12/11/13

As Mulheres de Mantilha, de Joaquim Manuel de Macedo

 Joaquim Manuel de Macedo - As Mulheres de Mantilha - Iba Mendes
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Os livros estão em ordem alfabética: autor/título (coluna à esquerda) e título/autor (coluna à direita).

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ROMANCE HISTÓRICO

 

Na obra As mulheres de mantilha, creio que existam dois personagens relevantes: Maria  de... e Alexandre Cardoso. Hesito na definição a respeito de qual deles assume proeminência no  desenvolvimento do enredo, contudo, inclino-me a pensar que este posto é ocupado pela cortesã.  Afinal,  o  romance  trata  justamente  do  plano  vingativo  desta  personagem,  suas  armações,  manipulações e desfecho. Concentremo-nos, então, na “famosa” cortesã - epíteto constantemente  repetido  por  Macedo.  É  tarefa  árdua  comprovar  sua  existência  extraliterária,  pois  o  escritor  sequer  a  denomina  integralmente,  contentando-se  em  informar  seu  prenome  e  completando-o com reticências. 


Reticente, deve ser também, a postura a ser adotada aqui. Afinal, confirmar inexistência é  mais  complicado  do  que  provar  existência.  Neste  caso,  basta  encontrar  qualquer  referência  em  algum  texto  ou  documento  confiável.  Entretanto,  para  ratificar  a  inexistência  é  preciso  esgotar  fontes e não encontrar menção. Por ora, é isto que acontece. Nesse sentido, por ora, Maria de...  não existiu, ou apresenta existência duvidosa. No entanto, reafirmo a impossibilidade de esgotar  as fontes.
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O mesmo não ocorre com Alexandre Cardoso de Meneses. O ajudante oficial-de-sala do vice-rei  conde  da  Cunha  é  figura  histórica.  Seu  nome  consta  em  “enciclopédias”  e  “livros  de  história”, como dirá, abaixo, Eco. Vale referência aqui a Memórias históricas do Rio de Janeiro,  de  autoria  do  monsenhor  Pizarro  e  Araújo,  composta  em  nove  volumes,  e  editada  em  1820  e  1822. A menção ao oficial-de-sala é, aqui, diminuta. Consiste apenas de uma nota. No entanto,  é representativa, pois Macedo  declara conhecer a obra em outro livro seu  Memórias  da  rua  do  Ouvidor. (MACEDO, 1952 [1878], p. 20).


Embora breve, esta referência revela-se importantíssima, pois possibilita entrever como o  romance histórico macediano foi construído. Macedo mostra-se leitor atento - eu diria também,  fiel  -  de  Pizarro  e  Araújo.  Comparemos  dois  excertos  de  suas  respectivas  obras,  relativos  às  realizações  do  conde  da  Cunha.  O  primeiro  refere-se  ao  estabelecimento  de  uma  instituição  específica para os leprosos. Araújo fala:


(...) e sendo approvado por ElRei D. Jozé I. o plano dado, fez retirar da communicação da  Cidade  os  Lazarentos  para  a  Casa  da  Quinta  de  S.  Christovão  (em  outro  tempo  dos  Jesuitas) que o Avizo de 31 de Janeiro de 1765 permittiu para habitação de taes enfermos;  e mandando preparar alli um bom Hospital, estabeleseu reditos muito proporcionados ao  sustento  de  seus  habitantes,  e  despezas  necessarias,  no  tributo  de  480  reis,  que  annualmente  pagam  as  propriedades  maiores,  ou  de  sobrado,  e  de  240  reis  as  terreas.  (PIZARRO E ARAÚJO, 1820 [Livro V], pp. 182-183).


Já Macedo, por sua vez, em As mulheres de mantilha, enuncia:   

E  enfim,  retiraram-se  da  comunicação  da  cidade  os  míseros  afetados  de  morféia,  que  foram reunidos na antiga casa dos Jesuítas, em São Cristóvão, mandando-se preparar ali  um  hospital  suficiente,  sendo  em  favor  dêste  caridoso  estabelecimento  lançado  sôbre  a  cidade  um  impôsto  anual  de  480  réis  por  casa  de  sobrado  e  240  réis  por  casa  térrea.  (MACEDO, 1965, p. 56).


Em outro trecho, Araújo discorre sobre o recrutamento de indivíduos para as tropas: 


Observando a pluralidade de individuos solteiros em ambos os sexos, e em todos (sic) as  classes, de que se originava a falta de povo correspondente á estenção da Capitania, e a  fartura de vadios, tanto onerosos ao Estado, como nocivos á Sociedade; procurou o meio  de extinguir, ou ao menos, vedar, o progresso d’esses males, obrigando os jovens, e outros  ainda habeis, a se casar, ou á assentar praça nos Regimentos de Linha (...). (PIZARRO E  ARAÚJO, 1820 [Livro V], p. 183).

Atentemos, agora, para as linhas macedianas:

Assim, pois, no mesmo dia, o bando foi proclamado, e os habitantes da cidade ficaram na inteligência de que o vice-rei, atendendo à desproporção que se notava entre os homens  casados  e  solteiros,  sendo  exageradamente  superior  o  número  dêstes,  e  considerando  a  fartura que havia de vadios onerosos ao Estado e nocivos à sociedade, ordenava que todos  os jovens e quantos estivessem na idade varonil, tratassem de casar-se em breve prazo, e  que aquêles que o não fizessem, assentassem praça nos regimentos de linha. (MACEDO,  1965, p. 191).

Os  excertos  revelam,  como  se  percebe,  extrema  semelhança.  Como  explicar  tamanha  similitude? Ora, o romance é histórico. Logo, é necessário introduzir-lhe extratos históricos. Aí  estão eles. Reproduzidos, aliás, com perceptível exatidão. Pizarro e Araújo (1753 - 1830) viveu o  período que narrava. Este elemento é fundamental, pois a contemporaneidade indica fidelidade e  precisão.  Em  Duvidas  sobre  alguns  pontos  da  historia  patria,  Macedo  evidencia  este  topos  de  veracidade. Assim, o escritor itaboraiense concede voz plena a Pizarro e Araújo. O narrador de  As mulheres de mantilha assume sua parcela historiadora. O romance é histórico pois informa o  leitor tal como um livro de história ou de memórias. 


E como historiador do século 19, Macedo foi também biógrafo. A biografia é modalidade  importante  na  historia  magistra  vitae  praticada  no  período.  Na  verdade  retifico:  não  se  trata  exatamente  de  biografias,  mas  antes  de  “esboços”  ou  “apontamentos”  biográficos.  (ENDERS,  2000/1, p. 3). De qualquer forma, esta modalidade também resguarda um sentido exemplar. “O   exemplo do grande homem deve ser contagioso, fazer surgir novos exemplos ou, ao menos, servir  de guia moral ou cívico.” (ENDERS, 2000/1, p. 8). Desta forma, selecionam-se indivíduos. Suas  realizações são registradas e eternizadas. Passam, agora, a funcionar como orientação. 


Pois  Macedo  foi  biógrafo.  Em  1876,  editou,  em  três  volumes,  o  Anno  biographico  brazileiro. Obra encomendada, ganhou suplemento em  1880. Lembremos, ainda, que Macedo  foi  orador  do  IHGB.  Produziu,  no  total,  20  discursos  cujo  objetivo  era  lembrar  os  feitos  dos  consócios  falecidos.  Muitas  das  biografias  produzidas  aí,  então,  foram  depois  transferidas  para  seu  compêndio  biográfico.  (BOSISIO,  2007,  p.  68).  Menciono  apenas  dois  indivíduos  que,  dignos de serem exaltados, foram biografados por Macedo: conde da Cunha e monsenhor Pizarro  e Araújo. Bosisio ainda examina outros biografados. (BOSISIO, 2007, pp. 68-76).


Mas fomos interrompidos pelo historiador-biógrafo Macedo. Retornemos à conceituação  do  romance  histórico.  Umberto  Eco  sustenta  hipótese  semelhante  à  lukacsiana,  isto  é,  o  personagem  real  não  precisa  destacar-se  no  romance.  Eco  ainda  acrescenta  que  existem  três  maneiras  de  abordar  o  passado  numa  obra  ficcional.  (ECO,  1985,  pp.  62-64).  Na  primeira  alternativa, o passado é mero adereço. Sua função é apenas cenográfica e, desta forma, o escritor  possui  maior  liberdade  de  criação.  A  segunda  opção  é  composta  pelo  denominado  romance  de  capa e espada, no qual o passado e os personagens são extraídos das enciclopédias e dos livros de  história. Ambos são, pois, reais e reconhecíveis. Mais importante, contudo, é que os personagens  criados possuem maior liberdade, ou seja, suas realizações podem ser extemporâneas. Por fim, a  terceira  possibilidade  refere-se  ao  romance  histórico  propriamente  dito,  que  merece,  aqui,  parágrafo próprio.

Neste caso, os personagens não precisam sequer ser reconhecidos - embora ele não afirme  que  possam  ser  inteiramente  inventados.  Para  o  autor  de  O  nome  da  Rosa,  o  elemento  característico  de  um  romance  histórico  é  a  correspondência  entre  o  modo  de  proceder  dos  personagens e o período histórico. Eco exemplifica seu argumento discorrendo sobre a obra Os  noivos, do escritor italiano Manzoni: “O que os personagens fazem serve para fazer compreender  melhor  a  história,  aquilo  que  aconteceu.  Acontecimentos  e  personagens  são  inventados,  entretanto dizem sobre a Itália da época coisas que os livros de história nunca disseram com tanta  clareza.”  (ECO,  1985,  pp.  63-64).  Em  outra  obra,  Eco  sintetiza:  “um  dos  acordos  ficcionais  básicos  de  todo  romance  histórico  é  o  seguinte:  a  história  pode  ter  um  sem-número  de  personagens imaginários, porém o restante deve corresponder mais ou menos ao que aconteceu  naquela época no mundo real.” (ECO, 1994, p. 112). Agora, o mais importante, como se percebe,  não são os personagens, mas os acontecimentos.


Novamente,  então,  Lukács  e  Eco  parecem  concordar  a  respeito  do  aspecto  central  e  caracterizador  do  romance  histórico.  O  elemento  definidor  do  gênero  é  mais  sutil.  Reside  na  tentativa  de  plasmar  um  período  histórico,  levando  em  consideração  as  relações  entre  os  acontecimentos e seus efeitos nos personagens, sejam eles reais ou não. Tal como a emergência do  romance  histórico  é  possibilitado  pela  condição  histórica  em  que  surgiu  (século  19),  seu  fundamento maior situa-se na circunscrição dos personagens ao tempo em que vivem. Em outras  palavras,  a  atuação  dos  personagens  depende  da  situação  histórica  concreta  na  qual  eles  estão  inseridos. 


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Fonte:
Eduardo Wright Cardoso: “A representação histórica a partir da obra  As mulheres de mantilha (1870), ou,  uma aula com o professor Joaquim Manuel de Macedo”. (Orientador: professor Temístocles Américo Corrêa Cezar). Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, 2008.

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