09/08/15

Laudas Inéditas (Poesia), de Augusto de Lima

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Araripe Júnior

Nunca é tarde para mandar-se um brinde a um poeta, a quem as vozes da admiração dos amigos afagam, fazendo-lhe uma justa festa de chegança.

Não é verdade que se deveria sempre soltar uma girândola de foguetes, ou dar um tiro de bacamarte, como em certas solenidades se pratica no sertão, quando nasce uma árvore frutífera rara em um pomar ou se descobre uma flor de espécie não classificada?

Com maioria de razão deveriam repicar os sinos da freguesia e a irmandade do S. S. Apolio tomar a opa e os tocheiros para levar à pia batismal o poeta recém-nascido, consagrando-o com o nome, pelo qual o mundo das letras o apregoará tanto na vida como na morte.

Receba, pois, o poeta das Contemporâneas estas palavras saídas do coração; e, em falta de melhores, guarde-as, não pelo que valem, sendo, como são, frutos de pouco sabor, mas pelo que, no intento de quem as prefere, elas pretendem simbolizar – o entusiasmo franco causado por um livro – a sensação deliciosa de uma leitura comunicativa.

Não critico aquilo de que me apaixono; e o livro que tenho diante dos olhos acha-se perfeitamente neste caso. Sinto-o, como se sente a aura blandiciosa em um clima tropical, morno e anestésico; percebo-o, como se percebe o gárrulo, iriante e festivo guainumbi; observo-o, como se observam os tons coloridos pela luz eclíptica do sol em uma tarde de Agosto; penso-o e repenso-o, como se pensa o mistério da existência e o movimento do universo. E tenho dito tudo e não tenho dito nada, porque, para que a satisfação fosse completa, seria talvez necessário fazer o que fazem as crianças em sua ingênua perversidade – abrir de meio a meio o pacto, lascar o brinquedo que nos encanta, que produz tão belas harmonias, para consultar-lhe as entranhas, o mecanismo interno e verificar a explicação de tantos e tão caprichosos efeitos – e depois... depois, como certos aristarcos ou como a boa constritor, acariciar a vítima com a baba, para, em seguida, devorá-la, putrefazê-la nas voltas intestinais.

Isto, porém, é o que não perpetrarei por forma alguma. Autopsiam-se os defuntos. Com os vivos pomo-nos apenas em relação de ódio ou simpatia. Demais, a crítica já disse quase tudo e, pela pena esperançosa de um Lívio de Castro, já deu até a fórmula do poeta. O que poderia eu acrescentar se não uma pálida nota à margem desses justíssimos juízos?

Que o talento do autor das Contemporâneas é um talento formosíssimo em toda a intensidade do superlativo? Que esse talento não sofre nem de máculas, nem de hesitações, nem de deliquescências, nem de pedantismo? Que é um talento sadio e franco, espontâneo e seguro, sereno e azul – tão sereno como uma manhã de minha terra natal, tão azul como os olhos de Julieta, com que provavelmente cisma?

Não. Um poeta assim se explica por si – dando-se a ler – deixando que a alacridade diante de tão lindas páginas traduza-se por si e que o orgulho nacional se expanda ao ver um espécime de poesia tão nova, tão balsâmica, tão nossa.

Não se trata de um parnasiano que se tortura pela forma, nem de um blasé, um decadente, que refine o sentimento, nem de um filósofo que tente as cosmogonias novas, nem de um platônico que definhe a olhar para a lua, mas de um espírito profundamente colorido nos dons de expressão, amante das grandes linhas, que pensa quando sente e que sente quando quer, dando à sua lira todas as inflexões que comporiam uma alma francamente apreensiva das belezas da vida e da vida de sua terra.

Nas Contemporâneas, e é o que nesse livro mais me apaixona, a poesia circula como a seiva em uma árvore florida e vigorosa. Cambiante em tudo, a imaginação do vate surge em toda a parte e não se deixa apatetar na contemplação exclusiva de um aspecto único.

Panteísta na poesia “Através dos séculos”, cético no que conserva este mesmo título, místico no “Amor”, ateu nos “Dois Cristos”, fetichista no “Polvo”, “Lágrimas do Regato” e na “Cólera do Mar”; contudo, ali vai banhar-se nas forças colossais do século, para surgir logo adiante incandescente de transformismo e irradiante de amor brasílico.

O que resta agora é que o poeta não se deixe cair na modorra tropical e saiba viver.., viver com toda a força e intensidade a que tem direito o seu gênio artístico, e que, neste momento supremo, em que parece que o Brasil gravita para o seu verdadeiro centro econômico, e que alguma coisa de novo vibra no organismo social, não se engolfe entre as tetas de terra que lhe circundam na roça a mansão poética, e concentrando-se em espírito no poema que atualmente elabora – “A Vida” – consagra um canto à festa de recepção dos legionários do progresso, que, diariamente, de todos os pontos da Europa, irrompem através do Atlântico, em demanda das nossas florestas portentosas.


Araripe Júnior.

A Semana, de 11 de fevereiro de 1888.

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