30/10/13

O Homem, de Aluísio de Azevedo

 Aluisio de Azevedo - O Homem - Iba Mendes
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 O Homem: possessão sexual, vampirismo e pecado  original no romance de Aluísio de Azevedo

Por: Isabel Guimarães Rodrigues Freire (Professora Substituta e Mestranda – UFC)


Em 1887, o escritor maranhense Aluísio Azevedo publica no Rio de Janeiro o  romance O homem. Considerado o romance azevediano que mais ressalta aspectos do  Naturalismo, esse livro tem sido posto em segundo plano quando se trata de avaliar a  qualidade literária do autor. Devido ao fato de ressaltar expedientes cientificistas, através  do determinismo biológico, e colocar a satisfação dos apetites sexuais acima da  capacidade do indivíduo de discernir, o referido romance não recebeu a merecida  valoração; poucos críticos realmente se debruçam sobre a obra a fim de lançar um juízo  de valor favorável, ao contrário do que ocorre à trilogia O cortiço (1890), Casa de Pensão  (1884) e O mulato (1881). Tendo recebido uma direta influência de Thérèse Raquin  (1867), de Émile Zola, Aluísio Azevedo aborda em O homem a questão da histeria, da  tirania do organismo sobre a vontade do homem (no caso em questão, representado por  uma protagonista feminina), e a repressão às manifestações sexuais da mulher.

O enredo gira em torno de Madalena, filha do Conselheiro Pinto Marques, a qual  nutre uma profunda afeição por Fernando, afilhado de seu pai. Contudo, tal afeição não é vista com bons olhos pelo conselheiro, que, para evitar a consumação do relacionamento  de ambos, revela para Fernando um segredo arrebatador: ele e sua filha são, na  verdade, irmãos, sendo Fernando fruto de um relacionamento extraconjugal do  conselheiro. A revelação, além de causar profundo pesar no espírito de Fernando, provoca o distanciamento do rapaz e a consequente decisão de partir rumo à Europa,  onde pretende morar. Madalena percebe o distanciamento do meio-irmão e sua frieza em  relação a ela, porém atribui esse comportamento às preocupações com a formatura; qual  não é sua surpresa quando o jovem se forma e anuncia sua viagem à Europa, sendo essa, sem retorno. A partir de então, Madalena sofre uma profunda decepção da qual jamais conseguirá se recuperar, mesmo que em alguns momentos a jovem mostre ter superado a frustração sofrida e até uma indiferença com relação à partida do amado.

Observando o início do enredo, acima descrito, o autor já revela sua  intencionalidade cientificista ao tomar como ponto de partida para a narrativa um enlace  amoroso entre dois irmãos. O tema do incesto, aliás, é recorrente na literatura  naturalista, haja vista o romance Os Maias (1888), de Eça de Queirós. O único  impedimento para a concretização do amor incestuoso são, de fato, as regras sociais,  pois que não existe nenhum impedimento biológico no que diz respeito aos desejos e à  atração sexual, podendo esta haver entre irmãos consanguíneos.

Observando o desespero em que sua filha se encontrava, o conselheiro não viu  outra saída a não ser contar a verdade para Madalena, a qual, sabedora de tudo, tem a  sensação de alívio ao saber que o motivo de ser evitada por Fernando era o parentesco  existente entre eles. Um ano se passou e eis que chega uma carta da Europa avisando  acerca da morte de Fernando por problemas pulmonares. Ao saber da morte do irmão,  Madalena entra num processo de definhamento, em que sua vida parece perder o  sentido. Seu desinteresse pelos homens que lhe aparecem como pretendentes é  crescente, e sua saúde, já fragilizada pelo amor frustrado, parece esvair-se a cada dia  que passa.


Todavia, mais do que uma obra naturalista de tese experimental, O homem encerra  valores e símbolos anteriores à corrente literária referida. Podem ser detectados no  romance resíduos da mentalidade medieval, que, por sua vez, contêm valores herdados  de outras eras. Mais do que defender uma tese de caráter científico e determinista,  Aluísio ressalta valores presentes na mentalidade do século 19, que têm origem em  tempos mais remotos; esses valores aparecem no romance através de fenômenos os  quais pretendemos analisar sob a perspectiva da teoria da residualidade,  elaborada por  Roberto Pontes; tais fenômenos seriam: possessão sexual, vampirismo e pecado original

A teoria da residualidade consiste em observar resquícios de uma mentalidade em  outra mentalidade, resquícios esses envolvendo aspectos culturais e literários recorrentes  em época distintas e que denunciam uma constância residual de determinados  fenômenos. Ou seja, um aspecto literário e cultural presente na época atual pode ter sua  origem em outro momento histórico, denunciando sua permanência enquanto atitude  mental inconsciente. Contudo, o termo resíduo, referindo-se a essas atitudes mentais,  antes de ser utilizado por Roberto Pontes  para caracterizar a teoria da residualidade, já  havia  sido referido por Raymond Williams, pensador marxista de origem galesa, quando este estabelece a diferença entre “resíduo” e “arcaico”, cuja diferença básica seria o fato deste possuir uma natureza estagnada, enquanto aquele estaria em constante processo de transformação, o que nos leva a um outro conceito desmembrado da teoria da residualidade, o de cristalização. O termo cristalização, a partir desta teoria, passou a ser enquadrado nos estudos literários, pois que, até então, era um termo próprio dos estudos referentes à mineralogia, recebendo nessa perspectiva cultural e literária uma nova atribuição. A cristalização, portanto, está associada à ideia de remanescentes que permanecem, porém, atualizados, modificados; e assim como um cristal, que pode ser modificado e utilizado com diferentes finalidades, o resíduo sofre transformações e se aclimata ao local onde se faz presente e se atualiza agregando os valores da época em questão.

Vê-se que o termo “mentalidade” aparece com muita frequência quando o assunto  vem a ser de residualidade, visto não ser possível conceber o princípio residual sem o  conceito de mentalidade. As concepções referentes às mentalidades ganharam força com  os estudos dos pensadores da Escola dos Annales, da qual Lucien Febvre e Marc Bloch foram os fundadores. Além dos supracitados, Jacques Le Goff e Georges Duby  participaram do movimento, o qual viria a ser fundamental para o estabelecimento da Nouvelle Histoire francesa. A Escola dos Annales propõe uma nova perspectiva de ver a  história, levando em consideração não só os acontecimentos no nível da macroestrutura,  ou seja, as revoluções, as batalhas e conflitos de grande porte, mas a história implicada  nas microestruturas: nos hábitos, nos costumes, na religião, nas crenças populares,   nessas estruturas nem sempre contempladas pelos manuais de História e que compõem  as mentalidades, como podemos observar nas palavras do próprio Jacques Le Goff no  livro Em busca da Idade Média:

Sentia muito claramente nossa entrada numa outra era. Adivinhava que essas  mudanças materiais, cotidianas, eram um dos componentes fundamentais da  História. Que a História, ainda uma vez, não se limitava às batalhas, aos reis, aos governos. Uma certa maneira de ser e de pensar tornava-se  ultrapassada. Mais tarde, chamaria esse movimento de mudança de  mentalidade – mudança que acompanharia as trocas materiais.

Destarte, levando em consideração o conceito de mentalidade desenvolvido pelos  pensadores da Escola dos Annales e o conceito de resíduo, de Raymond Williams, tem-se  duas das bases constituintes da teoria da residualidade, a qual nos servirá de  fundamentação teórica a fim de relacionar o romance aqui abordado e a mentalidade  medieval, pois, como Jean-Maurice de Montremy, no prólogo de Em busca da Idade  Média, afirma:

É exatamente o nosso problema: somos freqüentemente medievais quando nos vangloriamos de sermos modernos; e freqüentemente não passamos de “apreciadores da Idade Média” quando acreditamos nos enraizar no tempo das catedrais, dos cavaleiros, dos lavradores e dos comerciantes. Os códigos  e os valores desse longínquo passado próximo são bem mais estranhos a nós do que habitualmente pensamos. Mas lhe devemos bem mais do que queremos admitir.

O primeiro assunto a ser abordado neste trabalho será a possessão sexual. Tem-se  por possessão sexual a ação de seres malignos, também conhecidos como demônios do  sexo, sobre as pessoas, tanto do sexo masculino como do feminino. Tais demônios na  Idade Média receberam as denominações de “íncubo”, quando assumiam forma de  homem para seduzir mulheres, e “súcubo”, ao assumirem forma de mulher a fim de  apossar-se de homens. Na Idade Média, o íncubo (do verbo latino incubare, que significa  “deitar-se sobre”, referindo-se à posição masculina sobre a mulher durante o ato sexual),  e o súcubo (do verbo sucubare, ou “deitar-se sob”, o que seria uma referência à posição  feminina abaixo do homem na relação carnal) serviram para justificar as frequentes  recaídas sexuais dos indivíduos em meio a uma sociedade opressora e que aprisionava as  realizações eróticas sob o estigma do pecado judaico-cristão. Os principais alvos dos  “ataques” noturnos dos possessores eram aquelas pessoas em torno das quais havia  algum tipo de impedimento à realização sexual, como padres, freiras, mulheres casadas  e camponeses. Desta forma, a fim de evitar a assunção do ato sexual realizado efetivamente com alguém do seu convívio, o possuído atribuía as consequências desse  ato (polução noturna dos homens, gravidez indesejada em freiras e resquícios de secreções em mulheres casadas quando estas não praticavam sexo com seus maridos) à ação maléfica de seres demoníacos durante o sono.

O pavor a esses seres das trevas, que perturbavam o sono das pessoas com o intuito de possuí-las sexualmente, foi muito intensificado pela ação da Igreja Católica,  que, objetivando infligir medo e receio com relação a eventos naturais da sexualidade  humana, mascarou tais ocorrências com uma motivação diabólica. A alegativa da Igreja  era a de que o homem de Deus deveria purificar-se e distanciar-se dos prazeres carnais  a fim de chegar a Ele; caso o homem insistisse em ceder às tentações, estaria  compactuando com as entidades ligadas ao maligno. Muitas vezes, porém, os íncubos serviram para camuflar a exploração sexual masculina em relação às mulheres, que após  terem sua alcova invadida por um homem comum acreditavam terem sido possuídas por  um demônio que assumiu a forma de homem. Com relação aos camponeses, estes  sofriam, mais do que a nobreza, os impactos do fanatismo religioso, haja vista o fato de  o número de mulheres camponesas queimadas nas fogueiras da Inquisição, acusadas de bruxaria, ser superior ao número de mulheres aristocratas. No meio campesino, a fé  católica exercia maior influência na mente e nos hábitos das pessoas, pois, ao contrário  da nobreza, os camponeses não tinham prestígio e nem posses que lhes valessem, caso  fossem acusados pelos tribunais inquisitoriais.

Vale ressaltar, contudo, que a ideia de entidades ligadas ao sexo, que travam  relações  sexuais com humanos, tem origem bastante anterior à Idade Média, e faz parte  do imaginário de várias culturas, não só da cultura europeia, mas até a do Oriente, pois  há registros bastante contundentes, embora raros, que atestam a crença de alguns  povos orientais na existência de seres possessores. A amplitude desta temática não só  possui uma dimensão espacial, estando presente tanto no imaginário do Ocidente como  na do Oriente, mas também possui uma dimensão temporal, pois muito antes da Idade  Média, já quando existiam as lendas pagãs celtas, a ideia do íncubo e do súcubo está  presente, como podemos observar na lenda do rei Arthur, cujo mestre, o mago Merlim,  seria filho de uma mulher terrena com um demônio (desse parentesco, o mago teria  herdado sua essência mística). É comum em todas as culturas que possuem a  representação dos demônios do sexo, possuírem estes uma beleza fora do comum e  irresistível. Na Idade Média, a imagem dos íncubos e súcubos era asquerosa, grotesca e  bestial, porém, quando do momento da possessão, eles se revestiam de uma beleza sem  igual; consumado o ato, reassumiam a forma original repugnante.

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