03/01/15

Pérolas e Diamantes (Contos), dos Irmãos Grimm

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Os irmãos Grimm e seu tempo

Mais de um século depois da publicação da coletânea francesa, os irmãos Jacob (1785-1863) e Wilhelm Grimm (1786-1859) vasculharam as indeterminações das histórias populares de seu país e, sob os ideais românticos, elaboraram uma seleção de narrativas que levou o título de Histórias da infância e do larKinder- und Hausmärchen, publicada em dois volumes, um em 1812 e o outro, em181537.

O objetivo dos Grimm era o de eleborar um livro, cujo autor fosse o povo, e para isto foi preciso substituir o modelo clássico Greco- romano adotado durante a Revolução francesa

“a quello dell‘antichità germanica, del Medio Evo, della voce del popolo come voce di Dio”
(CALVINO,1996, p.96). Queriam, acima de tudo,

[...] capturar a voz “pura” do povo alemão e preservar na página impressa a poesia oracular da gente comum. Tesouros folclóricos inestimáveis ainda podiam ser encontrados circulando em pequenas cidades e aldeias, mas os fios gêmeos da industrialização e da urbanização ameaçavam sua sobrevivência e exigiam ação imediata (TATAR, 2004, p. 350).

Embora não tenha sido esta a primeira tentativa de reunir, em uma antologia, a tradição popular alemã, a obra dos Grimm foi um marco decisivo no que se refere à concepção do folclore como conteúdo estético e cultural a ser estudado e preservado naquele país. Foram motivados, principalmente, pelo romantismo, pelo espírito nacionalista, pelo desejo – quase uma necessidade – de resgatar as próprias raízes, que se manifestavam nos ideais filosóficos, na fantasia e na imaginação.

A obra dos Grimm provocou um forte interesse pelas narrativas de tradição popular e estudos como os do folclorista russo Vladímir Propp, no século passado, foram significativos.

É bem verdade que a literatura essencialmente amparada na escrita e aquela sustentada pela oralidade sempre andaram juntas, dividindo espaços nos teatros, nos banquetes da Corte, em anotações de estudos, em manifestos e em várias instâncias culturais.

No caso específico da literatura alemã, as produções literárias veiculadas pela transmissão oral começaram a despertar o interesse dos poetas “menores”, já nos séculos

XVIII e XIX, conforme observou Mansueto Kohnen, em História da literatura germânica

(1962, p. 10). Kohnen constatou que esses poetas “elevaram as letras da maior decadência jamais verificada ao mais alto cume, preparando o seu advento e dando maior brilho à sua presença”. Dentre eles, destacam-se Johann Gottfried Herder (1744 – 1803), criador do conceito de “povo” na Alemanha; Achim von Armin (1781 – 1831), Clemens Brentano (1778 – 1842) que reuniram em suas obras histórias e cantos populares com a intenção de dar ao povo um texto educativo.

Muito mais que alargar horizontes, esses estudiosos foram “precursores diretos do florescimento literário representado por Schiller e Goethe” (KOHNEN, 1962, p. 43).

Sobre este segmento da literatura alemã, Kohnen contextualiza dizendo que,

a história da literatura germânica [...] aprecia todos os esforços realmente artísticos, muito embora não tenham atingido o supremo ideal. Vê, antes de tudo, nesse caudaloso rio de produções literárias, uma prova de atividade incessante. O sentimento que, primeiro poderia ser depressivo em virtude da imensidade quantitativa das produções, torna-se animador: observamos o esforço de milhares que, elevando-se acima das preocupações quotidianas, procuram os amigos futuros de suas elocubrações espirituais e poéticas (1962, p.10).

O conturbado processo literário alemão, durante a Guerra dos Trinta Anos, foi marcado pelo desaparecimento de quase tudo o que estava relacionado com a tradição popular, com a cultura e a com a arte, naquele país e só foi reaver suas conquistas literárias entre os séculos XVII e XIX. Neste período,

o romantismo revelou suas forças mais vigorosas durante quatro decênios, aproximadamente. Abarcou de modo geral, os anos de 1756 – 1835. Anunciou seu advento, no domínio nacional, durante os longos anos da escravidão, pois o romantismo retornou às fontes da própria história germânica. A História tornou-se para a geração, que se denunciou romântica, a revelação de sua essência. A germanidade (“Teutschtum”) que venceu sob

Hermann, o Cherusco, as legiões romanas e que realizou na Idade Média a grande idéia do Reich, reluziu qual estrela luminosa e “Leitmotiv” para o futuro Estado nacional. Estas tendências político-nacionais se opuseram claramente à burguesia do século XVIII, aos ideais iluministas do Estado nacionalista e à revolução. O romantismo político teve, portanto, caráter nacionalista e reacionário nos dias primordiais de seu aparecimento. Mais tarde transformou-se em romantismo sobre-nacional (KOHNEN, 1962, p. 196).

Conforme Calvino, não se pode perder de vista o espírito “nacional-popular” que animou os trabalhos dos Grimm: se tratava se um  ‘espírito’ típico da geração alemã que tinha apenas vinte anos quando seu país foi ocupado pelas forças napoleônicas. Nos Grimm, o empenho patriótico se expressou na metódica descoberta da tradição popular: nos cantos, nos provérbios e, principalmente, nas histórias elaboradas com a remota antiguidade germânica (1996).

Não foi possível, todavia, separar esse sentimento patriótico do processo de socialização. Neste sentido, os irmãos Grimm se empenharam em recolher, junto ao povo, material para as suas histórias. Também concentraram suas pesquisas na área da linguística comparada, disciplina que teve o seu desenvolvimento na primeira metade deste século e esteve ligada à filologia alemã. Observando “la parentela delle lingue europee”, Jacob e

Wilhelm obtiveram maior clareza no trato com as narrativas populares, explica Marazzini (2005, p.10). Em conjunto, a fala popular e a erudita, foram aplicadas aos personagens das histórias, para que os estereótipos refletissem seus pontos de vista, tanto filosófico quanto político, idealizados por eles.

Não significa, contudo, que Jacob e Wilhelm, deliberadamente, traíram o patrimônio cultural oral germânico. Ao contrário, buscaram a integração da rica cultura de seu país (ZIPES, 2006).


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Fonte:
Rozalir Burigo Coan: “A presença de Giambattista Basile nas narrativas populares de Charles Perrault e dos Irmãos Grimm: os vultos de Cinderela”. (Dissertação apresentada ao Curso de PósGraduação em Literatura da Universidade Federal de Santa Catarina, para a obtenção do título de mestre em literatura. Orientadora: Profª. Drª. Patrícia Peterle  Co-orientadora: Profª. Drª. Andréia Guerini). Florianópolis, 2009. Disponível em: repositorio.ufsc.br

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