07/09/2015

Oliveira Martins: Estudo de Psicologia (Ensaio), de Moniz Barreto


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O Político
Tendo escrito a História de Portugal, o Sr. Oliveira Martins resolveu continuá-la e naturalmente o pensamento conduziu-o à ação.
Não entra no programa deste estudo ocupar-me de assuntos de política contemporânea, sobretudo quando trato de um homem cuja carreira pública apenas começa. Mas fazendo um trabalho de psicologia e não de simples crítica literária, não me é lícito calar uma das manifestações mais importantes do espírito que analiso. Porém indicarei apenas o valor dos seus recursos e a tendência geral das suas ideias como homem de estado.
As faculdades que fazem o homem de ação em cada esfera da atividade humana, são essas mesmas que fazem o homem de ciência, mais o tino das circunstâncias particulares. As do estadista são as do historiador; digo as do historiador e não as do sociologista, porque o conhecimento das leis abstratas que regem o equilíbrio e o movimento das sociedades, não é suficiente para dirigir a ação conservadora ou modificadora dos governantes; é preciso reunir-lhe o vivo sentimento do concreto, a visão plena dos inumeráveis fatos particulares que dão a um povo um caráter individual e fazem que nenhuma dedução abstrata o possa adivinhar. Pense-se na imensa complexidade do organismo coletivo, no caráter profundamente individual que uma sociedade reveste em virtude das circunstâncias de raça, meio e momento, na obrigação de conhecer plenamente a força e a direção das vontades, a energia e a profundidade dos instintos, a vitalidade e a duração dos preconceitos, as necessidades materiais ou morais, reais ou fictícias dos seus membros, reflita-se na obrigação de conhecer essas forças na sua quantidade exata e na sua direção certa, nas proporções variadas em que elas se combinam e nos sistemas complicados que delas resultam, medite-se que cada um dos fatos presentes tem profundas raízes no passado e consequências inevitáveis no futuro ainda o mais remoto, e ver-se-á que essa improvisação maravilhosa e certeira que se chama a arte de governar, consiste na visão adequada e perpétua, retrospectiva e profética das almas sobre que ela se exerce, e que a política é psicologia ativa e em ponto grande. Note-se enfim que o hábito da representação concreta degenera facilmente no empirismo e que a habilidade técnica descamba no especialismo estreito, para se admirar ainda mais a plasticidade mental dos que conservam intato sob a ação das questões quotidianas o sentimento dos interesses gerais e caminham através dos expedientes com olhos fitos nas ideias.
Estas qualidades parecem reunir-se no Sr. Oliveira Martins. Essa visão poderosa e plena, essa representação verídica e intensa dos caracteres, esse golpe de vista sagaz e profundo mergulhado no íntimo dos corações, que faz o encanto e a força dos seus livros, podem guiá-lo nos seus atos; as mãos acostumadas a fazer a autopsia das almas no anfiteatro da História, não são impróprias para jogar os lances da política. O hábito de ver as cousas de alto, próprio do historiador, arrancão aos trilhos mesquinhos em que se perde o espírito da rotina e do expediente. Artista pela visão colorida e palpável da realidade, é-o também pela intuição magnífica do ideal. A imaginação construtiva anda nele ligada ao sentimento do real e do exequível. E tendo aquele exato bom-senso e aquela eficaz percepção do possível, que resulta da prática dos homens e da vida, possui contudo aquela largueza de vistas e aquele desejo do melhor, que provém da convivência das ideias e do trato dos livros.
Será esse ideal realizável e esse tino prático suficiente? Os sucessos di-lo-ão. Não é porém difícil apontar desde já no sentimento da força própria e no generoso instinto do dever cívico as causas que o fizeram passar do pensamento à ação, e mostrar a clara coerência que liga as suas opiniões de ontem aos seus atos de hoje, e os seus vinte anos de história aos seus dois anos de política.

Tal é essa figura interessante e rara. Homem interior, isto é, dotado de imaginação psicológica, admirável na representação dos acidentes do aparelho mental e dos sobressaltos da máquina sensível, toda a sua obra se ressente e vive desta aptidão primordial, que constela os seus livros de retratos verídicos e profundos, de paisagens vivas de narrações dramáticas. Capaz de operações abstratas, a razão científica completa nele a imaginação poética, e a análise explicativa anda ligada ao colorido intenso. Sujeito às emoções veementes e frequentes, sobre tudo às de ordem moral, isto é, a compaixão, a admiração, a indignação, e o desprezo, a sua obra, dramática pela lógica e pela vida, sê-lo-á também pela paixão; mas a intuição do psicólogo e a reflexão do filósofo hão de envolvê-lo num nimbo de indulgência, de ironia e de tristeza. Empregando um estilo em que parecem reviver e encarnar todas as qualidades da sua alma, sucessivamente enérgico e suave, entusiasta e sarcástico, e cujo tecido flutuante e ágil acompanha como uma púrpura amarrotada e resplandecente os movimentos bruscos do seu espírito. Lançado na política pela energia do sentimento moral e importando para a Ação a elevação do filósofo e a perspicácia do homem prático, e pondo ao serviço das aspirações do moralista a habilidade do psicólogo. Uma relação íntima liga entre si todas as partes do seu talento e faz derivar dele todos os aspectos da sua obra.


[Trecho do Livro]

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