17/11/13

A Luneta Mágica , de Joaquim Manuel de Macedo

 Joaquim Manuel de Macedo - A Luneta Magica - Iba Mendes
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A dupla miopia de Simplício


Publicado  em  1869,  A  luneta  mágica,  de  Joaquim  Manuel  de  Macedo,  apresenta  ao  leitor  um  narrador  em  primeira  pessoa,  Simplício,  cuja  doença,  uma  miopia  rara,  é  a  força  motriz de todos os conflitos da narrativa, pois além de quase não enxergar, Simplício sofre de  outro mal:

Chamo-me  Simplício  e  tenho  condições  naturais  ainda  mais  tristes  do  que  o  meu  nome. Nasci sob a influência de uma estrela maligna, nasci marcado com o selo do infortúnio.  Sou  míope;  pior  do  que  isso,  duplamente  míope,  míope  física  e  moralmente.  Míope física: - a duas polegadas de distância dos olhos não distingo um girassol de  uma violeta. E por isso ando na cidade e não vejo as casas.  Miopia  moral:  -  sou  sempre  escravo  das  ideias  dos  outros  porque  nunca  pude  ajustar duas ideias minhas. E por isso quando vou às galerias da câmara temporária ou do senado, sou consecutiva e decididamente do parecer de todos os oradores que  falam pró e contra a matéria em discussão. Se ao menos eu não tivesse consciência   dessa minha miopia moral!... mas a convicção profunda de infortúnio tão grande é a  única luz que brilha sem nuvens no meu espírito.

O excerto acima compõe as linhas iniciais da Introdução do romance. Assim como A  carteira de meu tio e Memórias do sobrinho de meu tio, esta narrativa não possui um prefácio  em  que  o  autor  apresentaria  sua  recém-lançada  obra  ao  público,  fator  bastante  comum  no   século  XIX.  Estruturado  em  dois  segmentos,  a  primeira  parte  do  romance  é  dedicada,  exclusivamente,  a  uma  Introdução,  seguida  da  Visão  do  Mal  e,  a  segunda  parte,  a  outra  Introdução, seguida da Visão do Bem

Simplício  dá  início  a  sua  narrativa  explicando  aos  leitores  que  havia  vivido  muitos  anos, resignadamente míope, pois, apesar de vários tratamentos médicos, todos resultaram em  fracasso.  Além  disso,  a  convivência  familiar  aparentemente  harmoniosa,  ao  lado  da  tia,  da  prima  e  do  irmão  mais  velho,  responsável  por  sua  herança,  acabara  estimulando  seu  conformismo, pois sempre se sentira incapaz de gerir a própria vida. Ademais, era cercado por  parentes  dedicados  a  fazê-lo  em  seu  lugar.  No  entanto,  um  fato  inesperado  o  faz  desejar  novamente, e com grande avidez, poder enxergar: ele é convocado a compor um júri popular.  É justamente  a consciência de sua miséria, tanto física quanto moral, que lhe impulsiona  em  direção a uma nova tentativa de cura que, desta vez, se dará pela posse de um objeto mágico, a  luneta, conforme veremos adiante. 

A passagem a seguir é bastante ilustrativa, tanto no que se refere à ironia em relação à  descrição  de  sua  família,  quanto  por  apresentar  a  ideia  de  senso  comum  que  ele,  por  se  considerar um míope moral, afirma não possuir:  

No  princípio  do  ano  corrente  de  186...  o  excelente  sistema  de  governo  que  nos  rege,  deu-me  o  sinal  de  minha  regeneração  civil  e  política.  Sem  que  o  mano  Américo,  a  tia  Domingas  e  a  prima  Anica  disso  previamente  soubessem,  fui  incluído  na  lista  dos  jurados  da  minha  freguesia;  quando  chegou-nos  a  notícia  do  fato consumado houve em nossa casa uma espécie de consternação. Até que ponto  chega o amor dos parentes, a influência do sangue da família! Meu irmão, minha tia  e  minha  prima  sobressaltaram-se  ante  ao  perigo  que  eu  corria  por  me  haverem  reconhecido  dotado  de  senso  comum!  Era  certamente  porque  o  mano  Américo  via  que  não  lhe  era  possível  ser  também  jurado  por  si  e  por  mim.  Eu  ia  começar a ficar exposto às ciladas do mundo e dos homens sem consciência. O  juiz de direito que presidia à revisão da lista dos jurados resolvera um problema até  então intrincadíssimo, declarando que eu podia ser jurado, e que, por conseqüência  eu tinha senso comum, condição exigida pela lei. Eu fui alheio a tudo isso: estava  mesmo  convencido  pelo  mano  Américo  e  pela  tia  Domingas  que  até  o  senso  comum  me faltava;  confesso,  porém,  que mudei  de  opinião  com íntima  e mal  disfarçada alegria.

A  ironia  aqui  presente  é  construída  pela  apresentação  dos  componentes  que  comporiam  a  miopia  moral  do  narrador  (sua  suposta  incapacidade  de  discernimento)  e  pela  sugestão  de  que  esta  mesma  condição  era  alimentada  e  manipulada  por  seus  parentes.  Em  outras  palavras,  o  tom  irônico  se  dá  na  medida  em  que,  Simplício,  ao  invés  de  evidenciar  claramente a razão do temor do irmão, da prima e da tia em relação a sua liberdade moral (ao  deixar de ser míope, ele perceberia a relação de exploração a que estava submetido por todos),  prefere  reiterar  aos  leitores,  primeiro,  o  apreço  de  seus  parentes  por  ele.  No  entanto,  sugere,  em seguida, sua suspeita no que se refere às boas intenções da família, narrando, por exemplo,  a  preocupação  do  irmão,  Américo,  uma  vez  que  este  não  poderia  atuar  como  jurado  em  seu  lugar.  Simplício  insinua,  assim,  que  ocupar  o  seu  lugar  e  tomar  posse  de  suas  atividades  (e  bens) era tarefa que Américo realizava com muita desenvoltura:

O meu desgosto foi aumentado com os anos. Meu irmão, que é um santo   homem, me dizia:
-  Consola  –  te,  mano;  tudo  tem  compensação:  a  tua  miopia  é  uma  desgraça;  mas  porque  és  míope  não  vês  como  são  bonitos  os  bordados  da  farda  de  um  ministro  de Estado, e portanto não te exasperas por não poder ostentá-los. 
Convém saber que meu irmão saiu eleito deputado na última designação   constitucional, e mandou fazer a sua libré parlamentar ainda antes de ser   reconhecido  representante  legítimo  do  povo  soberano  que  anda  de  paletó  e  de  jaqueta.  Deste  fato  e  da  sua  observação  concluí  eu  em  minha  simplicidade  que  o  mano  Américo  vive  doido  por  ser  ministro  para  fazer  o  bem  da  pátria.  E  não  só  ele; a prima Anica já sonhou três vezes com a mudança de gabinete, e com   correios e ordenanças à porta de nossa casa. Inocente menina! É um anjo: os   seus sonhos são piedosos como as vigílias da tia Domingas, sua mãe, e   patrióticos,  como  os  cálculos  do  mano  deputado;  ela  diz  com  virginal  franqueza  que  tem  meia  dúzia  de  parentes  pobres  a  arranjar,  quando  o  mano  Américo  for  ministro. 
Meia dúzia só!... Que abnegação e que desinteresse da prima Anica! 
Ela  está  se  tornando  tão  profundamente  religiosa  como  a  tia  Domingas.  Já  fez  um ponto de fé deste suavíssimo princípio: “a caridade deve começar por   casa”.

Desse modo, desde o início da narrativa, o narrador opta por semear, aqui e acolá, seus  pensamentos  e  desconfianças,  em  um  movimento  de  avanço  e  recuo  em  relação  à  realidade  que  ele  parece  apreender,  mas não  tem  condições,  nem  físicas  e  nem  morais,  de  interpretar  totalmente, configurando assim, seu caráter míope, que acentua o tom irônico da narrativa:

Na  primeira  convocação  do  júri  o  meu  nome  foi  o  primeiro  que  saiu  da  urna.  Este  sucesso  deu  que  pensar  e  que falar  em  casa  ...  Eu  não  cabia em mim de contente;  o  mano  Américo  hesitava,  porém  enfim  conveio  que  eu  entrasse  no  exercício do meu direito de cidadão jurado. Creio que meu irmão procedeu   assim pelo respeito que consagra às leis, como me assegurou, embora a prima  Anica me dissesse em particular que o segredo da sua condescendência esteve no receio de pagar multas... por mim.  As senhoras são de ordinário   muito maliciosas; acham graça em sê-lo: Anica tem esse defeito; mas, diga ela o  que  quiser,  eu  penso  que  o  mano  Américo  é  simples  e  puro,  como  Adão  antes de comer o fruto proibido. 

Notemos que o narrador confere à prima Anica a autoria da dúvida gerada não apenas  nele, mas também nos leitores. Do mesmo modo, ao discorrer sobre o sistema judiciário, que o  considera  portador  de  senso  comum  o  suficiente  para  discernir  entre  a  culpabilidade  ou  inocência de um réu, Simplício novamente lança mão desse mesmo recurso, reafirmando sua  crença  absoluta  nas  boas  intenções  da  instituição  pública.  No  entanto,  a aparente  defesa  do  código  constitucional  é  seguida  de  termos  e  sentenças  que,  ao  mesmo  tempo,  colocam  em  dúvida a eficácia e idoneidade do processo como um todo: 

Por conseqüência fiquei convencido de que tinha senso comum. Ninguém faz ideia  do  profundo  contentamento  que  me  deu  esta  convicção.  E  não  era  para  menos.  O  nosso código é necessariamente muito sábio e muito previdente: exige que para  ser  jurado  o  cidadão  brasileiro  tenha  apenas  senso  comum,  se  exigisse  bom  senso haveria desordem geral, porque, segundo tenho ouvido dizer, muitos dos  que  têm  feito  e  dos  que  fazem  leis,  muitos  dos  que  as  deviam  mandar  e  mandam  executar,  e  muitos  dos  que  têm  por  dever  aplicar  as  leis,  não  poderiam  ser  jurados  por falta  de  bom senso!  Dizem-me  isso,  e  asseguram-me  que  o  bom  senso  é senso  raro...  Asseveram-me  ainda  que  se  não  fosse, que, se se  exigisse  a  condição  de  bom  senso  para  o  exercício  daquelas  altas  delegações  e  cargos do Estado, haveria quatro quintas partes do mundo oficial inteiramente fora  da lei.

O senso comum, contraposto ao longo da narrativa ao conceito de bom senso, seria a  capacidade  mínima  de  um  indivíduo  de  discernir  e  julgar  em  conformidade  com  as  regras  sociais  vigentes.  Além  disso,  seria  algo  que  todos  os  cidadãos,  vivendo  segundo  as  normas  gerais  estabelecidas  em  uma  determinada  cidade,  província  ou  pátria,  poderiam  facilmente  distinguir e aplicar. Já o bom senso, segundo o narrador, seria algo superior ao senso comum,  por se tratar de uma capacidade rara de juízo, portanto, de difícil aplicação prática.

Simplício,  embora  ateste  sua  aparente  falta  de  discernimento  (entendido  aqui  como  a  miopia moral da qual é  vítima), chama a atenção dos leitores justamente para a  falta de bom  senso  na  vida  pública,  característica  que  afetaria  a  maioria  dos  representantes  do  povo,  segundo  ele.  Lembremos que a narrativa A carteira do meu tio  é interrompida justamente na  cena  de  um  júri  popular  observado  pelo  sobrinho-narrador  junto  ao  Compadre  Paciência.  Voltemos a uma cena daquela obra:  

O promotor sorrindo-se maliciosamente e com graça própria de um jovem doutor de  esperanças,  fitava  de  vez  em  quando  a  sua  luneta  sobre  algum  dos  jurados  e  divertia-se depois desenhando com o lápis a casaca de abas de tesoura de um, e as  calças  de  longas  presilhas  de  outro,  entremeando  os  desenhos  com  versinhos  epigramáticos  à  estúpida  instituição  do  júri.  O  advogado  contentava-se  com  fazer  notas aos dois procuradores o quanto aquela sala se mostrava própria para um baile,  e   como  estava  mal  empregada  destinado-se  ao  júri,  que  é  uma  instituição  contrária ao bom senso, ao espírito público, e à boa administração da justiça. O  escrivão  resmungava,  maldizendo  os  ossos  do  ofício,  e  praguejando  contra  essa  patacoada  chamada  júri.Os  jurados  queixavam-se  uns  aos  outros  da  maçada  que  sofriam,  e  estavam  pelos  cabelos.  Era  uma  revolta  geral,  embora  abafada,  contra  a  fatal  constituição.  No  fim  de  uma  longa  hora  foram  sorteados  novos  jurados e o juiz de direito declarou que adiava a sessão para o dia seguinte, por falta  de número. Ninguém foi multado porque, entre os que tinham faltado, contavam-se  duas potências eleitorais, que era preciso respeitar. Levantaram-se todos, e começou  a palestra: o juiz de direito foi para um gabinete fumar o seu havana, tendo primeiro  convidado ao promotor e a dois jurados para jogar o voltarete.

A citação nos permite uma comparação entre A carteira de meu tio e A luneta mágica  em mais de um aspecto. O primeiro deles, e mais evidente, seria a descrição satirizada que o  sobrinho-narrador faz do júri, colocando à mostra o que ele julga ineficaz nessa instituição. Na  narrativa  de  Simplício,  o  júri  também  é  colocado  em  xeque,  mas  por  um  viés  mais  sutil,  irônico,  ao  iniciar  julgando  positivamente  o  sistema  judiciário  (“O  nosso  código  é  necessariamente muito sábio e muito previdente”), para então apontar o seu contrário (“exige que  para  ser  jurado  o  cidadão  brasileiro  tenha  apenas  senso  comum,  se  exigisse  bom  senso  haveria  desordem geral”).

Um segundo ponto de aproximação seria a atuação do sobrinho-narrador como aquele  que observa e anota o que vê. Lembremos que é essa a função que ele tem ao sair em viagem  pelo  país:  observar  a  realidade  e  anotar  na  carteira  do  tio.  Por  meio  da  mistura  de  gêneros,  analisada  anteriormente  (narrativa  de  viagens  e  crônica),  A  carteira  de  meu  tio  apresenta  também uma espécie de lente, que capta a realidade observada pelo sobrinho e que lhe permite  narrar  pequenos  detalhes  –  as  roupas  desenhadas  (e  desdenhadas!)  pelo  promotor;  as  notas  maliciosas do advogado e o convite do juiz de direito para o jogo de cartas após suspender a  sessão – fazendo com que os leitores vejam, por sua lente, digamos assim, um quadro social  muito semelhante ao que Simplício observa e narra, quando de porte do objeto mágico. Não é  fortuita,  portanto,  a  presença  de  uma  luneta  nas  mãos  do  promotor,  na  cena  narrada  pelo  sobrinho.  Assim  como  o  promotor  maliciosamente  se  diverte  com  sua  luneta;  o  sobrinho,  ao  narrar, também se diverte debochando do que vê, como se ele também tivesse um objeto que  lhe permitisse descobrir detalhes de uma cena aparentemente comum: a reunião de um júri, no  caso. 

Comparando  A  luneta  mágica  às  duas  outras  obras  narradas  pelo  sobrinho,  podemos observar  também  que,  assim  como  o  sobrinho-narrador  empresta  sua  voz  e  a  voz  daqueles com quem dialoga, para discursos parlamentares, crônicas sobre a situação observada no país ou  confissões  sobre  a  política  da  segunda  metade  do  século  XIX,  Simplício,  de  modo semelhante,  lança  mão  desse  mesmo  recurso  ao  se  caracterizar  como  míope.  Ambos constituem-se como tipos ou caricaturas

No  caso  de  Simplício,  especificamente,  é  através  de  sua  miopia  moral  que  ele,  narrador,  pode  evidenciar  aos  leitores  o  jogo  entre  aparência  e  essência  que  permeia  a realidade  social  na  qual  está  inserido.  Sendo  míope,  Simplício  carrega  em  si  mesmo  uma duplicidade simbolizada de imediato pelo seu próprio nome (Simples? Simplório?) e marcada também por sua condição física e moral, pois está o tempo todo tentando enxergar a realidade  em mais de um plano. Há um primeiro, palpável, que sua miopia física restringe, uma vez que possui  a  visão  bastante  afetada,  mas  também  um  segundo  plano,  mais  elaborado,  que  sua miopia  moral  deturpa  ou  não  alcança,  já  que  ele  não  tem  a  capacidade  de  discernir  as intenções e interesses daqueles que o cercam. Neste sentido, é a luneta mágica o instrumento que  lhe  permite  construir  sua  narrativa,  mostrando,  primeiro,  a  visão  absoluta  do  mal  e, depois, o seu inverso, ou seja, a visão absoluta do bem.    Simplício  se  configura  como  uma vítima  tão  estereotipada  dessas  duas  visões  e  tão  incapaz  de  se  modificar  com  a  experiência (daí  sua  constituição  como  um  tipo,  uma  caricatura)  que  podemos  pensar  em  uma  ironia  de maior  amplitude,  ou  seja,  uma  ironia  direcionada  às  próprias  narrativas  românticas  que mostram  o  indivíduo  em  conflito  com  o  seu  meio,  resultando  daí  sua  transformação  ou  não (tendo sua virtude premiada ou seu vício punido) como resultado dessa experiência individual e social. Em A luneta mágica, isso não ocorre com Simplício. É através  da visão perpassada pela  luneta,  portanto,  que  a  narrativa  ganha  suporte  para  explicitar  esse  mecanismo  de construção narrativa:    

Tive um ímpeto de coragem, avancei um passo e perguntei-lhe: 
- Dar-me-ás a vista?...
- Sim, e mais penetrante do que desejas.
- Como?
- A experiência te responderá.
- E tu por que não?
- Que te importa?... Já o disse: terás vista mais penetrante do que desejas e pensas;  queres?
- Por que modo a terei?
- Dando-te eu uma luneta mágica.
-Quando?
- Hoje mesmo e amanhã na hora em que acabará o dia de hoje para começar o dia de amanhã, à meia-noite. 
- E o teu prêmio?
- Será a tua próxima convicção que é melhor ser cego, do que ver demais.
-Aceito.   
-É o mal.
-Aceito.
- É o gelo no coração!
- Aceito.
- É o ceticismo na vida!
-Aceito.
- Por que, criança?...
- Porque eu quero ver.
-Verás demais. 
-Aceito.
- Volta à meia-noite.

Os  diálogos  curtos  e  o  enigma  em  torno  do  que  seria  ver  demais,  além  da  figura  misteriosa  do  Armênio,  um  mágico  contratado  por  um  comerciante  de  lentes  e  apetrechos  ópticos,  conferem  a  esta  narrativa  de  Macedo  um  tom  de  suspense  por  meio  da  presença  de  elementos  sobrenaturais.  Ao  contrário  de  A  carteira  de  meu  tio  e  Memórias  do  sobrinho  de  meu  tio,  em  que  a  comicidade  ganha  espaço  privilegiado,  este  romance  não  se  constrói  por  meio  do  escracho  com  que  o  sobrinho-narrador  refere  a  si  mesmo  e  aos  outros.  Percebemos  aqui  um  humor  mais  ácido  e  irônico  ao  criticar  as  relações  pessoais  e  a  própria  sociedade  -  humor  esse  um  pouco  diverso,  portanto,  daquele  presente  nas  duas  obras  anteriores  que  analisamos  no  segundo  e  terceiro  capítulos.  Esta  característica  se  deve  também  à  maneira  como a mistura de gêneros se configura em A luneta mágica. Segundo Temístocles Linhares,  “estamos  diante  de  um  dos  livros  mais  ‘fantásticos’  de  Macedo,  mas  onde  o  insólito  logo  se  aclimata  à  vida  cotidiana”.  De  fato,  mesclar  elementos  mágicos  ao  cotidiano  configura,  a  nosso ver, o verdadeiro pulo do gato macediano neste romance. Todavia, não se trata de uma narrativa puramente maravilhosa, usando aqui as denominações de Todorov, tampouco, de  um simples retrato de costumes. Por meio da intersecção entre elementos mágicos (a luneta; o  Armênio),  e  outros  da  realidade  cotidiana,  Macedo  não  perde  de  vista  sua  opção  pela  composição ficcional embasada em uma crítica social, conforme apontamos nas análises de A  carteira  de  meu  tio  e  Memórias  do  sobrinho  de  meu  tio.  A  novidade  ficaria  por  conta,  portanto,  da  ênfase  dada  ao  maravilhoso,  aspecto  inovador  em  sua  galeria  de  romances,  conforme analisaremos a seguir. 


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Fonte:

Juliana Maia de Queiroz: “As múltiplas facetas de Joaquim Manuel de Macedo: um estudo de  A carteira de meu tio, Memórias do sobrinho de meu tio e A luneta  mágica.” (Tese  apresentada  ao  Programa  de  Pós-Graduação  do  Instituto  de  Estudos  da  Linguagem  da  Universidade  Estadual  de  Campinas,  como  requisito  para  obtenção  do  título  de  doutor  em  Teoria e História Literária. Área de concentração:  Literatura Brasileira.    Orientadora:  Prof.ª  Dr.ª  Márcia  Azevedo  de  Abreu. ). Campinas,  2011

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