13/10/13

Diva, de José de Alencar

 Diva de Jose de Alencar
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Considerações sobre o romance “Diva”, de José de Alencar


José de Alencar experimenta, em termos históricos, sociais e culturais, um projeto de modernização, o que marca uma diferença fundamental entre ambos os escritores, de tal modo que, no nosso romântico, podemos encontrar atitudes da modernidade, tal como propõe Foucault, já que sua obra incorpora e explora as potencialidades de seu tempo, mas verificam-se, também, oscilações entre o entusiasmo com os empreendimentos modernos, com a cidade em seu esboço do “civiliza-se”, de cujos ajustes se beneficiam a “boa sociedade”, ao mesmo tempo em que as práticas “afrancesadas” são ora criticadas, ora introjetadas. A nostalgia das tradições perdidas, e, portanto, a tentativa de reconstruí-las, sob a miragem de um mundo natural, e daí, muitas vezes, a valorização do mundo agrário, também se fazem presentes em alguns romances de Alencar, mesmo naqueles classificados como urbanos. Em Diva (1864), o narrador observa com pesar a natureza afetada pela urbanização, as transformações por que passaram “os amenos vales de Catumbi e Rio Comprido:
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Gozava-se aí de uma vista magnífica, de bons ares e sombras deliciosas. O arrabalde era naquele tempo mais campo do que é hoje. Ainda a fouce exterminadora da civilização não esmoutara os bosques que revestiam os flancos da montanha. A rua, esse braço mil do centauro da cidade, só anos depois espreguiçando pelas encostas, fisgou as garras nos cimos frondosos das colinas. Elas foram outrora, essas lindas colinas, a verde coroa da jovem Guanabara, hoje velha regateira, calva de suas matas, nua de seus prados.

Límpidas correntes, que a sede febril do gigante urbano ainda não estancara, rolavam trépidas pela escarpa, saltavam de cascata em cascata, e iam fugindo e garrulando conchegar-se nas alvas bacias debruadas de relva.

A prosa de Alencar ainda se nutre de uma circunstância em que a propriedade rural movimenta a vida das elites na cidade, tal como expõe o narrador de Diva: “D. Matilde é casada com um irmão de Duarte. Seu marido vive constantemente na fazenda, trabalhando para tirar dela os avultados rendimentos necessários ao luxo que sua família ostenta na corte”32. Nosso romântico vive o início de uma transição, em que coexistem práticas hoje consideradas arcaicas e rudimentos de modernização, momento em que o ambiente urbano já não é mais a simples extensão da casa-grande, auto-suficiente e sem ostentação de luxos no seu cotidiano. Assim, nos romances de Alencar, o funcionamento do patriarcalismo – e a estrutura rural do latifúndio que lhe serve de alicerce – se não é completamente rechaçado em suas bases, também não é totalmente corroborado. Gilberto Freyre, para quem Alencar exerceu um “romantismo socialmente crítico”, de “eloqüência revolucionária”, destaca a contradição do autor cearense: “seu modernismo antipatriarcal nuns pontos – inclusive o desejo de ‘certa emancipação da mulher’ – e o seu tradicionalismo noutros pontos: inclusive no gosto pela figura castiçamente brasileira de sinhazinha de casa-grande patriarcal”

Longe de situarmos o objeto artístico como reflexo do mundo empírico, a modernidade ambígua da sociedade brasileira no século XIX é reconstruída ficcionalmente na prosa alencariana, em cujas páginas se desenham criticamente tanto práticas obsoletas quanto aquelas que, europeizantes, importadas sem critérios, segundo a visão de Alencar, seriam artificiais e não teriam, portanto, um respaldo “genuíno” em solo brasileiro. A questão assume maior complexidade, porque se formula na tensão entre o nacional e o estrangeiro, problema, aliás, que, apesar de exposto em outros termos, será a pedra de toque de nosso modernismo, especialmente do de Mário de Andrade, e da proposta antropofágica. As preocupações de Alencar, antecipam, em muitos aspectos, aquelas enunciadas a partir da Semana de 22.

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Fonte:
Rita de Cássia Miranda Elias: “A Formação do Leitor e a Nação Inventada: Aspectos da Modernidade em José de Alencar”. (Tese de Doutorado em Literatura Brasileira apresentada à Coordenação dos Cursos de Pós-Graduação de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Orientador: Professor Doutor Antonio Carlos Secchin). Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2005.
Nota:
O título e a imagem não se incluem na referida obra.

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