05/09/15

Sá de Miranda e a sua Obra, de Décio Carneiro


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Sá de Miranda: Os estrangeiros

Foi a partir de 1526, após retornar de sua célebre estada na Itália (para onde partira em 1521), que Sá de Miranda começa a pôr por obra o seu projeto de reforma das letras portuguesas, orientado e incentivado pelo pujante movimento de renovação, de revivescência dos arquétipos greco-latinos, que para as terras italianas, justamente, o aliciara. Recorde-se que Erasmo, em carta a Anne de Verre, de quem espera o apoio pecuniário que lhe possibilite pôr-se a caminho da Itália, afirma ter-se-lhe tornado necessária a viagem, antes de mais nada, “para dar à minha pequena ciência a autoridade dessa ilustre estância”.

De regresso daquelas paragens rutilantes, desiderato de tantos intelectuais e artistas de seu tempo, escreve então Sá de Miranda, porventura em 1527, a comédia Os estrangeiros, materializando um objetivo ponderoso: Transplantar para Portugal, “cabo do mundo”, a exemplo do que tinham efetuado, em língua italiana, autores como Ariosto e Bernardo da Bibbiena, o paradigma cômico latino, constituído pelas peças de Plauto e de Terêncio. Estes são, por sinal, a par de Ariosto, os dramaturgos a que se reporta o poeta, assim especificando seus modelos, no texto em que oferece sua obra ao cardeal D. Henrique.

No prólogo de Os estrangeiros fala a própria comédia; ciente de ser uma estrangeira, isto é, de tudo que a distingue do que em Portugal se tem costumadamente por teatro – o auto vicentino, em primeiro e prestigioso lugar –, antecipa a personagem o desconcerto, talvez o desdém zombeteiro, com que há de por certo acolhê-la um público incapaz de a identificar. Sá de Miranda está a acentuar, com efeito, o ineditismo de sua empresa; por outro lado, não se inibe de indigitar a ignorância da platéia, ao fazer-lhe uma preleção – breve, é verdade – acerca da origem grega da comédia, de sua transplantação para Roma e do brilho com que aí floresceu, da sorte funesta que lhe veio da derrocada do fastígio romano, e da exumação recente, enfim, que a fez assomar de novo aos palcos, e aos da Itália, primeiramente, donde está vindo ela a este “cabo do mundo”, Portugal, em que haverá talvez quem a deseje, confundido por seu nome, comê-la. Epítome chistoso, e um tanto presunçoso, porventura, reminiscente dos 105 prólogos polêmicos de Terêncio, em que se adverte o intelectual enfronhado nos modelos dramáticos antigos (e nos modernos que os imitam) e mais que tudo empenhado, contra a veia plebéia dos autos, em fazê-los prosperar em solo português: abona-os, de resto, a ilustre genealogia greco-latina, aduzida oportunamente pelo autor. Marca dessa intenção programática é a observância estrita, em Os estrangeiros, das unidades de ação, de tempo e de lugar; outra característica relevante é o emprego da prosa, neste caso em lugar da redondilha e dos chamados versos de arte maior, e a mais a divisão da peça em cinco atos.

No prólogo de sua Calandria, assinala Bernardo da Bibbiena: “Voi sarete oggi spettatori d‟una nova commedia intitulata Calandria: in prosa, non in versi; moderna, non antiqua; vulgare, non latina”. “Moderna” quer dizer coetânea do autor, na ambientação, com tudo que isso acarreta à determinação dos caracteres, da temática, da linguagem, etc., o que, de fato, não obsta à assimilação do paradigma antigo, plautino e terenciano. Somada essa última às características apontadas por Bernardo da Bibbiena, obtém-se, com efeito, o programa sumário da comédia como a concebia Sá de Miranda, a comédia do Renascimento, também denominada comédia erudita.



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Fonte:

Eugênio Gardinalli Filho: “A Comédia Erudita em Portugal: Sá de Miranda (Tese de doutorado. Orientadora: Profa. Dra. Maria Helena Ribeiro da Cunha.  Área de Concentração: Literatura Portuguesa São Paulo. Universidade de São Paulo - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas). São Paulo, 2009.

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