02/01/15

Cartas Portuguesas, de Mariana Alcoforado

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As Cartas Portuguesas: da origem à crítica

As Cartas Portuguesas nos remetem a uma realidade causada pela dor de uma separação amorosa. Escritas em francês, os seus originais extraviaram-se, não existindo, por isso, possibilidade de informar se foram escritas em português ou francês, conforme já discutido. Supõe-se que tivessem sido escritas em português e atribuindo-lhes valor, procurando diferentes autores para que adquirissem a forma portuguesa.

Em Cartas a d’Alembert, Jean Jacques Rousseau expressou sua opinião sobre as
mulheres e as cartas da freira, num discurso que comprova o pensamento do homem em relação à figura feminina, divergindo dos autores anteriores: Rocha e Freire.

As mulheres em geral não prezam arte, nenhuma as prende e não têm gênio nenhum. Podem brilhar nas pequenas obras que exigem apenas leveza de espírito, graça, às vezes até alguma filosofia e raciocínio. São capazes de adquirir ciência, erudição, cultura, e tudo o que se alcança à força de aplicação. Mas este fogo celeste que aquece e abrasa a alma, este gênio que consome e devora, esta eloqüência estuante, estes transportes sublimes que levam os seus encantos até o fundo dos corações, não os achareis jamais nos escritos das mulheres. Todos frios e bonitos como elas. Terão o espírito que quiserdes: alma é que nunca. Serão cem vezes mais razoáveis do que apaixonadas. As mulheres não sabem descrever nem sentir o verdadeiro amor. [...] Apostaria tudo quanto há no mundo em como as Cartas Portuguesas foram escritas por um homem.

A publicação das Cartas Portuguesas teria sido em meados de 1668, quando Chamilly já havia regressado a França.

Em 1810 apareceu pela primeira vez no Journal de l’Empire o nome de Mariana Alcoforado, num artigo de Boissonade. Ferreira (1964, p. 573) cita a seguinte nota encontrada numa edição de 1669:

A religiosa que escreveu estas cartas chamava-se Mariana Alcoforado, religiosa em Beja, entre a Estremadura e a Andaluzia. O cavaleiro a quem estas cartas foram escritas era o Conde de Chamilly, chamado então Conde de Saint-Léger...Cento e quarenta anos decorridos depois que as Cartas Portuguesas foram escritas tornam a minha indiscrição muito desculpável. Uma velha historia não oferece já alimento à maledicência nem à malignidade.

Delgado (1973) esclarece que um dos grandes opositores da tese que as Cartas são de autoria de Mariana Alcoforado foi Guéret, em 1669. Isto ocorreu devido à publicação de sete cartas forjadas, no qual o próprio editor atribuiu origem diferente, motivando a dúvida legítima dos leitores no que diz respeito à autoria de todas elas.

A publicação dessas cartas marca o primeiro gesto de rebelião feminina na Literatura Portuguesa. Mesmo sendo religiosa e mulher, conheceu as limitações que lhe eram impostas pela Igreja e pela sociedade patriarcal. Escreveu as Cartas que bem expressam sua ousadia, paixão e coragem de uma mulher questionadora. Mariana foi além dos limites da liberdade, entregando-se à paixão de um homem.

Os editores de versão L&PM Pocket (1977, p. 5-6) afirmam que a edição de 1669 era uma tradução e que o editor francês assim apresentou o livro:

Consegui, à custa de muitos trabalhos e dificuldades, recuperar uma cópia correta da tradução de cinco cartas portuguesas que foram escritas a um nobre gentil-homem que servia em Portugal. Todos os que conhecem os sentimentos do coração humano são unânimes ou em louvá-las ou em procurá-las com tanto empenho que julguei prestar-lhes bom serviço imprimindo-as. Desconheço em absoluto o nome daquele que as traduziu: mas pareceu-me que não cairia no seu desagrado publicando-as. É difícil que não acabassem por aparecer com erros de impressão que as teriam desfigurado.

Freire (1994, p. 16), por sua vez, afirma que o êxito das Cartas Portuguesas fez-se devido a galanteria levada ao exagero do convencionalismo, as Cartas eram uma afloração perturbadora, escritas numa exaltada linguagem do coração, que pode ser entendida pelos apaixonados como desarticulada e ardente de se comunicar.

Delgado (1973, p.217) registra que longe de serem consideradas literárias, são uma expressão pura e natural de sentimentos violentos. Primeiro porque exprime a mágoa da eparação e dúvida com relação ao reatamento do amado; depois a perda desta esperança e, finalmente, o ressentimento por não ter tido em momento algum palavras tênues para amenizar a dureza do abandono.

Acrescenta Delgado (1973) que as Cartas são compostas de frases soltas, expressão de sentimentos que rapidamente se contradizem, em certos casos na luta tremenda entre o amor e o ressentimento. Constituem-se pintura admirável duma alma atormentada por uma paixão muito violenta, considera o autor.

O reconhecimento das Cartas vem em primeira mão, de Paris, a partir de uma tradução de José Maria de Sousa Botelho, em 1669. Filinto Elísio foi o primeiro tradutor das Cartas que aceitou sem objeção nem reserva a tradição de que eram originalmente portuguesas.

Jaime Cortesão, em seu esboço crítico da edição de 1920 das Cartas Portuguesas, questiona sobre um tradutor francês que curioso dos segredos amorosos das Cartas, preocupou-se com sua versão perfeita, deixando escapar alguns portuguesismos de forma, por incompreensão do sentido, ou pela incapacidade de reduzi-las ao gênio da própria língua. Abadade St Leger, assim responde (1920, p.11) “Não se faz tolerar não pelo fundo das idéias que pertencem ao original, abstrahindo dos innumeraveis defeitos de translação”. Morgado Matheus, tão conhecedor das duas línguas dirá por sua vez: “a construção de muitas phrases é tal que retraduzindo-as, palavra a palavra, em português, encontrar-se-hão inteiramente no gênio e no caracter desta língua”(p.20)

Acrescenta Cortesão (1920, p.20):

Nós iremos mais longe: há na traducção francesa phrases obscuras, incoherentes ou artificiosas pela clara insufficiência do traductor. Citaremos esta “...je vous remercie dans lê fond de mon coeur, du desespoir...”expressão inusitada no francês, mas que tenta incomprehensivamente traduzir o modismo português: agradeço-lhe do fundo do coração...E é tão flagrante o conjunto dessas phrases que só por si constitue uma das mais concluentes provas a favor da authenticidade das Cartas.

Maurice Paléologue no esboço crítico da edição de 1920 faz o seguinte comentário sobre as Cartas: “Uma obra de arte ou de litteratura, ainda quando muito perfeita, não passa duma cópia da vida: as Cartas são a própria vida”.

D‟Aguiar (1924) por sua vez, comenta que Noel Bouton (Marquês de Chamilly) após retornar de Portugal ostentava a sua grande conquista amorosa realizada em Portugal, apresentando as Cartas, que passavam de mão em mão e, posteriormente, à França inteira. Em meados de 1668 foram impressas, tendo sua aparição ao público em 1669. Ao final deste mesmo ano haviam sido realizadas cinco reimpressões.

Devido ao sucesso das Cartas, os editores tiveram a idéia de publicar cartas apócrifas a fim de aumentarem as vendas. Surgiu assim a Seconde partie dês Lettres Portugaises, constituídas por sete cartas amorosas no mesmo gênero, todavia não havia nestas nem o encanto, nem delicadeza, e muito menos o sentimento encontrado nas originais.

Posteriormente, dois novos editores Loyson e Philippes, conforme D‟Aguiar (1924), na busca de explorar o a lucratividade, publicaram as respostas de Chamilly às Cartas, variando a sua quantidade. Esta é uma das fortes razões para serem consideradas apócrifas.

D‟Aguiar (1924, p. 124-125) cita a justificativa de Loyson que prova a publicação das respostas:

Ao leitor. – A curiosidade que tiveste de ver as cinco Cartas Portuguezas escriptas a um gentil homem de volta de Portugal a França, persuadiu-me de que não serias menos curiioso de ver as respostas d‟elle; cahiram-me, nas mãos, da parte de um de seus amigos que me é desconhecido; assegurou-me este que, estando em Portugal, obtivera as copias, escriptas na língua do paiz, de uma abbadessa de um mosteiro, que recebia aquellas cartas e as retinha em vez de entregar à Religiosa a quem se dirigiam. Não sei o nome de quem lh‟as escreveu nem o de quem fez a traducção, mas creio não lhes ser desagradável fazendo-as publicar, pois que as outras o são já. As pessoas que apreciam este gênero de escripta não as teem desaprovado. Seja como fôr, se não tão galantes como as outras, são por egual comoventes. Asseguraram-me que o gentilhomem que as escreveu voltou para Portugal. (trad. de Luciano Cordeiro)

No período de 1670 a 1700 publicaram-se pelo menos 36 edições das Cartas Portuguesas, dezenove são de uma senhora da sociedade e das respostas de Loyson e treze das respostas de Philippes. Durante os séculos seguintes, somaram-se 155 edições até meados de 1900, sendo elas: 96 francesas, 24 inglesas, 24 portuguesas, 04 italianas, 02 espanholas, 03 alemães, 01 norueguesa e 01 holandesa. Grande parte dessas edições encontra-se na Biblioteca Nacional de Lisboa e na Biblioteca Carvalho Monteiro, também nas coleções particulares como a de Godofredo Ferreira e Antonio de Carvalho Monteiro, em Portugal.

Em 1980 foi realizado um filme com o título “Cartas Portuguesas”, sob a produção de Eduardo Geada, da Rádio Televisão Portuguesa (RTP), tendo como interprete de Sóror Mariana, a atriz Lia Gama, com a fotografia de Manuel Costa e Silva. No mesmo ano, no dia 22 de novembro, houve a primeira representação no teatro Flaviano, em Roma, com o título La Monaca Portoghese, tendo como regente Bruno Mozzali e o papel de Mariana interpretado por Rosa Di Lucia e o de Chamilly por Pero Di Jorio, de acordo com Carletti (2008).

Em 1998, surgiu, pela primeira vez em Portugal, a tradução de Mariana, romance publicado por Katherine Vaz, autora norte-americana de ascendência portuguesa. Em muito pouco tempo, o romance atingiu a sua 4ª edição.

Em pesquisa realizada na Biblioteca Nacional de Lisboa foram encontradas 159 edições catalogadas das Cartas Portuguesas, em diversos idiomas sendo 31 edições anteriores a 1900 e as demais até 2004, o que demonstra que no decorrer do tempo, a obra continua a provocar a curiosidade do leitor e o desejo de se deleitar no seu conteúdo.

Ressalta-se o trabalho de Leonel Borrela, museólogo, artista plástico, pesquisador e estudioso de Sóror Mariana Alcoforado e das Cartas Portuguesas. Atua no Museu Regional de Beja, mantendo uma crônica semanal ilustrada no jornal Diário do Alentejo desde 1995, onde publicou vários artigos sobre as Cartas Portuguesas. Em 2007 publicou o livro Cartas: Sóror Mariana Alcoforado, (ilustração) o qual apresenta uma abordagem polêmica em defesa da autoria das Cartas, proporcionando ao leitor publicações e edições desde o século XVII até as populares o século XX. As obras citadas em seu livro referem-se ao assunto, dentre elas a edição princeps de 1669, de Claude Barbin.


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Fonte:
Regina Lúcia Gonçalves Pereira Silvestrini
: “Da paixão ao abandono: uma leitura das Cartas Portuguesas e das litografias de Henri Matisse”. (Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras, Mestrado em Letras, da Universidade Estadual de Maringá, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Letras (Área de concentração: Estudos Literários). Orientador(a) Drª. Clarice Zamonaro Cortez). Maringá, 2008. Disponível em: www.ple.uem.br

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