20/11/13

Crônicas Completas de Machado de Assis

 Crônicas Completas de machado de Assis
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Uma crônica aguda


O folhetinista é a fusão admirável do útil e do fútil, o parto curioso e singular do sério, consorciado com o frívolo. Estes dois elementos arredados como pólos  heterogêneos como água e fogo casam-se perfeitamente na organização do novo animal.
[...]
Em geral o folhetinista aqui é todo parisiense; torce-se por um estilo estranho, e esquece-se, nas suas divagações sobre o boulevard e café Tortoni, de que está sobre um mac-adam lamacento e com uma grossa tenda lírica no meio do deserto.
[...]
Força é dizê-lo: a cor nacional, em raríssimas exceções, tem tomado o folhetinista  entre nós. Escrever folhetim e ficar brasileiro é na verdade difícil. (Obra completa, vol.III, p. 958)

A opinião é de um jovem de vinte anos no seu segundo emprego. Compreende-se. Não faz ainda um ano que começou a escrever nos jornais de sua cidade provinciana e já proclama verdades. Algumas idéias são boas, outras nem tanto, mas talvez o maior problema seja o tom entusiasmado com que investe contra os  folhetins, um modismo que começara havia vinte ou trinta anos e que viria para ficar. O jovem articulista ainda não sabe (está nas primeiras edições), mas suas teses serão cabalmente derrubadas por outro folhetinista mais experiente e menos apaixonado, que  escreverá por décadas nos folhetins da mesma cidade. A réplica não será assim ostensiva, pois o velho folhetinista, ao contrário do jovem, tem horror a polêmicas. O velho – aliás, aposentado do serviço público, para desespero do jovem que vociferou contra essa classe no seu último artigo – demolirá as idéias do moço não com argumentos, embora ele sempre os tenha, mas demonstrando com seus textos que, nas  crônicas, não faltam a cor nacional e que elas podem ser muito úteis e pouco fúteis. O velho, assim como o jovem, chama-se Machado de Assis e se, segundo dizem, o menino é o pai do homem, nesse caso as semelhanças não são tão evidentes, embora um olhar mais atento possa denunciar a preferência de ambos pela ambigüidade e pela ambivalência das coisas.

Em  A vida ao rés-do-chão, Antonio CANDIDO sugere que talvez a crônica seja mesmo um gênero menor, para concluir: Graças a Deus se for mesmo assim, pois com isso a literatura se torna mais próxima da gente, perde aquele ar sério e ganha um  jeito de coisa brasileira, bem familiar. E a graça seria a habilidade desse gênero em  pegar a “pobre ocorrência do nada”, como diria o folhetinista do parágrafo anterior, e  mostrar a grandeza e, quem sabe, o lirismo aí existente. Constituída de anedotas, de críticas de costumes, geralmente bem-humorada e muitíssimo leve, a crônica não tem a  pretensão de durar mais do que a folha de jornal em que foi impressa e que, como lembra CANDIDO, no dia seguinte já estará forrando o chão da cozinha. A crônica não foi feita para durar, mas, apesar disso, muitas têm conseguido sobreviver muito bem à  passagem dos anos. É que, por trás do jeito de conversa fiada que todas têm, na  intimidade e no tom corriqueiro da conversa do cronista com seu leitor se esconde muita coisa séria, singular, que subverte a vocação inicial da crônica para o passatempo e para a diversão passageira e faz que ela acabe ganhando uma vida bem mais longa, sem que a idade a faça perder seu viço e seu jeito alegre e debochado. 

Claro que nem sempre foi assim. A crônica nasceu com a história e era coisa muita séria; afinal, o “cronista oficial” (cargo reservado apenas aos mais letrados) devia registrar em ata toda a história de um rei, de um reino, de um povo, além de fazê-lo de  forma que a posteridade tivesse a melhor imagem dos dias e das pessoas que a antecederam. Mas o tempo passou e mudou também a crônica, que abandonou a torre ou o livro oficial e foi morar no jornal. Perdeu títulos, é verdade, mas ganhou manchetes e  aos poucos foi, literalmente, conquistando mais espaço no dia-a-dia e nos diários. Se, ao abandonar sua vocação inicial de ata do tempo, ela perdera um pouco da longevidade, agora, em sua versão mais caseira, ganha novo fôlego e vence os anos, não mais com aquela cara sisuda de coisa oficial (que freqüentemente se torna sua primeira vítima), mas com um jeito brejeiro e muito brasileiro; afinal, foi aqui que ela encontrou seu novo lar, abrasileirando-se, na melhor acepção do termo, e tornando-se praticamente  um gênero literário. Sem esquecer o hoje e o ontem, a crônica passou a querer também perscrutar o futuro, ao procurar, nos fatos comezinhos que comenta, o germe dos dias que virão.

Lembrar e escrever. Conforme ensina ARRIGUCCI, a crônica é fusão e produto desses dois atos. O cronista, em sua origem, era o guardião da história do povo,  dos momentos que mereciam ser registrados para a posteridade. Cedendo o lugar para o historiador, ele passou a se ocupar do rés-do-chão da história e do jornal. Não são mais  os feitos dos heróis, as guerras e conquistas de um povo que interessam, mas a nova peça de teatro, a facada anônima, a chegada dos bondes e mesmo a Proclamação da  República. O cronista continuou a ser o narrador por excelência, mas tornou-se o contador de casos, aquele que transforma a história do indivíduo ou da coletividade em ficção e com isso confere-lhes uma universalidade e uma perenidade que não tinham em  seu estágio inicial. Talvez seja o caso de dizer que o cronista foi promovido de  historiador a contador de histórias (ou estórias, como prefere o Guimarães), pois agora as fábulas do cotidiano é que são colocadas em ata, registradas e resgatadas do turbilhão do tempo para adquirirem diversos, múltiplos significados, desde que a crônica consiga  superar seu consorte e adversário: o tempo. Ele, que de tão presente na crônica chega a fazer parte do seu nome, parece querer castigá-la por tê-lo aprisionado, fazendo-a voltar a ser efêmera. Talvez isso explique por que a relação da crônica com o fato que lhe serve de referência seja tão ambígua, como bem assinalou ARRIGUCCI. É que, ao mesmo tempo que a crônica anseia pelo banal, pelo pequeno, ela deve saber superá-lo e, nas palavras de Manuel Bandeira, outro grande cronista, procurar extrair toda a poesia que  existe em um par de chinelos ou no beco e, com essas coisas tão passageiras, vencer o tempo, seu confidente e opositor. 

De fato é uma situação incômoda a do cronista: de um lado, deve se ocupar do frívolo, para usar os termos do jovem cronista, mas, de outro, deve também alcançar o sério; de forma que o seu tema nunca, pelo menos no caso dos grandes cronistas, será aquilo que parece ser. E aí começa-se a perceber que essa dicotomia entre essência e aparência talvez esteja mesmo no cerne desse gênero, chegando a ser o que o mantém  vivo. Nesse processo há um novo distanciamento da história e um retorno ao lar, pois, ao vencer o tempo, a crônica também deixa o jornal e retorna ao livro. Torna-se  literatura, sem que isso signifique perder o jeito leve. Machado compreendia bem o dilema e fez dele muita vez o tema das suas crônicas: com um olho no jornal e outro muito além dele, o bruxo contador de histórias sabia como poucos fazer a banalidade  tornar-se “rara e preciosa” para com isso ir além da “pobre ocorrência do nada” e mostrar ao homem a história, como nenhum historiador poderia fazê-lo. Conforme se verá, a sua relação com o fato banal do cotidiano é difícil: ela está lá para quem quiser ver, mas o olhar mais atento perceberá algo de perturbador nessa relação; verá que o fato referido, não importando se é a Revolta da Armada, um anúncio de jornal ou a  morte de odaliscas turcas, é apenas um pretexto para a discussão de outros temas que não estão sujeitos ao aqui e ao agora do cronista. Nesse ponto há quase uma volta às origens, não porque a crônica de Machado se torne história como suas ancestrais ou porque registre a anedota dos seus dias, mas porque ela se impregna do seu próprio tempo, que passa a fazer parte de sua carne: a materialidade do texto, mais do que seu referente, exibe as marcas do tempo. Como bem percebeu ARRIGUCCI, a crônica   [...] ganha ainda, dentro da obra machadiana, outra significação. Como os romances, a que elas se ligam por vários lados, e provavelmente também como os contos, fazem  parte de um projeto literário e histórico mais vasto e coerente, que Machado teria concebido, levado pela intenção realista de retratar a natureza e o desenvolvimento da sociedade em que vivia. São, portanto, um elo valioso nas relações entre história e ficçãono universo machadiano.  (Boletim Bibliográfico da Biblioteca Mário de Andrade, vol. 46 no1/4 de 01.12.85, p. 49)

O que se pretende mostrar nas páginas seguintes é que as crônicas de fato fazem parte de um projeto que visava a fundir literatura e história em uma obra única que tivesse como contrapartida a fusão entre ficção e realidade. Nas palavras de ARRIGUCCI, essas crônicas são um elo valioso das relações entre ficção e história e, como tal, não visavam à identificação de uma ou de outra parte que unia, mas à compreensão dos fatos que permitiam a transmutação de ambas. Para Machado, seria de pouca importância saber se o mote de sua narrativa tinha acontecido ou não, da mesma  forma que, para Bentinho, a verdade era secundária ou talvez um mito. Tanto faz se a crônica tem por referente uma República conturbada e o conto, uma outra sereníssima; o fato é que ambos encerram não só o seu tempo e espaço, mas também o porvir. Literatura e história ficam assim entrelaçadas e a crônica, ora se enquadrando em uma  categoria, ora em outra, seria o campo ideal para estudar as relações entre ambas. O tema, aliás, já ocupava a atenção de Machado muito antes do início da publicação de A Semana. Veja-se por exemplo, a crônica de 15.03.18776, em que Machado já discutia as relações entre os dois tipos de crônica, a histórica e a jornalística, e os tênues limites entre ficção e realidade. Para embaralhar tudo, é claro:

Mais dia menos dia, demito-me deste lugar. Um historiador de quinzena, que passa  os dias no fundo de um gabinete escuro e solitário, que não vai às touradas, às câmaras, à Rua do Ouvidor, um historiador assim é um puro contador de histórias.
E repare o leitor como a língua brasileira portuguesa é engenhosa. Um contador de  histórias é justamente o contrário de historiador, não sendo um historiador, afinal de contas, mais que um contador de histórias? Por que essa diferença? Simples, leitor, nada mais simples. O historiador foi inventado por ti, homem culto, letrado, humanista; o contador de histórias foi inventado pelo povo, que nunca leu Tito Lívio, e entende que contar o que se passou é só fantasiar. 
O certo é que se eu quiser dar uma descrição verídica da tourada de domingo  passado, não poderei, porque não a vi.  (Obra completa, vol. III, p. 361-362)

Como se vê, Machado conhecia bem o dilema de ter que optar entre ser historiador e contador de histórias. Entretanto, a dificuldade é apenas aparente, uma vez que, na verdade, ele nunca distinguiu os dois ofícios ou gêneros literários, pois como observou FACIOLI, a prática do ficcionista não difere da do cronista. Entretanto, deve-se ressaltar que a semelhança não é só de estilo, mas de perspectiva, pois o tratamento  dispensado pelo cronista aos fatos da realidade pouco difere da forma como Bentinho, por exemplo, aborda o material de sua narrativa. Ao que parece, os dois seguem as diretrizes propostas pelo crítico literário. No seu célebre artigo    Notícia da atual  literatura brasileira – instinto de nacionalidade, publicado na revista Mundo Novo, de  24.03.1873, Machado enfoca as relações entre nacionalismo e literatura, discordando daqueles que consideravam o primeiro como critério de julgamento da segunda e mostrando que a relação entre a obra literária e a realidade não é tão simples quanto pode parecer. Inicialmente, o autor mostra que, de maneira geral, a crítica havia se enganado em relação ao arcadismo e, muitas vezes, confundira o nacional com o pitoresco:

[...] Há nela (na opinião) um instinto que leva a aplaudir principalmente as obras que trazem os toques nacionais. A juventude literária, sobretudo, faz deste ponto uma questão de legítimo amor-próprio. Nem toda ela terá meditado os poemas de Uraguai e Caramuru com aquela atenção que tais obras estão pedindo; mas os nomes de Basílio da  Gama e Durão são citados e amados como precursores da poesia brasileira. A razão é  que eles buscaram em roda de si os elementos de uma poesia nova, e deram os primeiros traços de nossa fisionomia literária, enquanto que outros, Gonzaga por exemplo, respirando aliás ares da pátria, não souberam desligar-se das faixas da Arcádia nem dos  preceitos do tempo. Admira-se-lhes o talento mas não se lhes perdoa o cajado e a  pastora, e nisto há mais erro que acerto.
[...] Não me parece, todavia, justa a censura aos nossos poetas coloniais, iscados  daquele mal; nem igualmente justa a de não haverem trabalhado para a independência  literária, quando a independência política jazia ainda no ventre do futuro, e mais que  tudo quando entre a metrópole e a colônia criara a história a homogeneidade das tradições, dos costumes e da educação. As mesmas obras de Basílio da Gama e Durão quiseram antes ostentar certa cor local do que tornar independente a literatura brasileira, literatura que não existe ainda, que mal poderá ir alvorecendo agora. (Obra completa, vol. III, p. 801-802)


Embora o trecho acima fale por si, deve-se ressaltar o fato de ele evidenciar que Machado estava ciente da inexistência, ainda, de uma literatura nacional e que  buscava por algo que fosse além da representação da cor local.  

Segundo o autor, as idéias por ele criticadas, se levadas às últimas conseqüências, excluiriam da literatura nacional a quase totalidade da obra de autores como Gonçalves Dias, uma vez que  grande parte dela trata de questões que dizem respeito a toda a humanidade ou mesmo a  Portugal, como no caso das Sextilhas de Frei Antão. De igual forma, o teatro do grande  poeta romântico deveria ser excluído da literatura brasileira por não ser ambientado no Brasil, e boa parte da obra de Shakespeare deixaria de pertencer à literatura inglesa, uma  vez que Hamlet, Otelo e Júlio César, entre outros, nada têm que ver com a história daquele povo. Em seguida Machado defende sua posição, a qual se reflete em toda a sua  obra e, particularmente, nas crônicas:

Não há dúvida que uma literatura, sobretudo uma literatura nascente, deve  principalmente alimentar-se dos assuntos que lhe oferece a sua região; mas não estabeleçamos doutrinas tão absolutas que a empobreçam. O que se deve exigir do escritor, antes de tudo, é certo sentimento íntimo, que o torne homem do seu tempo e do  seu país, ainda quanto trate de assuntos remotos no tempo e no espaço. Um notável  crítico da França, analisando um escritor escocês, Masson, com muito acerto dizia que  do mesmo modo que se podia ser bretão sem falar sempre de tojo, assim Masson era bem escocês, sem dizer palavra do cardo, e explicava o dito acrescentando que havia nele um scotticismo interior, diverso e melhor do que se fora apenas superficial. (IDEM, p. 804)

Transpostas para a crônica, essas idéias sugerem que o cronista deveria se  ocupar das manchetes dos jornais, embora, talvez, não devesse ser muito ortodoxo em seu ofício, que devia buscar aquele sentimento íntimo que sustenta tais notícias e que, mais do que elas próprias, revelam seu tempo e seu espaço. Para conseguir isso, talvez  fosse o caso de ir buscar assuntos remotos no tempo e no espaço ou então, melhor ainda, fazer da crônica o seu assunto. Ela continuaria cuidando da notícia do jornal, mas acabaria por fazer que esta parecesse estar lá no jornal só esperando pela pena do cronista. É que as crônicas de A Semana, sempre ancoradas nas manchetes dos jornais, buscam conhecer o fôlego que as anima. Para tentar decifrar o projeto a que se referia ARRIGUCCI e entender como Machado o executava, será apresentado um breve panorama dos dias que compõem A Semana e que mostram, em contraponto ao que se afirmou no item anterior, a sintonia desses textos com seus dias. Na seqüência, serão indicadas algumas características que as crônicas têm em comum com os romances da  fase madura de Machado e que mostram que os elos com a ficção eram tão grandes quanto os que mantinham com a realidade. Em conjunto, os dois itens seguintes pretendem mostrar que, para Machado, não haveria a linha divisória entre ficção e realidade, e que tanto em uma quanto em outra haveria não só estratégias comuns, mas  objetivos também próximos. 


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Fonte:
Dilson Ferreira da Cruz: “Estratégias e máscaras de um fingidor  a crônica de Machado de Assis”. Orientador: IzidoroBlikstein. Universidade de São Paulo. São Paulo, 2000.

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