05/04/15

Bibliologista: a Literatura através dos tempos (Crítica literária histórica), organizado por Iba Mendes

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Elogio de Castro Alves


Eis a obra de Castro Alves, senhores; e a sua obra é a sua vida. A mão da morte apagou-o dentre nós; mas a glória restituiu-o ao horizonte como a estrela da manhã para o cativeiro.
Doa, como doer aos dissecadores de gênios, o nome dele há de ligar-se indelevelmente a uma das fases mais decisivas da história nacional, e a sua poesia é bela dessa beleza indefinível, ante a qual a alma não enumera, não esquadrinha, não argumenta: comove-se, quando não ajoelha. É bella, perchê é bella.
Na graça e na cólera os seus versos lampejam frequentemente com alguma coisa de Ésquilo e Dante; com Shakespeare, o grande mergulhador do coração humano, creríamos que foi buscar alguma vez para a sua obra pérolas e monstros desse pego; compete não raro com Hugo na magnificência oriental do colorido; e, quando chora, que alma sensível não murmurará conosco:
Também sabes chorar, como Eloá!
Já vos disse, senhores: crítico não sou, nem tive em mira uma crítica. Exprimo emoções. Não quero outro comentário, nem outra consagração para o nosso poeta. Exprimo emoções; e a vossa me basta: ela me justifica, e atesta a minha fidelidade.
Agora, a justificação do decenário está em que esse sentimento vosso não se circunscreve a este recinto: retreme, como em vós, no coração do país. Senão, ouçam o seu eco na capital do Império. É que Castro Alves escreveu o poema da nossa grande questão social e da profunda aspiração nacional que a tem de resolver.
Pulsa a liberdade até nas suas canções de amor. É como se ela fosse para o bardo o que, nas primitivas crenças da Hélade, era Zeus – a natureza e a vida universal: “Zeus é o ar, Zeus é o céu, Zeus é a terra, Zeus é tudo quanto possa haver acima de tudo”. Ele sentiu, porém, que a liberdade de uma raça fundada na servidão de outra é a mais atroz das mentiras; percebeu que a história da nossa emancipação nacional estava incompleta sem a emancipação do trabalho, base de toda a nacionalidade; e fez da conjuração de Minas o berço, não só da nossa independência, como da libertação futura das gerações condenadas ao cativeiro pela política dos nossos colonizadores e pelos interesses dos traficantes. “Não mais escravos! não mais senhores. Liberdade a todos os braços, liberdade a todas as cabeças!”: é o brado que reboa da alma flamejante de Gonzaga; é a nota perene de toda a obra poética e dramática de Castro Alves.
Ora, o elemento servil é o cunho negro de toda a nossa história, e a extinção do elemento servil será a fímbria luminosa de todo o nosso futuro. A ignomínia que barbariza e desumana o escravo, conspurca a família livre, escandaliza no lar doméstico a pureza das virgens e a castidade das mães; perverte irreparavelmente a educação de nossos filhos; atrofia a nossa riqueza; explica todos os defeitos do caráter nacional, toda a indolência do nosso progresso, todas as lepras da nossa política, todas as decepções das nossas reformas, todas as sombras do nosso horizonte. O abolicionismo é a expressão da mais inflexível das necessidades sociais. Quando a uma lei destas chega o momento providencial da sua verificação, a linguagem dos que condenam como incendiária a propaganda precursora lembra a insânia do persa açoitando o Helesponto. “Ó tu, água amara”, clamavam os flageladores, “eis o castigo que nosso amo te impõe. Há de atravessar-te el-rei Xerxes, queiras, ou não. Com razão ninguém te oferece sacrifícios, falso mar! pois não és mais que um pérfido rio d’água salgada”. O mar que engolira as mil e duzentas trirremes da esquadra subjugadora, ria, na sua espuma, dos fustigadores impotentes, e Heródoto reproduz-nos as apóstrofes do velho monarca oriental, indignado contra o filho, sacrílego insultador da divindade marinha. “Esperava ele, mortal, levar de vencida todos os deuses?” O acesso de pueril loucura desaparecia, para não deixar ver aos olhos do crente senão a impiedade profanadora. Mas os deuses universais hoje são as leis que regem irresistivelmente o mundo, e cuja fatalidade esmagadora não perdoa à ímpia inépcia dos violadores da ordem eterna.
Desses, felizmente, entre nós, se ainda existem, são átomos perdidos no seio da civilização brasileira: cumpre consigná-lo, não aqui, onde ninguém o ignora, mas ante o mundo, em cuja opinião errôneas apreciações e falsas notícias podem ir-nos fazendo passar como um povo ainda não convencido da ilegitimidade da escravidão e da urgência de aboli-la. Cumpre afirmá-lo ante o mundo, aonde a minha voz não pode chegar, mas a vossa chegará certamente. Diga então ela por toda a parte a verdade: diga que o Brasil não sente menos do que a Europa a perversidade e a indignidade desta instituição; que ele vê empenhada na solução deste problema a fibra mais vital do seu ponto de honra.
É um estigma que lidamos suprimir, e a cujo contacto as faces desta nação, tão generosa quanto possa ser o velho mundo, purpureiam-se desse rubor sombrio que, no Paraíso da Divina Comédia, afogueava de indignação e vergonha a face do céu.
Eis o que eleva Castro Alves à altura de um poeta nacional, e bastante eminente para representar uma grande manifestação da pátria: é que a alma da sua poesia é a aspiração culminante do país. Nos seus cantos geme pela liberdade o passado, pugna o presente, e triunfa o porvir.
Desse porvir pelas perspectivas infinitas é grato aos homens de fé estender olhos ansiosos. Elas encerram inspirações inexauríveis, como a grande arte da antiguidade, em que a obra prima de Fídias, o templo de Atené, tocando o limite do gênio humano, parece ter deixado à posteridade a profecia divina da civilização. A investigação artística, fundando-se no hino homérico, buscou recompor na frontaria oriental do Parténon, gasta pelo perpassar de mais de vinte séculos e profanada pelo barbarismo cristão, a epopéia, viva no mármore, no oiro e no marfim, do mestre dos mestres: o nascimento da deusa que presidia aos destinos e representava o gênio de Atenas. Segundo a mais plausível das suas interpretações, o sublime poema de pedra exprimia “a emoção causada pelo nascimento de Minerva nas três regiões do mundo: o Olimpo, a terra e o mar. É a iniciação de uma nova ordem de coisas, traduzida de um modo simbólico e plástico ao mesmo tempo. A deusa da civilização ateniense, pura filha do espírito, surde imprevistamente entre as antigas divindades, a que vinha suceder. Conjetura-se escolhido pelo artista o momento em que, depostas por ela as armas, a admiração pela sua beleza seguiu-se entre os olímpios ao terror produzido pela sua inesperada presença. Íris e a Vitória anunciam às duas regiões inferiores a aparição de Minerva. A mensagem de Íris era benévola, e figura atrair para a deusa o grupo das divindades telúricas, numes da paz e da ordem social, benfazejas e civilizadoras. Esse grupo denotava alar-se para o sol, que se levantava no horizonte, esparzindo luz: ele significava o que vinha. Diversa era a mensagem da Vitória, endereçada às divindades marinhas, símbolos das paixões tumultuosas, brutais, ou lascivas, num estado social inconsistente. Lá se vão elas fugitivas, expelidas pela presença da filha de Júpiter, com a lua que baixa do céu para sob o horizonte, levando consigo os pérfidos prazeres e os usos supersticiosos da era bárbara.” Para mim, senhores, eis a alegoria épica da lenta evolução da nossa espécie. Esse disco de baça claridade e reflexos sangrentos, que pouco a pouco se vai recolhendo para o ocidente, sob o manto da vitória, é a tradição da conquista, da violência e da escravidão, enquanto Atené, a personificação da ciência e da arte, da humanidade e da paz, ergue-se no oriente, entornando ao longe, por toda a parte, a benevolência, o espírito e a liberdade entre os homens.
Felizes, abençoados e grandes os que, como Castro Alves, podem ser um dos raios dessa alvorada!

RUI BARBOSA (Discurso)
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Índice deste Volume

  • Graça aranha a procura da terra prometida o drama e a filosofia do autor de "Canaã" (Por: Isaac Goldberg)
  • Crônicas de Malazarte (Por: Mário de Andrade)
  • Graça Aranha! (Por: augusto Frederico Schmidt)
  • Elogio de Castro Alves (Por: Rui Barbosa)
  • Ideias de 1922 (Por: Guilherme de Almeida)
  • Um poeta: Cassiano Ricardo — “Martim Cererê”
  • Como me tornei escritor brasileiro (Por: José Américo de Almeida)
  • Oswald de Andrade: a estrela de absinto
  • Ribeiro Couto: a cidade do vício e da graça (vagabundagem pelo Rio noturno) — (Por: Sérgio Buarque de Holanda)
  • Guilherme de Almeida — “A frauta que eu perdi” — (Por: Prudente de Moraes, Neto)
  • Uma viagem musical de Mário de Andrade
  • A nova poesia brasileira conferência de Renato Almeida, da a. B. E.
  • A vida anedótica e pitoresca dos grandes escritores: Coelho Neto
  • A Bico de Pena — coelho neto (Por: Walfrido)
  • Um livro anotado pelo sr. D. Pedro II (Por: Alencar)
  • “Relíquias de Casa Velha”, pelo sr. Machado de Assis (Por: Nunes Vidal)
  • Esaú e Jacó — Machado de Assis (Por: Walfrido)
  • A última visita “o ateneu” — Raul Pompeia (Por: Nunes Vidal)
  • Casimiro de Abreu (Por: José Veríssimo)
  • A vida anedótica e pitoresca dos grandes escritores: Olavo Bilac (Por: Mário de Alencar)
  • A propósito do “Brás, Bexiga e Barra Funda” (Por: a. C. Couto de barros)
  •  flores e frutos — Bruno SEABRA — rio de janeiro, 1862 (Por: Macedo Soares)
  • História da Semana de Arte Moderna (Por: Carminha de Almeida)

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