16/10/13

Lucíola, de José de Alencar

 Luciola de Jose de Alencar
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Os livros estão em ordem alfabética: autor/título (coluna à esquerda) e título/autor (coluna à direita).

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Lucíola e o ideal romântico
  
José de Alencar escreveu Lucíola em 1862. No livro Como e porque sou  romancista, Alencar narra a história do livro:

Em 1862 escrevi Lucíola, que editei por minha conta e com o maior sigilo.  Talvez não me arruinasse esse comedimento, se a venda da segunda e
terceira edição ao Sr. Garnier não me alentasse a confiança provendo—me para os gastos da impressão.(Alencar, 1990, p.66).

O livro foi um sucesso editorial, mas não foi assinado por Alencar. Lucíola nasceu obra anônima e ganhou notoriedade junto ao público-leitor por conta própria, sem o apoio do nome consagrado de José de Alencar.

A primeira edição de mil exemplares, vendida em um ano, é índice da enorme popularidade que este livro conseguiu junto aos leitores. Esse fator deve-se a dois pontos: em primeiro lugar, a história é contada de forma epistolar e, portanto,   indiretamente. Lucíola é uma cortesã. Contar a história de uma mulher pública no século XIX é no mínimo, uma atitude transgressora (se bem que Alexandre Dumas  Filho já o fizera), mas fazê-lo por meio de uma senhora de cabelos brancos, avó insuspeita, viabiliza que o romance seja apresentado a uma sociedade constituída de jovens e “gentis meninos”. Alencar prepara o leitor/ leitora  antes do livro:

Lucíola é o lampiro  noturno que brilha de uma luz tão viva no seio das  trevas à beira  charcos. Não será a imagem verdadeira da mulher que no  abismo da perdição conservava a pureza d`alma ?   Deixem que  raivem os moralistas.  
A sua história não tem pretensões a vestal. É musa cristã; vai trilhando o pó  com os olhos do céu. Podem as urzes do caminho dilacerar-lhe a  roupagem; veste-a  virtude. 
Demais se o livro cair nas mãos de alguma das poucas mulheres que lêem  nesse país, ela verá estátuas e quadro de mitologia, a que não falta, nem
véu  de graça,nem a  folha de figueira, símbolos do pudor no Olimpo  e no  Paraíso terrestre. (Alencar, 1976 cp 2).

A heroína é apresentada num jogo claro/escuro; luz viva/seio das trevas; abismo da perdição/ pureza da alma. Estes contrastes foram apontados por Luís Felipe Ribeiro:

As imagens relativas a Lucíola, empregadas nesse discurso, são sempre dicotômicos; luz viva/charcos; abismo da perdição/pureza d’alma; nudez do corpo/virtude vestida; nudez artística /folha de figueira. Por mais cortesã que fosse, havia nela um lado cristão e puro. E, ao final, antes que comece a narrativa, transforma-se em musa cristã, vestida de virtude, onde não faltam sequer os símbolos do pudor... (Ribeiro, 2008, p. 82).

Ao apresentar a personagem ao leitor por meio do olhar de Paulo, Alencar faz uma descrição da mulher discreta e elegante que passaria despercebida se não fosse o fato de estar desacompanhada de pai, irmão, ou noivo, o que a caracteriza  como uma “mulher pública” ou uma cortesã. Alencar sempre compõe Lúcia associando diferentes trajes aos diversos momentos em que aparece, ora como cortesã ora como mulher redimida, ou musa casta. No primeiro capítulo, Lúcia se  apresenta vestida muito discretamente,  num vestido “cinzento com orlas de veludo  castanho” e realçava “ (...) um desses rostos suaves , puros,  e diáfanos “. Rosto de  “mulher bonita” e não de uma “senhora” é o semblante de nossa heroína.  É apresentada a Paulo na  procissão em louvor de Nossa Senhora da Glória, onde se  encontra a Igreja (construída no século XVIII) e desconhece que Lúcia seja uma cortesã, Sá ,uma personagem amiga de Paulo e também conhecido da moça faz as  apresentações :

Feita a apresentação no tom desdenhoso e altivo com que um moço distinto se dirige a essas sultanas do ouro, e trocando algumas palavras triviais,
meu amigo perguntou-lhe:
-Vieste só?” 
- Não acredita?... Se eu viesse por passeio!
- E qual é o outro motivo que te pode trazer à festa da Glória? 
- A senhora veio talvez por devoção? Disse eu.
- A Lúcia devota!... Bem se vê que a não conheces.
- Um dia no ano não é muito! Respondeu ela sorrindo.( Alencar,1976, p.14)

A personagem é apresentada modesta, caridosa, devota, para logo ser considerada uma “sultana do ouro” e o tratamento, que lhe é dado ela passa de um  tom cortês a “um tom desdenhoso”, presente sempre nos comentário de Sá,  ao longo da narrativa.

A caracterização da heroína, neste romance, feita muitas vezes,no esquema  teatral luz/sombra, claro/escuro, ainda apresenta os conceitos do “Rococó” termo devido a “Rocaille” (em forma de concha) que era um “motivo muito comum de  ornamentação da época, e sem uso remonta a 1830 “ (Coutinho,1975,p. 136)   

Como Lucíola foi editado em 1862, estes traços estéticos ambíguos aparecem  na obra, e compensam o estilo “rocaille’. Podemos elencar aqui dois  traços que   caracterizam o romantismo: 1) “uma gama de amor, do namoro ao idílio, à luxúria, ao erotismo; 2) máscaras e disfarces como recursos intimistas para velar e revelar.(Coutinho, 1975, p. 137)”.

Percebe-se no estilo literário de José de Alencar que a “máscara” usada é a  forma de construir a personagem. Lúcia /Maria da Glória (seu nome de batismo),são duas mulheres numa só, amalgamadas. A visão alencariana   remete-nos muitas vezes ao paradoxo: Lúcia se debate entre o desejo do corpo e a pureza de seu  espírito, que não aceita a condição de cortesã, pois almeja um grande amor.  Consciente de sua degradação, o corpo físico procura na abstinência sexual, a redenção enquanto mulher. Apresenta-se a heroína problemática. A questão do herói problemático foi abordado por Gyorgy Lukács e este tema  já foi abordado no capítulo I.

A ambigüidade na construção da personagem começa pelo duplo nome: Lucíola  também é Maria da Glória.

Com efeito, a personagem central é um ser perfeito e tem mesmo dois nomes: Lucíola e Maria da Glória. A primeira é cortesã; a segunda, moça  recatada e pura. E elas se apresentam não apenas numa sucessão temporal, o seu tanto esquizofrênica, mas num amalgama complexo e que  depende do olhar de quem a vê, para perceber o que é ganga e o que é diamante do mais alto quilate. (Ribeiro,  2008 ,p.88).

Maria da Glória é  o verdadeiro nome da cortesã, que tomou o nome de Lúcia  de uma companheira sua que morreu tísica. Com o falecimento desta moça trocou as  identidades; quando o médico veio passar o atestado de óbito. Maria da Glória  passou a viver com a identidade de Lúcia  e  Maria da Glória foi enterrada para o mundo e para a  família. 

Nisto uma moça quase de minha idade veio morar comigo; a semelhança de  nossos destinos fez-nos amigas; porém Deus quis que eu carregasse só  a  minha cruz. Lúcia morreu tísica; quando veio o médico passar o atestado, troquei os nossos nomes. Meu pai leu no jornal o óbito de sua filha; e muitas vezes o encontrei junto dessa sepultura onde ele ia rezar por mim, e eu pela  única amiga que tive neste mundo. Morri, pois para o mundo e para minha  família. Foi então que aceitei agradecida o oferecimento que me fizeram de  levar-me á Europa (Alencar,1976, p.112)

Com sua nova identidade como a nova Lúcia, parte para a Europa e na volta assume a vida de cortesã. Em várias passagens fica claro o erotismo com que José  de Alencar atribui à cortesã, o realismo que compõe estes textos.   A iconografia   utilizada para tal , muitas vezes deixa claro, também, que a cortesã  é uma face   muito distinta da mulher binômio Maria da Glória /Lúcia. A iconografia começa na escolha das vestes. No capítulo V Lúcia esta vestindo um traje branco, um “mar de  leite”, “vestes níveas e transparentes”, que se reporta à singeleza. Entretanto o olhar  de Paulo era para  a cortesã  e  o ícone que nos atenta para isso é o leque de penas  escarlate:   “uma       grande   borboleta rubra   pairando    no  cálice  das magnólias”(Alencar,1976,p.27)

Entretanto  o meu olhar ávido e acerado  rasgava os véus ligeiros  e desnudava as formas  deliciosas que ainda sentia latejar sob meus lábios.Eu sofria a atração irresistível do gozo fruído , que provoca o desejo até a consunção ; e conheci que essa mulher ia se tornar uma necessidade , embora momentânea, da minha vida. (Alencar.1976.p.27)

O código usado por Alencar – a escolha do perfume, a compra de vestidos, jóias, o transporte, revelava o mundo de sedução que vivia essas “mulheres públicas”  que estipulavam seu preço e se colocavam como mercadoria. 

Lúcia está sempre “elegantemente vestida”  e mesmo usando de simplicidade, as cortesãs “desejem esmagar a casta simplicidade da mulher honesta, quanta vezes defraudadas por essa prodigalidade” (Alencar, 1976, p.27). Ou seja, a simplicidade,  per si, não era um atributo das cortesãs que usavam disto, mas, era um contraponto de ironia e não, uma particularidade. Muitos objetos caracterizam a figura da “bacante”, mas um sempre é indicado nos trechos em que Lúcia aparece como cortesã: o leque de penas escarlates. 

No capítulo V da obra analisada, Alencar começa a descrever os trajes de Lúcia, direcionando olhar do leitor para o leque escarlate que a moça carrega para depois, apresentar o traje, que é branco (que,  como pano de fundo ressalta a presença do leque).

Não me posso agora recordar das minúcias do traje de Lúcia naquela noite. O que ainda vejo neste momento, se fecho os olhos, são as nuvens brancas e nítidas, que se frocavam graciosamente, aflando com o lento  movimento de seu leque: o mesmo leque que eu apanhara, e que de longe  parecia uma grande borboleta rubra pairando sobre o cálice das magnólias. O rosto suave e harmonioso, o colo e as espáduas nuas nadavam como  cisne naquele mar de leite, que ondeava sobre formas divinas.   A expressão angélica de sua fisionomia naquele instante, a atitude  modesta e quase tímida, e a singeleza das vestes níveas e transparentes, davam-lhe frescor e viço de infância, que devia influir pensamentos calmos,  senão puros. Entretanto o meu olhar ávido e acerado rasgava os véus  ligeiros e desnudava as formas deliciosas que ainda sentia latejar sob meus lábios.(Alencar, 1976, p.27)

Ao analisarmos este trecho percebemos que a descrição faz uso da ambigüidade. O sentido  de pureza do traje não inspira sentimentos puros, mas sim de desejos, que são expressos num jogo de palavras em que aparecem as  expressões “borboleta rubra”, “espáduas nuas”, “mar de leite” (onde a sonoridade   das últimas palavras lembram o verbo ‘deleitar-se’);opondo  a idéia de uma imagem de mulher pura e angelical à imagem de mulher cortesã.

A idéia de uma possível conspurcação da castidade permitida pela descrição do traje e fisionomia da personagem se opõe à própria condição de Lúcia (por ser uma cortesã) e também aos pensamentos lascivos despertados em Paulo.

O romance entre Lúcia e Paulo não é bem visto pela sociedade, afinal a cortesã é uma mulher pública  e Sá  conversando com Paulo, comenta que as  pessoas pensam que ele é sustentado por Lúcia.Transtornado, Paulo  conversa com  a cortesã e diz que não ser justo que eles fiquem juntos, pois ela é uma figura pública. Magoada, Lúcia retoma sua vida mundana e volta a circular em  companhia  de Couto com quem vai ao baile vestida sedutora e elegantemente. Seu traje em vermelho e negro assim como as jóias (brilhantes) compõem a imagem de forte  sedução e brilho da personagem.

Ao descrever Lúcia em seu traje para ir ao baile as cores escolhidas são emblemáticas: preto e vermelho.Lúcia  é a imagem da sedução, riqueza e  perfídia: ,

Lúcia fitou-me por muito tempo,  e chegou-se ao espelho para dar os últimos toques ao seu traje, que se compunha  de um vestido escarlate  com largos folhos de renda preta, bastante decotado para deixar ver as suas belas espáduas, de um  filó alvo  e transparente que flutuava-lhe  pelo seio cingindo o colo , e de uma profusão de brilhantes magníficos  capaz de  tentar Eva , se ela  tivesse  resistido  ao fruto proibido.Uma grinalda de espiga de trigo  cingia-lhe a fronte  e caía sobre os ombros  com a basta  madeixa de cabelos, misturando os louros cachos aos negros anéis que  brincavam.(Alencar, 1976, p.71)

[...]

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Fonte:
Luiza Valentina Pereira de Arruda: “Lucíola A ambigüidade na construção da personagem”. (Tese apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo  como exigência parcial para obtenção do  título de Mestre em Literatura e Crítica Literária sob a orientação da Profª Doutora  Olga de Sá). São Paulo, 2009

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