13/10/13

Teatro Completo, de José de Alencar (PDF)

 Jose de Alencar - Teatro Completo - Iba Mendes
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A origem do teatro alencariano: o ‘teatro ao correr da pena’ e a fundação do Ginásio Dramático

Em 1857, José de Alencar já era um escritor consagrado entre o público. Iniciara sua carreira na seção Ao correr da pena, como folhetinista das páginas dos jornais Correio Mercantil e Diário do Rio de Janeiro entre 1854 e 1855. Em 1856 o autor publica seu primeiro romance, Cinco minutos. Em 1857, Alencar lançaria também, nas páginas do Diário do Rio de Janeiro, aquele que viria a ser o seu maior sucesso de público como escritor: O Guarani, publicado em 54 capítulos, obra que o consagraria como o maior homem de letras de seu tempo, com papel central no movimento romântico brasileiro.

Por sua vez, o interesse de Alencar pelo teatro surge antes do lançamento de O Guarani, como afirmou João Roberto Faria (1987), ao contrário de alguns biógrafos do escritor, que observam apenas a linha cronológica de lançamento de suas peças. É certo que a peça de estreia de Alencar, O Rio de Janeiro, verso e reverso, data de 1857, após o lançamento e consagração de O Guarani, mas é certo também que a atenção de Alencar pelo teatro se origina de seu papel como folhetinista, exercido anteriormente.

Quando escreveu a seção Ao correr da pena, Alencar exercia aquela que era uma das principais obrigações do folhetinista ao retratar o cotidiano da corte: freqüentar teatros, óperas e salões de baile da então capital do império. O contato com tal ambiente fez Alencar perceber a estagnação na qual se encontrava o teatro brasileiro, com a representação resultante da mera transposição de peças estrangeiras, especialmente francesas. Nessa época, em folhetim de 19 de novembro de 1854, escreveu Alencar no sentido de que cabia ao maior ator da época, João Caetano, a tarefa de liderar a criação de um teatro que o autor considerava nacional:

Se João Caetano compreender quanto é nobre e digna de seu talento esta grande missão, que outros, antes de mim, já lhe apontaram; se corrigindo pelo estudo alguns pequenos defeitos, fundar uma escola dramática que conserve os exemplos e as boas lições de seu talento e a sua experiência, verá abrir-se para ele uma nova época (ALENCAR, 2004, p. 109).

Os ‘pequenos defeitos’ aos quais Alencar se referia visavam justamente o estilo de interpretação de Caetano, que Alencar considerava exagerado, grandiloquente, sem poupar a falta de comprometimento do ator com o que considerava a causa do teatro genuinamente brasileiro. Afirma João Roberto Faria (1987) que João Caetano não teria ficado indiferente aos apelos e às críticas de Alencar, mas que teria agido demasiado tarde. Neste sentido, Alencar partilha nesse momento das ideias de toda uma nova geração de intelectuais acerca do teatro, ideias vindas da França, com o realismo teatral iniciado por Alexandre Dumas Filho com A dama das camélias, em 1852, na qual já vigorava o estilo de interpretação considerado mais ‘natural’, sem lances dramáticos artificiais.

E os apelos de Alencar são finalmente atendidos em março de 1855, pelo empresário Joaquim Heleodoro Gomes dos Santos, que funda o Teatro Ginásio Dramático, em resposta à estagnação do Teatro São Pedro de Alcântara, que era liderado por João Caetano. Inspirado no Gymnase-Dramatique, reduto dos realistas franceses, o ginásio acolheria a encenação de peças do repertório de seu congênere francês. Ademais, já se preocupava o autor com questões que até hoje são discutidas no meio artístico, como a autonomia do teatro em relação a subvenções governamentais.

Em crônica de 15 de abril de 1855, Alencar comenta a criação e o início dos ensaios do Ginásio Dramático:

E isto vem a propósito, agora que a nova empresa do Ginásio Dramático se organizou, e promete fazer alguma coisa ao bem do nosso teatro. [...] O que resta, pois, é que os esforços do Sr. Emilio Doux sejam animados, que a sua empresa alcance a proteção de que carece para poder prestar no futuro alguns serviços. Cumpre que as pessoas que se acham em uma posição elevada deem o exemplo de uma proteção generosa à nossa arte dramática (ALENCAR, 2004, p. 283).

Em novembro de 1855, Alencar encerra a seção ao correr da pena, mas em 1856 ainda escreve alguns folhetins, ainda que de forma dispersa, sendo que, segundo João Roberto Faria, apenas dois interessam para demonstrar o interesse  e Alencar pela carreira de dramaturgo. São os folhetins de 12 de junho e 1 de julho de 1856, nos quais o escritor, em vez de ‘conversar’ com seus leitores, apresenta no espaço uma comédia, intitulada O Rio de Janeiro às direitas e às avessas: comédia de um dia, a qual teve apenas três atos publicados e restou inacabada. Afirma o autor sua intenção no folhetim de 12 de junho:

O título é um pouco original; mas o que talvez ainda vos admire é o enredo da peça; cada cena é uma espécie de medalha que tem o seu verso e o seu reverso; de um lado está o ‘cunho’, do outro a ‘efígie’ (ALENCAR, 2003, p. 280).

Outra peculiaridade na ‘peça’ apresentada por Alencar é que as personagens não possuem nomes, mas são nomeadas por tipos específicos que compõem a sociedade de então, e até mesmo a instituições. Assim, fazem parte da trama o Bacharel, o comércio, a indústria e a pérfida política, por exemplo.

Assim, tanto na literatura quanto no teatro, José de Alencar se mostra um experimentador, primeiro fazendo algo mais amplo, ou genérico, em um exercício da escrita teatral semelhante ao que seria feito em sua literatura, com a publicação de Cinco minutos, para depois lançar-se em uma empreitada mais ambiciosa e bem sucedida, com O Guarani.

Já nesse período, portanto, o escritor milita em duas vertentes: a primeira pela edificação de um teatro independente da subvenção governamental e, portanto, com autonomia para acolher a nova geração de dramaturgos adeptos da escola realista francesa, e a segunda vertente para a criação e encenação de uma obra teatral concebida por autores brasileiros, tendo Alencar à frente. Mostra o autor, portanto, conhecimento da estrutura social que influencia na produção artística e, sobretudo, consciência ‘midiática’, ciente de que a propaganda e a divulgação são essenciais para o sucesso do espetáculo.

Alencar, escritor de papel fundamental no movimento romântico brasileiro, no que diz respeito à literatura, considerava-se um adepto da escola realista no teatro, o que significa dizer que ele, assim como os mestres franceses nos quais se inspirava, defendia valores burgueses fundamentais para a época, como o trabalho e a família, abordando as questões sociais pelo prisma da moralidade, destinando-se o texto teatral realista a dar lições edificantes ao público.

No caso do teatro realista, acreditava-se que a naturalidade e espontaneidade necessárias não se encontravam no texto, mas nos elementos extratextuais, tais como o jogo cênico e a interpretação dos atores, características estas que andavam em sentido inverso no terreno textual, em que imperavam o conservadorismo e o conteúdo sempre moralizador, com a valorização da família e do capitalismo. Estes e outros tópicos são tratados demoradamente por Alencar em seu artigo A Comédia Brasileira, que, segundo João Roberto Faria,  seria uma ‘profissão de fé realista’ e a prova de que o autor se iniciou no teatro com um projeto definido, que tinha como um dos principais alvos pôr fim ao
romantismo teatral no Brasil.

A adoção de uma escola crítica, contudo, não dá a qualquer autor a chancela de que este trilhará o caminho destinado aos viajantes deste trajeto, de que chegarão sãos e salvos ao porto do realismo, por exemplo. Fato é que a época de Alencar foi aquele período de transição em que seguir um vocabulário crítico faz que o autor apresente determinados conceitos, mas estes não seriam capazes de delimitar ou aprisionar seus textos em determinada escola, só porque o dramaturgo assim escolhera. E foi desse modo que se deu o embate nos textos de Alencar entre a escola romântica e a realista no teatro.

Elucida melhor o assunto Martin Esslin: Em períodos ou civilizações dotados de visão do mundo unificadas, coerentes e aceitas sem contestação por sua vasta maioria – períodos como o da Grécia clássica ou da Idade Média – as artes e o drama em particular tendem a refletir tal visão por meio de um estilo único e unificado de apresentação
(ESSLIN, 1978, p. 60-61).

E no século XIX, em que a burguesia ascendente consolidava seus valores de defesa da família, do casamento e do dinheiro empregado sem ganância, nada mais conveniente do que aliar um modo de interpretação mais ‘natural’ com a representação pelo texto dos valores conservadores da sociedade de então, conceitos que Alencar seguiu em grande parte de suas peças, nas quais a sociedade, via de regra, subjuga o indivíduo.

Mas essa delimitação de gêneros pretendida por autores como Alencar não restaria indiferente à infiltração do romantismo, de suas soluções inverossímeis e grandiloquentes, rompendo com as normas que delimitam tais gêneros. Definido por Antonio Candido por “[...] complexo e amplo, anticlássico por excelência, é o mais universal e irregular dos gêneros modernos” (CANDIDO, 1969, p. 109), o romantismo, no que diz respeito à dramaturgia, opõe o modo de interpretação mais natural em face do mais afetado; o texto mais conservador e linear em face de lances ousados e inverossímeis; a predominância do social em face Foi entre esses mundos que o teatro de José de Alencar se situou, professando a fé do autor no realismo como caminho para a afirmação do teatro nacional, recorrendo, entretanto, com frequência a recursos claramente afetos à escola romântica quando a situação lhe parecia conveniente ou necessária, fator que será discutido novamente quando da conclusão deste trabalho.

A fim de avaliar como tais concepções teóricas se refletem na obra teatral de Alencar, dois trabalhos serão analisados, dentre as sete peças que escreveu. Trata-se de O demônio familiar, comédia realista que significou uma evolução em relação à estreia de Alencar como dramaturgo em O Rio de Janeiro: verso e reverso, bem como As asas de um anjo, peça mais sombria e polêmica de Alencar, que viria a ser censurada logo em sua segunda apresentação.

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Fonte:
Douglas Ricardo Hermínio Reis: “José de Alencar e o teatro: um romântico realista. Acta Scientiarum. Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas de São José do Rio Preto, Universidade Estadual Paulista ”Julio de Mesquita Filho”

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