18/10/14

Herói à força (Teatro), de Artur Azevedo

 Herói à força, de Artur Azevedo gratis em pdf
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E “ele amava o teatro”: a campanha de Arthur Azevedo através do jornal A Notícia

(...) Os leitores, que porventura acompanharam essa colaboração de quatro anos, dirão se tenho ou não cumprido o programa que me tracei n’estas hospitaleiras colunas. Orgulho-me de dizer que os meus folhetins foram a origem, não só de todo esse movimento de simpatia que se formou em volta da ideia do Teatro Municipal, mas do próprio Teatro Municipal, movimento considerabilíssimo se o compararmos à inércia, a indiferença, à esmagadora apatia dos outros tempos. O grande caso é que o Teatro Municipal está criado por lei, (...) se ainda não funciona, se não é ainda uma realidade palpável, é porque infelizmente os Drs. Furquim Werneck e Ubaldino do Amaral [ex-prefeitos do Rio de Janeiro] não o tomaram a sério. Mas eu não desanimo (...)
Ninguém tome por foufice o que aí fica.(...) Não se trata de talento, mas de convicção(...);Quando morrer, não deixarei o meu pobre nome ligado a nenhum
livro, ninguém citará um verso nem uma frase que me saísse do cérebro; mas com certeza hão de dizer: ‘Ele amava o teatro’, e este epitáfio moral é bastante, creiam, para a minha bem-aventurança eterna”. Arthur Azevedo

Em 22/9/1898, dez anos antes de seu óbito, Arthur Azevedo publicou na sua coluna “O Theatro” no jornal A Notícia a frase-epitáfio que abre esta seção: “Quando eu morrer, não deixarei meu pobre nome ligado a nenhum livro, ninguém citará um verso, nem uma frase que me saísse do cérebro; mas com certeza hão de dizer: Ele amava o teatro”. Tal fragmento finaliza uma crônica que, ao felicitar A Notícia pelo seu quarto aniversário, reforçava a posição do comediógrafo de, através de seu folhetim, ter formado um movimento de simpatia em torno da construção do Theatro Municipal.

O imaginário epitáfio de Arthur Azevedo é bastante significativo: se como membro fundador da Academia Brasileira de Letras (1897) mostrou-se modesto e se apresentou como um autor que quando morresse seria esquecido por sua obra literária; por outro ângulo, valorizou a sua importância na articulação política do campo cultural e na mobilização da opinião pública através da imprensa. Afinal havia sido através de seu trabalho como formador de opinião que conseguiu angariar a simpatia popular para o projeto do Theatro Municipal.

No momento em que tal crônica foi publicada, o projeto que previa a construção do Theatro Municipal já estava aprovado por lei (de 1895). No entanto, a lei ainda não havia sido aplicada. Motivo pelo qual Arthur Azevedo continuava pressionando, através do jornalismo e do teatro, o poder público para que ela fosse cumprida. A principal tribuna de Arthur Azevedo – mas não a única – foi A Notícia. Desde a fundação do jornal em 1894 até vésperas de seu falecimento, em 1908, todas as quintas-feiras, através do folhetim “O Theatro”, o literato defendeu a construção de um teatro nacional e cobrou o Estado pelo lento andamento do projeto. A ideia era que o poder público subsidiasse não apenas a construção do edifício, mas a manutenção de uma companhia teatral, encarregando-se do custeio de profissionais do teatro, atores, cenógrafos, músicos, encenadores, etc.. Em várias crônicas À Notícia, Arthur Azevedo indicava a sua musa inspiradora: la Comédie-Française. Na França, segundo o autor, até em meio às guerras napoleônicas, o teatro francês nunca fora deixado de lado. E, se em solo brasileiro não havia aparecido, até aquela época, um Corneille, um Racine ou um Molière, era preciso fazer algo para que atores e escritores de talento não sucumbissem, antes mesmo de tornarem-se conhecidos30. O literato inclusive lembra que, apesar da falta de investimentos, o teatro nacional legou autores talentosos como José de Alencar e Martins Penna e atores no nível de João Caetano e Xisto Bahia. Então, a matéria-prima estaria à espera de um cinzel e este deveria vir dos recursos públicos, visto que não se poderia pedir altruísmo da indústria de entretenimento privada. E se o Estado já empregava os escassos recursos para a criação de um Instituto de Música e de uma Escola de Belas Artes, então, qual seria a razão para “abandonar [o teatro] à própria sorte”? E o Theatro Municipal já estava “amparado” “pela força da lei”.

Mas vamos percorrer a odisseia do Ulisses, Arthur Azevedo, em direção ao sonhado Theatro Municipal. A alocação da verba era principal questão. Em 22 de maio de 1894 foi elaborado um projeto de lei que previa tanto a construção, como a manutenção do Theatro Municipal por parte do Estado, incluindo não apenas o edifício, mas os salários destinados ao quadro profissional. Tal empresa seria custeada a partir da criação de um imposto de 10% sobre a receita bruta das companhias estrangeiras que se apresentassem no Rio de Janeiro, com exceção das óperas. Nas páginas d´A Notícia de 23 de maio de 1895, o cronista saudava a aprovação da lei. Todavia contratempos surgiram e o projeto do Theatro Municipal ficou à deriva. No folhetim de 28 de janeiro de 1897, Arthur Azevedo questionava sobre o que teria sido feito dos 95.000$000 arrecadados, até então, em impostos cobrados pela Prefeitura teoricamente em prol do teatro.

Entrou e saiu Prefeito e, por fim, em 1904 , sob a batuta de Pereira Passos é anunciada a construção do Theatro Municipal. O plano de execução do teatro foi escolhido através de um concurso e o desenho final fundiu os projetos arquitetônicos dos candidatos que tiraram os dois primeiros lugares, o engenheiro brasileiro Francisco de Oliveira Passos, filho do alcaide35 e o renomado arquiteto francês Albert Guilbert, autor do plano da Ópera-Cômica de Paris e Vice-Presidente da Sociedade dos Arquitetos Franceses. Ambos os desenhos eram inspirados no teatro Ópera de Paris, construído por Charles Garnier. Logo após o resultado do concurso, em sua crônica de 22/9/1904, n´A Notícia, Arthur Azevedo não deixou de aplaudir a iniciativa de Pereira Passos, mas confessou o seu temor: as amplas dimensões do do Theatro Municipal serem pouco adequadas para o desenvolvimento de talentos e da arte dramática, se prestando “à ópera, aos dramalhões de grande espetáculo e às peças maravilhosas”. Ou seja, se adequaria principalmente para representações de atrações internacionais, já alvos lucrativos dos empresários teatrais.

Outra preocupação de Arthur Azevedo era a falta de planejamento quanto às companhias que pudessem se apresentar no Theatro Municipal. Em 1906, a acalentada esperança de contar com uma companhia teatral subsidiada pelo governo se esvaiu. Pereira Passos anunciou que o corpo profissional do teatro não receberia verbas oficiais. O gerenciamento do Theatro Municipal seria cedido a qualquer empresa, nacional ou estrangeira, desde que ela pagasse o aluguel estabelecido. Com grandiosas dimensões e entregue à preeminência do lucro, não teria saída para o desenvolvimento de uma arte dramática mais comprometida com os padrões estéticos e literários e nem abrigaria em suas salas camadas médias e baixas da população. Seria um projeto para a elite, o que já antevia o comediógrafo em suas crônicas.

Mesmo ao perceber que o tão batalhado Theatro Municipal estava cada vez mais distante de seu sonho, Arthur Azevedo continuava na luta. Mesmo que o teatro não recebesse verba oficial para manutenção dos seus quadros, o comediógrafo defendia que o projeto seria lucrativo aos empresários que se dedicassem ao trabalho de uma comédia nacional e clamava para que ele não acabasse destinado à ópera. Embora dissesse desejar ser apenas um “espectador do futuro Theatro Municipal”, Arthur Azevedo não se comportava como tal. Estava ciente de seu papel para a realização do projeto, mesmo que o resultado final saísse distante de seu sonho. Conferia o andamento da obra, fiscalizava as ações das autoridades e também construía para si a imagem de um empreendedor teatral, de um formador de opinião, de alguém capaz de mobilizar outros literatos e políticos. Apesar de declarar ser mais persistente e insistente do que talentoso, Arthur Azevedo proclamava o seu valor, conforme crônica publicada n´O Paiz em 31/5/1908:

Visitei o Teatro Municipal, e venho dizer aos leitores, francamente, desassombradamente, que o Rio de Janeiro possui um dos primeiros teatros do mundo. Nada lhe falta, absolutamente nada, em luxo, conforto, elegância e comodidade. (....) Só em 1909 o teatro estará completamente pronto e [não terá] um grupo de artistas digno de inaugurá-lo. Não me conformo de ver essa honra entregue ao estrangeiro, por mais célebres, por mais ilustres que sejam (...) Parabéns ao Rio de Janeiro, parabéns ao Dr. Oliveira Passos e (perdoem-me a vaidade), parabéns a mim mesmo, que tenho a satisfação de haver contribuído muito para a construção do Teatro Municipal.

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Fonte:
Tatiana Oliveira Siciliano: “Theatro Municipal de Arthur Azevedo: narrativas em busca da consolidação do teatro nacional na mídia impressa The “Theatro Municipal” of Arthur Azevedo: speeches in search of the consolidation of the national theater in printed media”. Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação - XXIII Encontro Anual da Compós, Universidade Federal do Pará, 27 a 30 de maio de 2014. Disponível em: compos.org.br

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