26/10/13

Filomena Borges, de Aluísio Azevedo

 Aluísio Azevedo - Filomena Borges - Iba Mendes
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Os livros estão em ordem alfabética: autor/título (coluna à esquerda) e título/autor (coluna à direita).

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Philomena Borges


A história de Philomena Borges se passa no Rio de Janeiro, no século XIX.  Considerada a “flor das moças do Catete”, ela é filha de D. Clementina de Araújo e  de um burguês conselheiro do império.

Acostumada  à  vida  relativamente  confortável  e  também  de  exposições  sociais,  Philomena  cresce  presenciando  os  gastos  sem  previdências  do  pai  com  jogos,  chás  da  tarde  e,  nas  palavras  de  Aluísio  Azevedo,  confeitarias.  Apesar  dos   esbanjamentos, o político português sabia como conservar as conveniências de sua  posição social e proporcionava reuniões famosas pelos seus requintes.

Philomena  apreciava  passar  horas,  afastada  em  jardins,  olhando  o  céu  estrelado a sonhar. Era a típica moça sonhadora que aos quinze anos vivia rodeada  por novelas românticas a ler madrugada adentro.

Sempre  bonita  e  de  olhar  ausente,  ela  apenas  marcava  presença  nas  reuniões de sua casa como um bibelô no canto da sala, às vezes tocando piano, na  maioria das outras apenas com olhar distante, o cabelo ora preso sobre a nuca, ora  solto  sobre  os  ombros,  o  pescoço  levemente  à  mostra,  o  corpo  obedecendo  às  regras do espartilho e as mãos cruzadas em descanso sobre o ventre.  


Pela época de seus dias de debutante, o pai de Philomena falece, vítima de  uma  apoplexia  e  a  deixa,  ela  e  a  mãe,  com  um  amontoado  de  dívidas.  Apenas  o  prédio onde moram não é constado na lista de penhores, pelo fato de ser herança  da  órfã.  Além  disso,  antes  de  falecer,  seu  pai  havia  sido  amigo  do  Imperador,  portanto, este acaba por beneficiar as duas.

A  partir  de  então,  D.  Clementina  acredita  que  apenas  um  bom  casamento   para sua filha pode salvá-las de um rebaixamento social. E não cogita a hipótese de  trabalhar para sobreviver, pois, para ela isso seria vergonhoso.

É  nesse  momento  que  a  progenitora  inicia  uma  caçada  incansável  por  um  marido  para  Philomena.  Para  tal  investida,  elas  trocam  a  casa,  por  uma  inferior  e  gastam o mínimo que ainda lhes resta, por parte das ajudas do imperador, em festas  em casas de condes e, às vezes, em seu próprio lar, assim como em vestidos para a  moça ser vista pelos pretendentes.  

or esta época, João Borges, um homem de meia idade, também conhecido  como  João  Touro,  casualmente  faz  uma  visita  à  casa  de  D.  Clementina,  para  acompanhar  o  amigo  Guterres.  De  imediato,  o  homem  pacato  e  rústico,  filho  de  português  e  conhecido  na  Praça  do  Comércio  como  um  exímio  trabalhador  que  acumulou  fortuna  razoável,  vê-se  encantado  como  nunca  pela  pequena  que,  naquele momento, cantava ao piano, um romance de Tosti.   Desse  momento  em  diante,  o  homem  caturro,  que  tinha  fama  de  jamais  ter  olhado  uma  mulher  com  interesse,  fixa  a  idéia  de  pedir  a  mão  de  Philomena  em  casamento.

A mãe da jovem sonhadora, preocupada com o futuro da filha, expunha-a aos  seus  pretendentes  durante  as  reuniões  sociais,  na  expectativa  de  que  algum  pudesse se tornar esposo da moça. Porém, as recusas de Philomena (ora pelo fato  de  o  pretendente  ser  alto  demais,  ora  por  ser  gordo,  ora  por  não  ter  postura  de  lorde), acabavam por intensificar a angústia da mãe pela pobreza iminente. 

 Mesmo  diante  da  angústia,  a  própria  mãe,  de  certa  forma,  acabava  incentivando  a  jovem  a  se  comportar  assim,  ensinando-lhe  que  havia  algumas  “classificações”  para  a  escolha  de  um  bom  partido.  Tais  classificações  variavam  desde  o  tipo  de  marido  ‘ótimo’,  ‘bom’  até  o  ‘ruim’.  Diante  disso,  D.  Clementina  afirmava  que  haveria  de  aparecer  um  homem  rico,  acima  da  média  dos  que  procuravam  pela  filha.  E  nessas  considerações,  ao  conhecer  João  Touro,  a  mãe   inicia sua corrente de argumentos à filha na esperança de que ela decidisse por ele  mesmo, pois, era o mais abastado do que todos os outros.

Mas,  Philomena  ainda  teve  que  assistir  à  morte  da  mãe  e  esperar,  depois  disso, seis meses para aceitar o pedido e se casar com Borges. Mesmo não sendo  ele seu ideal de marido, ela decide contrair núpcias para poder sobreviver na selva  burguesa.  Tomada  esta  decisão,  a  moça  traça  algumas  metas  para  transformar  o  marido, a todo custo, no seu projeto do homem ideal.

E a demonstração de seus planos começa já na noite de núpcias, quando ela  o  expulsa  do  leito,  obrigando-o  a  dormir  fora  do  quarto.  Durante  muito  tempo  a  situação permanece sem alteração, mesmo com os agrados constantes de Borges à  esposa, do cumprimento de todas as exigências dela, as quais, finalmente, acabam  por  modificar  profundamente  o  pacato  marido,  além  de  levá-lo  à  ruína  econômica.  

Quando, então, o casamento é concretizado.

Borges faz tudo pelo sentimento que dedica à esposa, mas nunca chegará a  desfrutar  do  que  deseja  acima  de  tudo:  paz  e  tranquilidade  ao  lado  de  sua  Philomena.


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Fonte:
Giane Taeko Mori Rodella: “A representação feminina nas obras de Aluísio Azevedo e 
Júlia Lopes de Almeida – O ethos dos autores pelos  enunciadores”. (Dissertação apresentada ao Programa de  Pós-graduação  em  Semiótica  e  Linguística Geral da Universidade de São  Paulo para a obtenção do título de Mestre  em Semiótica e Linguística Geral.   Orientador:  Prof.  Dr.  Antonio  Vicente  Seraphim Pietroforte). São Paulo, 2010

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