuição  como  tradutor  do  romance  de  Dickens quase  ao  final  do  capítulo  vinte  e  oito;  capítulo  publicado no nº 197 do Jornal da Tarde, sábado, 18 de junho de 1870. No mínimo  é curioso encontrar no nº 198, segunda-feira, 20 de junho de 1870, e, portanto, após o  comunicado  de  Machado,  a  continuação  do  capítulo  vinte  e  oito,  intitulado  “Prosseguem  as aventuras de  Oliveiro”.  No  entanto,  conforme  argumenta  Jean-Michel Massa, Machado  encerra  de  fato  sua  colaboração  a  partir do  capítulo XXVIII,  pois  o  tom  da tradução  é  diferente,  com erros  de  interpretação  que  só  se  explicam  pelo  desconhecimento  das  páginas  já  traduzidas  pelo  novo  tradutor.  Por exemplo,  onde  Machado  de  Assis  emprega  nas  formas  de  tratamento  a terceira  pessoa,  ou  “você”,  o  novo tradutor emprega a  segunda  pessoa  do plural ou do singular. (MASSA, 2008, p. 67) 

Cabe, ademais, retomar o que já foi dito pela crítica com relação ao que teria sido o texto-fonte para Machado realizar a tradução do romance dickensiano e, com isso, seu suposto conhecimento da língua inglesa. 

Como já havia apontado Lúcia Miguel Pereira (1955, p. 119), “ao se casar, já devia ele conhecer o inglês, pois há nos seus livros dessa época várias citações de Shakespeare no original, e é provável que tenha começado, em 1870, uma tradução do  Oliver  Twist  de  Dickens”.  Pois bem,  a  carta  enviada  pelo  próprio  Machado  aos diretores  do  Jornal  da  Tarde  confirma  que  ele  traduzia  o  folhetim  que  estava  em curso  naquele  momento  no  periódico.  E  foi  isso  que  levou  a  crítica  a  concluir  que  Machado conhecia bem a língua inglesa, uma vez que, como se chegou a apontar, o  romance  de  Dickens não  era  texto  para  tradutores principiantes  (MASSA,  2008,  p. 53). Acerca desse imbróglio, Jean-Michel Massa concluiu que, aos vinte e sete anos, com  facilidade  ou  dificuldade  (não  se  sabe),  Machado  lia  em  inglês,  seja  por necessidade  profissional  seja  por  prazer  (Ibid.,  p.  53).  Com  efeito,  um  novo inventário da biblioteca de Machado de Assis feito por Gloria Vianna (2001, pp. 99-274)  mostra  que  há  livros ingleses no  original  com  marcas de  manuseio  tais como anotações, marcações de leitura, observações, etc. Cito, a exemplo disso, os livros de número 278 e 313 do inventário de Vianna, a saber,  The history of the rebellion and civil wars in England together with an historical view of the affairs of Ireland, de Edward  Earl  of  Clarendon,  publicado  em  1849,  com  chave  no  primeiro  parágrafo  e sublinhado  no  segundo;  e  The  beauties of  Shakespeare,  de  1839,  livro  muito manuseado,  com  o  prefácio  assinalado,  páginas  dobradas,  riscos na  margem  no sentido  vertical  em  várias páginas.  Há  inclusive  The  works  of  Charles  Dickens  no original,  mas trata-se  de  uma  edição  de  1880,  doada  a  Machado  de  Assis por Salvador  de  Mendonça  em  19  de  agosto  de  1881,  como  consta  da  dedicatória (VIANNA, 2001, pp. 213-218).    

Cumpre considerar, no entanto, que o fato de Machado ler em inglês aos vinte e sete anos, ou seja, em 1866, não significa que ele tenha traduzido o romance de Dickens obrigatoriamente  a  partir  do  original  (MASSA,  2008,  p.  47).  Assim, considerando  outra hipótese,  Jean-Michel  Massa  comparou  uma  tradução  francesa de  Oliver  Twist  com  a  tradução  machadiana.  O  cotejo  dos dois textos resulta, segundo o autor, em provas irrefutáveis de que Machado não traduziu o romance de Dickens a partir do texto original: 

En  effet,  sans  jamais  se  reporter au  texte  original,  ainsi  que  le  démontrent les  notes,  il  utilise  pour traduire  Oliver Twist  [...]  une  version  française.  Il retraduit  le  texte  procuré  par Alfred  Gérardin,  publié  en  1864.  (MASSA, 1965, p. xli)


As notas que apresenta Massa em Dispersos de Machado de Assis (1965, pp.


529-554)  compreendem  exemplos com  os quais o  crítico  buscou  mostrar  a  equivalência  entre  trechos da  tradução  francesa  de  Gérardin  e  a  tradução  machadiana, indicando, também, em cada capítulo, palavras, frases e parágrafos do texto  francês que não  constam  da  tradução de  Machado.  Mais tarde,  em  Machado  de  Assis Tradutor,  Massa  volta  a  tratar  da  tradução  machadiana  de  Oliver  Twist,  tecendo  breves considerações sobre  o  processo  tradutório  de  Machado  de  Assis.  Como  afirma  Massa  (2008,  p.  67),  Machado  remodelou  a  obra,  suprimiu  palavras,  frases,  parágrafos,  omitindo  trechos de  violência  e  crueza.  Ademais,  Massa  questiona: 

seria  para  dar uma  ideia  menos  sombria  da  Inglaterra  vitoriana  que  ele  suaviza, através de alguns cortes significativos, a descrição dos submundos
de Londres (XXVI), ou que ele suprime a caçoada que o autor endereça aos juízes  afetados,  indiferentes  ao  sofrimento  humano  sob  suas  perucas
empoadas (III)? (MASSA, 2008, 68)  

Com  devida  cautela  e  reconhecimento  pelo  que  Jean-Michel  Massa  já  nos  apresentou acerca da tradução machadiana de Oliver Twist, não podemos deixar de  fazer algumas observações diante do que afirma o crítico francês. Entendemos que o  objetivo  de  Massa  ao  cotejar  a  tradução  francesa  e  a  machadiana,  e  apresentar notas desse  cotejo  em  Dispersos de  Machado  de  Assis,  foi  provar  que  Machado utilizou  o  texto  de  Gérardin  como  base.  Isso  explicaria  o  procedimento  do  crítico francês, qual seja apenas apontar semelhanças e omissões, frase por frase, capítulo a  capítulo,  sem  dar  a  elas  tratamento  analítico-crítico.  Quanto  a  Machado  de  Assis Tradutor, mesmo fazendo referência a alguns tipos de omissões feitas por Machado e questionando-se acerca das possíveis razões que levaram a tais omissões, Massa não  mostra  em  profundidade  o  teor  dessas alterações no  texto  machadiano, tampouco  suas consequências.  Pensamos  que  é  importante  desenvolver  uma análise  mais profunda  da  tradução  machadiana,  e,  portanto,  é  de  extrema necessidade considerar a reestruturação feita por Machado na parte da narrativa por ele traduzida. Convém, no entanto, dar o devido crédito a Massa pela descoberta do que foi o texto-fonte para Machado de Assis traduzir o romance dickensiano. Há, de fato,  evidências linguísticas no  texto  machadiano  que  testemunham  em  favor  do  argumento  de  Massa.  Apresentamos  aqui  um  exemplo  dentre  vários.  Trata-se  do  parágrafo inicial do romance, já citado anteriormente.  

Na  edição  inglesa  de  três volumes (cujo  texto  parece  ter  sido  base  para Gérardin): 

Among other public buildings in a certain town which for many reasons it will  be  prudent  to  refrain  from  mentioning,  and  to  which  I  will  assign  no fictitious  name,  it  boasts  of  one  which  is  common  to  most  towns,  great  or small,  to  wit,  a  workhouse;  and  in  this  workhouse  was  born,  on  a  day and date which I need not take upon myself to repeat, inasmuch as it can be of no  possible  consequence  to  the  reader,  in  this  stage  of  the  business  at  all events,  the  item of  mortality  whose  name  is  prefixed  to  the  head  of  this chapter. (DICKENS, 1839, p. 1, grifo meu) 

Na tradução de Gérardin: 

Parmi les divers monuments publics qui font l’orgueil d’une ville dont, par prudence,  je  tairai  le  nom,  et  à  lequelle  je  ne  veux  pas donner un  nom imaginaire,  il  en  est  un  commun  à  la  plupart  des villes grandes ou  petites: c’est le dépôt de mendicité. Un jour, dont il n’est pas nécessaire de preciser la date, l’autant plus qu’elle n’est d’aucune importance pour le lecteur, naquit dans ce dépôt de mendicité le petit mortel dont on a vu le nom en tête de ce chapitre. (DICKENS, 1867, p. 1, grifo meu)

Na tradução de Machado: 

Dentre  os vários monumentos públicos que  enobrecem uma  cidade  de Inglaterra,  cujo  nome  tenho  a  prudência  de  não  dizer,  e  à  qual  não  quero  dar um nome  imaginário,  um existe  comum à  maior parte  das cidades  grandes ou pequenas: é o asilo da mencididade.
  em certo  dia,  cuja  data  não  é  necessário  indicar,  tanto  mais que  nenhuma  importância  tem,  nasceu  o  pequeno  mortal  que  dá  nome  a  este  livro. (DICKENS, 2002, p. 22, grifo meu)

Como  mostram  os trechos grifados,  é  inegável  a  proximidade  entre  essa  tradução francesa e a machadiana, o que nos permitiria dizer que, quando Machado  traduz um segmento do texto de Gérardin (considere-se que há casos em que ele o  omite  ou  altera),  o  faz de  forma  quase  literal.  Daí,  até  onde  entendemos,  Massa  dizer  que  a  correspondência  entre  o  texto  de  Gérardin  e  o  de  Machado  é  total,  completa e absoluta (MASSA, 1965, p. 530). De fato, as escolhas lexicais feitas por  Machado  nesse  trecho,  a  exemplo  de  “asilo  da  mendicidade”  e  “pequeno  mortal”,  para  citar  apenas duas,  não  poderiam  ter  resultado  da  tradução  direta  de  “workhouse”  e  “item  of  mortality”,  mas de  “dépôt  de  mendicité”  e  “petit  mortel”;  do contrário,  seria  por  demais coincidência  o  trecho  machadiano  assemelhar-se ao  de  Gérardin  sem  que  aquele  não  tivesse  sido  elaborado  a  partir  deste.  O  fato  de  os  trechos que são mantidos na tradução machadiana se apresentarem de forma muito  próxima  aos da  tradução  francesa  poderia,  igualmente,  reforçar  a  hipótese  de  as  omissões e  alterações existentes fazerem  parte  de  um  processo  de  seleção  consciente  da  parte  de  Machado.  Como  se  verá  mais adiante,  as interferências feitas por Machado são pontuais e não parecem feitas ao acaso. Antes de tratarmos  delas, adentremos no mundo apresentado pelo romance Oliver Twist        

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Fonte:
Franciano Camelo: “MACHADO DE ASSIS E A (RE)ESCRITA DE   OLIVER TWIST”. (Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado do Programa de   Pós-Graduação em Letras, Área de Concentração Estudos Literários,   da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM, RS),   como requisito parcial para obtenção do grau de   Mestre em Letras Orientadora: Profª Drª Maria Eulália Ramicelli). Santa Maria, 2013.

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