07/11/13

Casa Velha, de Machado de Assis

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A posição social do narrador

Lúcia  Miguel-Pereira  afirma, como já  foi  dito anteriormente, que  a  trama  teria  sido escrita entre HelenaIaiá Garcia, sendo, portanto, uma novela fraca, com temas dos  primeiros  romances:  amor versus  sociedade  ou satisfação pessoal  versus  ascensão  social. A  autora  afirma  que  a  peça  é  romântica  e  sentimental  e, ali,  encontram-se  criaturas  “puras  e  virtuosas”  (MIGUEL-PEREIRA, 1952, p. 16). Ainda  que  apontasse  os  primeiros  romances  de  Machado de  Assis, incluindo Casa Velha, como narrativas  autobiográficas, Lúcia  Miguel-Pereira  é contundente em afirmar que as peças não têm  importância por seu “aspecto documental”, mas sim por serem narrativas que debatem  “o problema da hierarquia social” (MIGUEL-PEREIRA, 1952, p. 20). Por isso, em seu prefácio, lemos  que  Casa Velha  tem  algumas  anotações  bem  machadianas”, e  que  o padre  foi  desenhado com  uma  “sábia  arte  de  gradações  e  nuanças”  (MIGUEL-PEREIRA, 1952, p. 21). A  autora  ressalta  que,  pelo fato de  não saber  se  o padre  completou as palavras de Dona Antonia (que Lalau e Félix seriam irmãos) por ciúme da  menina  ou por  boa-vontade  para  ajudar  o casal, essa  passagem  seria  um  recurso do  “bom Machado” (MIGUEL-PEREIRA, 1952, p. 24), ou seja, o romancista teria deixado em suspenso o veredito, por oferecer indícios da prosa madura. Assim, ela aponta que o padre teria agido, provavelmente, de modo inconsciente por ciúmes, embora fosse uma  boa pessoa.

Como também  já  foi  apontado, no primeiro capítulo, John Gledson segue  uma  vertente  histórica  e  preocupa-se  com  o resultado  dos  “objetos  realistas”  (GLEDSON, 2003, p. 23) do romancista, e analisa Casa Velha como uma alegoria política do Ancien  Régime. Quanto ao padre, o crítico ressalta, como Miguel-Pereira, que  ele  teve  uma  atitude não muito clara em relação ao namoro de Lalau e Félix. No entanto, ao contrário  da crítica e biógrafa, Gledson afirma que o padre não agiu inconscientemente, mas sim  de má fé: “Com frequência, suas emoções, pensamentos, e ações não são exatamente o  que  parecem”  (GLEDSON, 2003, p.  42).  É  importante  lembrar  que  Gledson parte  do princípio que  Machado  constrói  em  sua  obra  um  “realismo enganoso”, ou seja, é  necessário ler nas entrelinhas para compreender o que a obra quer representar. Por isso,  o autor  assegura:  “Quanto mais  se  investiga  o caráter  do narrador, mais  tenebrosas  se  tornam as sombras, e igualmente percebemos a existência de mais coisas em jogo nesta  história do que parece a primeira vista” (GLEDSON, 2003, p. 46). Portanto, para ele, o  cônego seria  manipulador  e  representaria  uma  ideologia  conservadora, pois  é  membro  da  igreja  e  ocupa  o  cargo de  cônego  na  Capela  Imperial.  Ainda,  para  Gledson Casa Velha  seria  um  esboço de  Dom  Casmurro, e  o  crítico aproxima  o sacerdote  de  um  personagem  do grande  romance, José  Dias. Para  aproximar  os  dois  personagens, ele  afirma que o padre seria a parte masculina do mantenedor da ordem na casa, ao lado de  Dona  Antonia  (GLEDSON, 2003, p. 61). A  partir  disso, ele  estabelece  uma  relação  ubíqua  entre  o São José  e  o padre, pois  este  ocuparia  a  função  daquele  na  hierarquia  familiar, daí, aproxima  o padre  do agregado José  Dias, esse  sim, homônimo do santo. Essa  hipótese, no entanto, nos  parece  insuficiente, pois  as  semelhanças  dos  nomes  escondem diferenças de personalidade e de representação social evidentes: o padre não é  um  agregado dependente  da  família  proprietária, caso flagrante  no personagem  de  Dom  Casmurro. A  contradição dos  argumentos  de  Gledson aparece  em  seu próprio  texto quando, para assegurar que Casa Velha estaria em uma segunda fase machadiana,  ele  sustenta  a  tese  de  que  o padre-narrador  se  comporta  como um  membro da  classe  proprietária:  “Machado descobriu que, para  escrever  sobre  o  universo  da  oligarquia,  tinha  de  penetrar  nele, de  ser  um  ‘colaborador’, como o próprio padre”  (GLEDSON, 2003, p. 67). Os  dois  personagens  pertencem, então, a  mundos  diferentes  nos  quais  o  padre é amparado por uma instituição e não depende de favores pessoais; já José Dias,  embora estivesse encostado na família Santiago, depende de obséquios para sobreviver.

Pode-se dizer que o estudo de Lúcia Miguel-Pereira aponta questões importantes  sobre  o padre  como o fato de  ele  agir  de  maneira  inconsciente, não apenas  como um tipo, mas como um personagem profundo, um caractér.  Porém, a leitura da autora não  intenciona chegar à totalidade da obra. No caso de John Gledson, o seu estudo se afasta  de  uma  procura  pela  forma  (ainda  que  esse  fosse  o intento dele)  e  encontra  mais  um  paralelismo ilustrativo, ou como afirma  Roberto Schwarz  sobre  o crítico, há  nele  “a  tentação de  deixar  a  análise  formal  pela  caçada  às  alusões  históricas, ou, de  outro  ângulo, o risco de preferir as intenções do Autor ao resultado efetivamente artístico, isto  é, transfigurado pela  organização ficcional”  (SCHWARZ, 1991, p. 73). De  modo  diferente dos estudos apontados aqui, nosso interesse é analisar a forma de Casa Velha e  o seu entrelaçamento com  a  sociedade  do século  XIX, a  começar  pelo ponto de  vista  que a história é contada. 

Para  compreender  o desenvolvimento do cônego na  peça, é  preciso que  o vejamos  como um  ser  social, isto é, observar  que,  por  meio de  sua  narração,  vai  transparecer  o seu modo de  pensar  e  de  agir. O  estudo no seminário era  socialmente  bem  visto, a  educação era  vasta  e  a  disciplina  era  rígida. Ali  estudaram  Gregório de  Matos, Bento Teixeira, Cláudio Manuel  da  Costa,  entre  outros, “grandes  figuras  da  política, das  letras  e  das  ciências  brasileiras”  (FREYRE, 1968, p.77). Muitos  alunos  desse  sistema  de  ensino eram  considerados  precoces, pois  apresentavam  um  amadurecimento tanto no modo de se comportar como no conhecimento adquirido. De  certo modo, nota-se essa afirmação nas palavras do cônego que, no início da trama, diz  ter  sido visto como  um  sábio na  casa, um  grande  conhecedor  de  variados  temas  e  autores:  “Creram-me  naturalmente  sábio, tanto mais  digno de  admiração, quanto que  contava  apenas trinta e  dois anos. A verdade é  que era tão-somente um  homem lido e  curioso” (ASSIS, 2004, p. 18). O estudo em um seminário oferecia uma vasta gama de  conteúdo e cultura, ou seja, uma formação de letrado, “com os conhecimentos de base  para todas as categorias profissionais e ornamentais” (FAORO, 1976, p. 465).

Essa  forma  de  sociabilidade, no entanto, é  bem  mais  complexa, porque  ela  reproduz as estruturas de classe e a divisão de poder econômico, político e ideológico.  Em alguns estudos, como o de Maria Beatriz Nizza da Silva que aborda a época de Dom  João VI, vemos  que  a  igreja  recebia,  em  seus  seminários, apenas  meninos  da  classe  abastada os quais que ali aprimoram seus conhecimentos e inscrevem-se posteriormente  nessa  estrutura  social  referida. Sendo assim, para  garantir  os  meios  de  reprodução de  assimetria social, seria apenas o filho da elite que conseguiria ordenar-se e tornar-se um  membro clerical, porque  “a  igreja  não acolhia  no seu seio indivíduos  destituído de  recursos” (SILVA, s/d, p. 71). Poderíamos inferir, então, que o ponto de vista do cônego de Casa Velha estaria próximo do da classe senhorial. 

Sob o ponto de vista em que a história é contada, o assunto é mais complexo e  não é tão simples assegurar a afirmação anterior, pois a igreja também recebeu, em seus  seminários, meninos  que  não eram  da  classe  proprietária, ou seja, jovens  que, muitas  vezes, eram de classes menos favorecidas (FAORO, 1976, p. 457). Certamente, eles não chegavam  a  uma  posição de  destaque  como os  filhos  da  elite, mas, ainda  assim, uma  parte dos sacerdotes foi formada por moços de origem humilde. Não podemos assegurar  que  o cônego da  trama  é  ou foi  membro da  classe  mais  baixa, pois  não  há  nenhuma  referência a isso. Alguns aspectos de seu comportamento se aproximam de um modo de  agir e de pensar da classe inferior. Sendo assim, quando ele entra pela primeira vez na  casa e descreve-a como uma construção suntuosa diz: “A verdade é que sentia tolhido. Casa, hábitos, pessoas  davam-me  ares  de  outro tempo, exalavam  um  cheiro de  vida   clássica” (ASSIS, 2004, p. 12). Pode-se concluir que, de certo, ele não estava habituado a frequentar ambiente mais sofisticado.

De  qualquer  modo, os  seminaristas  advindos  de  famílias  pobres  conseguiam, através de sua posição na igreja, um certo respeito e prestígio, pois estava, na figura do sacerdote, uma autoridade que orienta as pessoas sobre tudo quanto diz respeito à vida. Em outras palavras, o comportamento de um padre, independente de qual esfera social  ele tivesse vindo, era o de transmitir uma boa conduta moral; porém, os sacerdotes da  classe  inferior  não se  fechavam  a  uma  idéia  de  impedimento de  casamentos  fora  de  classe: 

Moralidade  que  é,  em  regra, o  padrão  social  da  família, pelo  que  zelam, mas sem admitir que a sociedade se feche, abertos à ascensão  social, eles  próprios, muitas  vezes, frutos  da  escalada  de  baixo para  cima. Talvez  aí  esteja  a  raiz  de  sua  consciência  do  renovamento,  contra  uma  ordem  social  rígida, que  se  enrijeceria  em  castas,  se  o  tempero desses recém elevados à casa patriarcal não abrandassem os  exclusivismos. (FAORO, 1976, p. 457).

Vemos  essa  tendência  no cônego-narrador. Para  ele  não seria  um  problema  o  casamento entre integrantes de classes diferentes. Refletindo, então, sobre Lalau e Félix,  o padre diz: “Achava-os tão ajustados um ao outro, que não acabarem ligados parecia-me  uma  violação da  lei  divina”  (ASSIS, 2004, p. 34). A  discussão sobre  a  diferença  social aparece, mas é contornada pela “natureza”. Desse modo, ao conversar com Félix,  o padre diz: “Há grande diferença social entre um e outro, mas a natureza assim como a  sociedade  a  corrige, também  às  vezes  corrige  a  sociedade”  (ASSIS, 2004, p. 50). Em  grande parte, os padres eram representados como aqueles que organizavam a sociedade,  buscavam a construção familiar e eram considerados casamenteiros, como o cônego de  Casa Velha.  

Seguindo essa linha de raciocínio, vemos que os segmentos diferentes da ordem  social misturam-se na vida eclesiástica e modificam a visão ilusoriamente enrijecida das  classes  sociais. Retomando algumas  considerações  feitas  anteriormente, vimos  como Machado constrói  seus  narradores  segundo o princípio da  ironia  e  utiliza  para  isso o recurso  do coro. A  voz  do coro  – reflexiva  por  excelência  –  é  a  do cônego,  é  ele  o personagem  que  reflete  sobre  o acontecido. Tendo  ele, então, um  ponto de  vista  diferente  do  da  classe  senhorial. Não  só não concorda  com  a  situação como também  denuncia as mazelas sofridas pelos jovens por terem de obedecer às vontades arbitrárias  da classe proprietária.

Assim, um dos conflitos da trama é a união do filho de Dona Antonia e Lalau, isto é, o filho  de  família  rica  e  a  jovem  pobre,  e  o cônego tenta  mediar  esse  embate. Como sacerdote,  ele  não vê  maiores  problemas  no casamento e  tenta  convencer  a  matriarca  de  que  a  união  é  uma  boa  opção, porque  a  menina  tinha  qualidades  de  uma  moça bem nascida. No entanto, o cônego encontra-se em uma posição desconfortável, pois  sua  postura  não é  contrária  à  união,  ele  até  tenta  ajudá-los, contudo a  viúva  não aceita. Em uma passagem, o padre diz à matriarca que seu filho deveria se casar com a  moça, mas Dona Antonia não aceita a sugestão e pede para mudar de assunto. Assim,  lemos: “Não minha senhora, falemos disto mesmo” (ASSIS, 2004, p. 58). O sacerdote  assegura  que  era  a  primeira  vez  que  alguém  a  enfrentara  desde  a  morte  do marido. Ninguém,  até  ali, tinha  discordado  de  alguma  decisão  sua. O  cônego, portanto,  encontra-se bem no núcleo do embate em Casa Velha: de um lado está Dona Antonia, pertencente  à  classe  dominante;  do outro,  Lalau, a  agregada  que  pretende  desposar  o  filho da  viúva. À  primeira  vista, a  trama  aponta  que  o problema  estaria  no casamento entre  pessoas  de  classes  sociais  diferentes, mais, especificamente, a  menina  pobre  em  busca da ascensão social. Contudo, ao lermos a narrativa com mais atenção, vemos que  o problema abordado é outro, porque não se trata apenas de um problema familiar, mas  sim  de  uma  característica  da  sociedade  brasileira  do período. Através  do olhar  do cônego, acerca  das  mulheres  da  peça  – Dona  Antonia  (a  proprietária)  e  Lalau (a  dependente)  – compreenderemos  a  representação da  sociedade  e  o favor  em  Casa  Velha


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Fonte:
Tatiana Camila Nogueira: “A trama e a sua forma:  uma leitura de Casa Velha, de Machado de Assis”. (Dissertação  apresentada  ao  Programa  de  Pós- graduação em  Estudos  Literários  da  Faculdade  de  Letras  da  Universidade  Federal  de  Minas  Gerais,  como requisito parcial à obtenção do título de mestre  em Estudos Literários.  Área de concentração: Literatura Brasileira.  Orientador: Dr. Marcos Rogério    Cordeiro  Fernandes). Belo Horizonte, 2010.

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