04/06/15

A República vista do meu canto, de Duarte Paranhos Schutel

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A 15 de Novembro passava o poder para as mãos do primeiro Presidente civil; o partido sentiu que se tor­nava possível escapar-lhe o poder, justamente quando o absolutismo o deixava inteiro e, ousado, arriscou um golpe que lhe garantia na ficção de um protetorado a segurança da existência e efetividade de ação.

O tempo entretanto deixava sobre seus passos o germinar de sementes que mais tarde desenvolvidas dariam plantas diversas.

O Partido Federal havia-se apossado das formas despóticas e do regime militar como pretendida heran­ça ou doação do Ditador; de outro lado o Governo Civil na sua aspiração de liberdade evitava todos os choques perigosos contemporizava atento aguardando a ação do tempo.

Com efeito, naquele acervo que vivera aglomerado em virtude da lei fatal da conservação, se foi desenvol­vendo uma série de elementos que viviam e cresciam à custa da própria vida do partido. Difícil se tornara con­tentar as exigências de tão numerosos e variados ele­mentos pois, o Partido era um só em todo o país e o único distribuidor de posições.

Com a maior reserva pelo temor de ser lançado ao ostracismo, começou a formar-se descontentes ou des­peitados que com cuidado investigando as camadas diversas do Partido foram discriminando os pontos fracos e as necessidades que só eram vencidas pela força, o temor e a falsidade.

De seu lado, já a direção do Partido sentia queimarem-lhe nas mãos as rédeas tão violentamente distendidas pela impetuosa desfilada em que se precipita­vam os negócios públicos. Sentia já que esse enorme conglomerado era demais pesado para ser mourejado e que as fendas já riscadas na grande massa se iam abrin­do e aprofundando; era portanto necessário maior pressão e ensaiar recursos para algum momento crítico.

A Vice-presidência serviu para esse plano. Mas quando parecia caminhar desassombrado essa campa­nha, a volta do presidente, talvez prevenido, desfez todo o manejo do Partido que mostrara tê-lo posto à margem.

Estabeleceu-se então uma verdadeira crise e só faltava o pretexto.

O levantamento dos alunos militares veio fornecer as bases do movimento, e a Moção Seabra foi a causa ocasional ou pretexto.

O chefe do Partido se declarou em oposição ao governo com a qual tinha alguns diretores − não havia remédio − fez-se a cisão ficando uma parte a favor do Presidente e outra em oposição à ela.

A imprensa que era unânime em razão do atenta­do aos jornais oposicionistas, teve de dividir-se, dando o exemplo os órgãos do Partido que abriram guerra ao governo, sem que esse tenha ainda imprensa sua; os que se pretendem neutros se inclinam em favor do po­der.

Passando da luta de impropérios à discussão che­garam afinal a conhecer ou antes a confessar o vazio que existia no Partido, e portanto o vazio que subsiste nos dois grupos atuais.

São dois partidos constitucionais, dizem batendo palmas, e a República vai bem por isso, era indispensá­vel para um bom governo. Mas partido constitucional pressupõe um inconstitucional e deste não há notícia.

Em primeiro lugar, ser constitucional não é pro­grama é dever.


Em segundo lugar, se ambos são constitucionais, eles não se distinguem, são um só partido.

[Trecho da obra]

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