16/10/13

Ubirajara, de José de Alencar

 Jose de Alencar - Ubirajara - Iba Mendes
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UBIRAJARA: O MITO DO SELVAGEM PURO

Percorrendo as obras indianistas de José de Alencar encontramos no final, em seu último romance indianista, Ubirajara, o selvagem com toda a sua grandeza, força e coragem, livre ainda do contato com os brancos.

Esse romance, apesar de não ter feito o mesmo sucesso que O Guarani e Iracema, não é inferior quanto ao processo de composição romântica e à criatividade de Alencar. O longo tempo transcorrido entre esses romances e Ubirajara, respectivamente 17 e 9 anos, provavelmente contribuiu para que esse livro não tivesse o mesmo êxito entre os leitores. Além disso a cultura literária que em 1874 (ano de publicação de Ubirajara) já tendia para modificações, buscava formas menos idealizadas para a vida, para as coisas e para a sociedade. Novos escritores se revelavam, dentre eles Machado de Assis, que nesse mesmo ano publicava A Mão e Luva e caminhava rumo a um dos marcos do Realismo na literatura brasileira: o romance Memórias Póstumas de Brás Cubas.

Lúcia Miguel Pereira (1992) ressalta que, a partir de 1870, os escritores foram se sentindo cada vez mais livres para escolher casos, cenas e personagens, coisa que antes não acontecia, pois os romances que precederam esse período faziam acreditar na unidade da pessoa humana, apresentando personagens que encarnavam o vício ou a virtude com a mesma coerência. Segundo ela, Machado veio modificar isso: Só Machado de Assis ousava, com muita cautela, apontar defeitos nos seus heróis, como também só ele não recorria às descrições naturais, cenário poético de todos os livros do momento, que acentuava a "cor local", preocupação vinda do Romantismo. (PEREIRA, 1992, p. 29)

Alencar, com seu romance Ubirajara, mesmo o escrevendo em 1874, ainda se preocupava com a "cor local" (apesar de um ano depois trilhar novos caminhos com o romance Senhora), como em O Guarani e Iracema, obras cujos temas eram apreciados por Machado de Assis pela notável imaginação literária, atribuída aos elementos indianistas ou ao confronto do índio com a civilização.

Esta é hoje a opinião triunfante. Ou já nos costumes puramente indianos, tais quais os vemos n'Os Timbiras, de Gonçalves Dias, ou já na luta do elemento bárbaro com o civilizado, tem a imaginação literária do nosso tempo ido buscar alguns quadros de singular efeito, dos quais citarei, por exemplo, a Iracema, do Sr. J. Alencar, uma das primeiras obras desse fecundo e brilhante escritor. (MACHADO de ASSIS, 1997, p. 803)

Ubirajara, o livro "irmão de Iracema", como afirma Alencar na "advertência" é caracterizado como lenda tupi, por apresentar o índio com toda sua "magnanimidade" - qualidade de quem é grandioso, nobre - reinando sob a natureza  brasileira, antes da chegada dos europeus.

O selvagem, em primeiro plano, é exaltado, admirado, como um símbolo de liberdade – característica romântica – na tentativa de passar ao público leitor os valores de um indivíduo apegado à terra, revelando suas raízes. Voltar à natureza para reencontrar a pureza das origens, é esse o ideal colocado no selvagem brasileiro. Esse romance traz a história de um jovem caçador da tribo Araguaia, Jaguarê, que após ter vencido todos os animais da floresta, inclusive o mais feroz - o Jaguar - procura um inimigo corajoso para combater e ganhar nome de guerra.

Nessa procura conhece Araci, a "linda caçadora", virgem filha do chefe da tribo Tocantins. Mas seu desejo maior naquele momento era encontrar um inimigo para combater e vencer. Até que surge em seu caminho Pojucã, guerreiro da tribo Tocantins.

Inicia-se o combate entre os dois guerreiros, saindo vencedor Jaguarê, que recebe o nome de guerra, Ubirajara, o senhor da lança, que passa a ser o grande chefe de sua tribo, após alegre comemoração festiva. Pojucã torna-se seu prisioneiro, à espera do ritual da morte, do ritual antropofágico.

Ubirajara parte novamente para disputar o amor da virgem que encantou seus olhos, Araci, rejeitando Jandira, "a mais bela das virgens Araguaias", prometida a ele na juventude.

Recebido com todas as honras pelo povo Tocantins, como "hóspede de Tupã", Ubirajara recebe o nome de Jurandir e disputa com vários outros guerreiros o amor de Araci. Após o combate e as provas de resistência, vence, tendo a virgem como troféu. Contudo, antes de tê-la como esposa, apresenta-se perante a tribo, revelando sua identidade e suas façanhas, entre elas a derrota de Pojucã. O guerreiro Araguaia descobre estar diante do pai de seu inimigo. Anuncia-se a guerra entre Tocantins e Araguaias.

Ubirajara volta à sua aldeia e liberta Pojucã, irmão de Araci, para que lute junto de seu povo. Porém, antes do combate com Araguaias, a tribo Tocantins enfrenta uma batalha com outra tribo inimiga, os Tapuias, que buscavam a vingança.

Nessa batalha sangrenta, morre o chefe tapuia, Canicrã, e fica cego Itaquê, o chefe Tocantins. Sem condições de lutar contra a tribo Araguaia, Itaquê propõe a união das duas tribos, dos "dois arcos", tornando Ubirajara o grande chefe da "poderosa nação que dominou o deserto" até a vinda dos guerreiros brancos.

Ubirajara é um personagem épico e mítico, que traz em si o símbolo da coletividade, um elemento central que representa o grupo. É o herói romântico, retrato idealizado do selvagem de virtudes guerreiras, incutido de costumes e sentimentos indígenas. É um personagem que evolui de acordo com a acumulação de atributos guerreiros, um herói em busca de afirmação social. Inicialmente, Jaquarê, grande e temido caçador, quer ser guerreiro. Realiza seu desejo na derrota de Pojucã, tornando-se Ubirajara - senhor da lança. Como guerreiro, torna-se o grande chefe de sua tribo, no lugar do seu pai. Como chefe araguaia, precisa lutar para conquistar a mulher amada, Araci, recebendo o nome de Jurandir - o que veio trazido pela luz do sol. Após mais essa vitória, é convidado a chefiar também a tribo tocantins, tornando-se chefe supremo da nação Ubirajara.

Percebe-se na narrativa as projeções do narrador, por exemplo, no desejo de auto-afirmação do personagem, que procura preencher um vazio pessoal e social, representado pela sombra vinda com a tristeza, que só acaba quando consegue o que deseja: consagrar-se guerreiro e possuir a mulher amada que se encontrava distante, na tribo Tocantins. Jaguarê chegou à idade em que o mancebo troca a fama de caçador pela gloria do guerreiro. [...]

Mas o sol três vezes guiou o passo rápido do caçador através das campinas, e três vezes como agora deitou-se além nas montanhas da Aratuba, sem mostrar-lhe um inimigo digno de seu valor. A sombra vai descendo de serra pelo vale e a tristeza cai da fronte sobre a face de Jaguarê. (ALENCAR,1984, p.14)

No mais escuro da mata, vaga o chefe dos araguaias. Seus olhos fogem à luz do dia e buscam a sombra, onde encontram a imagem que traz na lembrança.

À noite, quando o guerreiro dormia em sua rede solitária, Araci, a  linda virgem, lhe apareceu em sonho e lhe falou:

__ Jaguarê, jovem caçador, tu dormes descansado enquanto os guerreiros tocantins se preparam para roubar a virgem de teus amores. Ergue-te e parte, se não queres chegar tarde. (ALENCAR, 1984, p. 35) O processo de ascensão social marca as transformações do herói, de jovem caçador a guerreiro e a chefe supremo, a imagem do herói clássico que evolui com a força e a coragem. A elevação do selvagem, numa tentativa de valorização do seu grupo social, ou seja, o guerreiro mais nobre tem a função de comandar a tribo: "¾ Ubirajara, senhor da lança, tu és o mais forte dos guerreiros araguaias; empunha o arco chefe" (ALENCAR, 1984, p. 33).

José de Alencar coloca em Ubirajara a alma coletiva, expressa em sua língua, seus costumes, valores e qualidades, na tentativa de mostrar a importância da cultura indígena no processo de formação e construção da cultura brasileira. Mas, para isso foi preciso quebrar o pacto ficcional do Romantismo – em que os leitores teriam uma visão mítica assegurada, mas transfigurada em ficção – e discutir, como faria um etnólogo, a visão dos cronistas sobre os índios e seus costumes nas notas de rodapé, disputando na mesma página o espaço com o herói romântico, o índio histórico, apresentado como em extinção, mas, próximo demais no tempo e no espaço de Alencar, fraturando a narrativa de ficção e abrindo uma brecha para o "real", para uma literatura em sua diferença. O desejo do herói de se purificar e engrandecer em nome da etnia se confunde com o desejo do autor em afirmar o “bom selvagem”, o mito com todas as suas qualidades individuais e sua contribuição na organização do grupo. Alencar, nesse romance, busca a raiz de um processo identitário, indo mais longe do que em O Guarani e Iracema, reforçando a idéia do homem natural, puro, antes da influência do branco colonizador. Ubirajara, diferentemente de Peri e Iracema, ainda não abandonou suas raízes para seguir o branco, e luta para manter viva a tradição e nobreza de seu povo.


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Fonte:
Ivana Pinto Ramos: “Ubirajara: Ficção e Fricções Alencarianas”. (Dissertação de mestrado elaborada junto ao Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários - Área de concentração: Literatura Brasileira - Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais. Orientadora: Prof ª. Drª. Maria Inês de Almeida). Belo Horizonte – MG, 2006

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