12/09/15

Cousas que só eu sei (Conto), de Camilo Castelo Branco

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O brasileiro na obra de Camilo Castelo Branco

A época da Independência constituiu-se, portanto, como um primeiro período privilegiado para se apreender as imagens e representações, próprias a cada uma das respectivas elites políticas e intelectuais, indicando os valores distintos que uma cultura política comum tinha a capacidade de assimilar. Objetivos e anseios distintos levaram à elaboração de imagens entre colônia e metrópole, que perduraram ao longo do século XIX e que podem ser encontradas, inicialmente, na polêmica estabelecida entre os principais jornais e folhetos da época, tanto aqueles publicados no Brasil, quanto em Portugal. Do lado de cá, os brasileiros viam nos escritos impressos em Lisboa um meio para "inflamar os espíritos e promover a desunião do Brasil", devido aos insultos que traziam. Do lado de lá, os portugueses procuravam ressaltar a ingratidão do Brasil em relação à Pátria-Mãe, que lhe concedera tantos benefícios sob a forma do constitucionalismo, ao buscar nesse momento quebrar a integridade do império através de sua separação. (Lúcia Maria Bastos Pereira Neves, Brasil e Portugal: imagens e percepções distintas entre povos irmãos ao longo da primeira metade do oitocentos, 2005).

A figura do brasileiro na literatura portuguesa só aparece com destaque a partir das novelas camilianas. Até então, havia apenas o interesse pelo comércio e pela emigração nessa relação luso-brasileira. Alexandre Herculano escreveu Futuro Literário de Portugal e do Brasil, na Revista Universal Lisbonense, de 1847, e comentou a respeito do avanço do progresso literário no Brasil e sobre o acontecimento da literatura portuguesa em terras brasileiras. A ótica de Alexandre Herculano sobre o Brasil é outra, diferente da de Garrett. Para Herculano, o Brasil representava um grande mercado de obras literárias portuguesas, uma visão até certo ponto mercantilista, enquanto para Garrett o cenário brasileiro apresenta-se de forma valorosa, substancial, quanto à questão especificamente literária.

Camilo Castelo Branco apresenta uma obra volumosa e repleta de aspectos culturais atinentes ao Portugal do século XIX. Apresenta diversas facetas da sociedade e persiste na utilização dos morgadios e de velhos preconceitos, apontando assim para os aspectos arcaicos, em relação às literaturas inglesas e francesas, de sua obra. Um inconformismo marca a biografia de Camilo, e a sua literatura será espelho desse 34 sentimento: antipatia pelo espírito burguês, à caça ao lucro e ao dote, e críticas severas ao brasileiro. É através da expressão caricatural, sobretudo, que o autor expressa suas críticas, utilizando-se, ao mesmo tempo, de uma linguagem sarcástica e cheia de densidade, objetividade e de persuasão. Camilo retrata com fidelidade as figuras nortenhas de seu tempo, alcançando a análise que talvez nenhum outro ficcionista tenha conseguido realizar.

A relação luso-brasileira de Camilo inicia-se quando, após uma desilusão amorosa, em 1855, o escritor decide ir para o Brasil e esquecer o passado angustiante. Tal decisão deu-lhe o adido honorário na delegacia portuguesa do Rio. Mas Camilo não consegue vir para o Brasil concluir seus planos e decide então ir para o norte de Portugal, onde encontra um intenso movimento emigratório para o Brasil.

No ano seguinte, em 1856, escreve A Neta do Arcediago, uma primeira história denunciadora do olhar crítico e preconceituoso do autor em relação à imagem do brasileiro. Uma sensual mulata brasileira dá a luz a um filho de um nobre português. O escritor transmite a esse filho um caráter tortuoso, cheio de comportamentos indignos perante a sociedade. Representa-se aqui a importância dessa obra camiliana por dois motivos: uma das primeiras presenças da mulher brasileira em sua obra e a transferência de toda a tragédia do romance ao filho da mulata, o brasileiro. Vale ressaltar que o jovem brasileiro por diversas vezes é tratado como o "filho da mulata". O retrato do brasileiro é notadamente marcado por Vieira:

Nas primeiras melodramáticas e românticas novelas de Camilo, essas figuras impulsionam a acção e são mostradas como exemplo das riquezas ganhas do Brasil. Os portugueses brasileiros são descritos como truões materialistas, gordos e burgueses, em evidente contraste com os jovens idealistas portugueses, desafiando tudo e todas para o campo amoroso. Os brasileiros são desdenhados e ridicularizados pelo ultra-romântico, antiburguês e satírico Camilo, por serem contrários ao ideal romântico. Eis porque eles, seu mundo e contactos com o Brasil são descritos pejorativamente. Através de tais personagens, o Brasil entra indirectamente nas primeiras novelas românticas de Camilo. (VIEIRA, 1991:86)

Nessa passagem, Vieira oferece um possível entendimento de toda a caricaturização feita por Camilo dos portugueses brasileiros, quando aponta o nãocumprimento do ideal romântico por parte destes. Decorre então toda a descrição torta e defeituosa do tipo aqui analisado. São os ideais românticos portugueses não sendo seguidos, nem respeitados pelos brasileiros.

Um outro acontecimento, a visita do Imperador do Brasil a Portugal em 1871, aproxima o brasileirismo à obra de Camilo Castelo Branco. Tal visita de D. Pedro não é bem recebida por parte dos jovens portugueses. Camilo, mesmo tendo em sua mente já alguma visão sobre a brasilidade, recebe em sua casa o Imperador e se vê, em alguns momentos, tendo que agir em defesa de D. Pedro. É justamente neste período que surgem incisivamente os pseudobrasileiros e os verdadeiros brasileiros nos romances camilianos. Na verdade, poucos são os brasileiros nativos, fazendo valer significativamente no roteiro bibliográfico do escritor a presença dos retornados, dos portugueses brasileiros, sendo sempre vistos de forma depreciativa pelas outras personagens dos romances.

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Fonte:
Fábio André Cardoso Coelho: "Personagens brasileiras no romance português do século XIX". (Dissertação apresentada ao Programa de Pós-graduação em Letras – área de concentração em Literatura Portuguesa, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, como requisito parcial à obtenção do título de mestre. Linha de Pesquisa: Literatura Portuguesa e outros campos do saber Orientador: Prof. Dr. Sérgio Nazar David). Rio de Janeiro, 2005.

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