28/11/13

Numa e a Ninfa, de Lima Barreto

 Numa e Ninfa de Lima Barreto
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Numa e a Ninfa: Dilemas e impasses da Formação da Sociedade Republicana”


A colaboração de Afonso Henriques de Lima Barreto (1881-1922) no jornal de estudantes universitários da Escola Politécnica em 1897, intitulado Lanterna, assinalou o início de uma produção jornalística e literária que retratou, durante duas décadas, os dilemas e impasses da formação da sociedade brasileira. Entre a produção romanesca de Lima Barreto, Numa e a Ninfa – publicada em folhetins entre 15 de março e 26 de julho de 1915 pelo jornal carioca A Noite – é a obra menos comentada e citada pelos estudiosos. Charge dos costumes políticos da Primeira República (BRAYNER, 1979), Numa e a Ninfa manifesta a ambigüidade que perpassa as esferas pública e privada no Brasil, tema esse que se encontra nos escritos de Nestor Duarte (1939), Sérgio Buarque de Holanda (1993) e Oliveira Vianna (1987), entre outros. A narrativa de Numa e a Ninfa tem por cenário o tumultuário ano eleitoral de 1910, o qual assinalou o retorno do Exército à esfera da política nacional (FAUSTO, 1985). O protagonista, Numa Pompílio de Castro, possui a ambição de ascender socialmente agarrado a um título de doutor, utilizando a sua condição de bacharel em Direito para alcançar “prestígio pessoal”.

Não que houvesse nele um alto amor ao saber, uma alta estima às matérias que estudava e das quais fazia exame. Odiava-as até. Todas aquelas complicações de direitos e outras disciplinas pareciam-lhes vazias de sentido, sem substância, puras aparências e mesmo sem grande utilidade e significação, a não ser constituírem barreiras e obstáculos, destinados à seleção dos homens.

O jovem Numa não separava o conceito das disciplinas do da formatura; Economia Política, Direito Romano, Finanças e Medicina Legal não respondiam a certas necessidades da comunhão humana; e, se tais matérias foram criadas, descobertas ou inventadas, o foram tão somente para fabricar bacharéis em Direito. Com as outras carreiras acontecia o mesmo. (BARRETO, 1950, p.16).

Logo após a formatura o protagonista retorna à sua terra natal, onde não consegue nenhuma colocação. Entretanto, por intermédio do “favor” de uma alta autoridade da República, Numa Pompílio de Castro assume o posto de “promotor de uma comarca de Estado longínquo”, demonstrando o espírito arrivista que norteia as suas ações, uma vez que o protagonista não poupa esforços e artimanhas para realizar a sua escalada social. Assim, a ascensão social patrocinada pelo casamento também é um meio utilizado por Numa Pompílio de Castro de forma pragmática.

De indústria, o juiz se mantivera até então solteiro. Esperava, com rara segurança de coração, que o casamento lhe desse o definitivo empurrão na vida. Aproveitara sempre o seu estado civil para encarreirar-se. A presença da menina Cogominho fê-lo pensar mais alto e relembrar as suas desmedidas ambições casamenteiras. Não que ele fosse belo e galanteador, mas, perfeitamente sabia que essas coisas não são indispensáveis para um bom casamento, desde que o noivo não viesse a fazer má figura no eirado dos diplomatas e outras pessoas exigentes da representação interna e externa do Brasil.

Com toda firmeza, com aquela firmeza que empregou para formar-se, Numa tratou de casar-se com a filha de Cogominho e não viu diante dele obstáculo algum, como aquele não vira quando tratou de casar-se com a filha do capitalista Gomes. (BARRETO, 1950, p.19).

Em verdade, Lima Barreto evidenciou, com a crítica romanesca da ascensão social pelo casamento, um tema que seria retomado pelas interpretações clássicas sobre as relações estabelecidas entre Estado e sociedade no Brasil, as quais analisam tanto a formação das instituições políticas quanto as formas de vida social legadas pelas gerações da colônia e do Império. Em Raízes do Brasil (1936), Sérgio Buarque de Holanda elege o exame do “personalismo ibérico” como uma forma de identificar na formação social brasileira a presença de uma  “solidariedade” diversa daquela gerada pelo “individualismo burguês” (HOLANDA, 1993). A “solidariedade” vinculada ao “individualismo burguês” se ancora, essencialmente, na legitimidade racional-legal norteada pela regra jurídica. Assim, o tipo puro de dominação legítima  racional-legal  despersonaliza  o   poder,   uma   vez   que   a administração burocrática do Estado Moderno se orienta necessariamente por objetivos impessoais, sendo as funções públicas instituídas por regras racionais e estritamente formais. Por outro lado, a aplicação daquelas regras exige uma “equipe de funcionários qualificados”, os quais não são “detentores” dos seus cargos e dos meios de administração, sendo protegidos por um “estatuto” no exercício de suas funções públicas (WEBER, 1967).


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Fonte:
Carlos Henrique Gileno: “Numa e a Ninfa: “Dilemas e impasses da Formação da Sociedade Republicana”. Perspectivas, São Paulo, 26: 125-136, 2003. UNESP

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