27/09/14

Abel e Helena (Teatro), de Artur Azevedo

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Os gêneros teatrais e os espectadores da época

Os gêneros teatrais e os espectadores da época Pensa-se em Artur Azevedo, geralmente, como o grande escritor de revistas de ano do século XIX. Seus contos bem escritos e bem humorados também fazem parte das antologias que incluem os melhores contos brasileiros, por serem considerados obras literárias de qualidade.

No entanto, a reflexão intelectual do escritor, registrada em seus escritos jornalísticos, girou em torno da elaboração de comédias de costumes. Conhecido como o maior escritor de revistas de ano brasileiro, elaborava esses textos populares com a facilidade propiciada por seu talento espontâneo para o palco, a paródia e o humor direto. Sem renegar o gênero, rigorosamente criticado pelos demais intelectuais, Artur Azevedo acreditava na hierarquia adotada por seus pares, que consideravam as comédias de costumes artisticamente superiores às comédias ligeiras. Analisando a recepção crítica da sua obra, no entanto, sentimos que as comédias “sérias”, valorizadas pelo autor e por seus colegas de letras, não receberam a atenção merecida dos pesquisadores e críticos posteriores.

Houve, no decorrer do século XX, uma inversão de posicionamentos: enquanto os escritores contemporâneos a Artur Azevedo – como Machado de Assis, Coelho Neto, Oscar Guanabarino, entre outros – valorizavam as comédias não musicadas, os críticos da atualidade preferem as peças em que ele utilizou os recursos cênicos agradáveis ao público, como a música e os cenários deslumbrantes. Tal mudança ocorreu devido à quebra dos preconceitos, que permitiu aos críticos atuais perceberem as qualidades da comédia leve e a capacidade de Artur Azevedo exercitar plenamente seu talento naquele gênero. No entanto, os estudiosos, ao mesmo tempo em que souberam visualizar os pontos positivos das peças musicadas, criticaram severamente as comédias “sérias”, sem perceber as várias qualidades também presentes nesses textos.

Dentre as peças estudadas aqui, encontramos obras de grande valor e outras que apresentam falhas estruturais, isto é, enredos pouco convincentes, com personagens de caracterização menos verossímil. Essas últimas, porém, em nada diminuem a relevância das melhores comédias de Artur Azevedo para a nossa literatura. O mérito dessas obras existe devido à presença de alguns elementos inéditos no teatro brasileiro, baseados na valorização da cultura popular nacional. Mesmo nos poucos estudos mais recentes sobre as comédias de Azevedo, nenhuma análise literária aprofundada, à exceção daquelas voltadas ao estudo das revistas de ano, foi até agora realizada.

Por isso, nossa proposta de estudar as comédias rendeu descobertas capazes de incluir algumas delas dentre as mais ricas escritas no Brasil e sobre o Brasil.

Iniciemos nossa reflexão com um estudo sobre as características dos espectadores da época. A chave para a compreensão da obra dramática de Artur Azevedo centra-se na separação dos gêneros aos quais ele se dedicou: as peças musicadas e as não-musicadas. Estão intrinsecamente ligadas à questão dos gêneros as características sócio-econômicas da audiência para a qual o autor destinava cada um dos diferentes gêneros teatrais. Esta se dividia basicamente em dois grupos: o “público” comum, pobre, analfabeto; e a “sociedade” intelectual e/ou economicamente privilegiada.

A separação dos espectadores entre ricos e pobres, literatos e analfabetos, evidencia uma das particularidades da vida teatral da época. Artur Azevedo, em suas crônicas teatrais, dividia os espectadores em dois grupos distintos, denominados por ele de “público” e “sociedade”. Por meio da leitura das crônicas, depreendemos que do “público” faziam parte os freqüentadores regulares do teatro musicado e popular, cujos gêneros principais eram as revistas, as mágicas e as operetas. Na “sociedade”, incluíam-se os espectadores da elite, presentes, principalmente, nas apresentações de companhias estrangeiras, nos festivais amadores e em raras encenações de peças “sérias” brasileiras por grupos profissionais.

A reclamação maior de Artur Azevedo voltava-se ao afastamento da “sociedade” do teatro regular, inclusive quando se apresentavam peças de qualidade: No Rio de Janeiro os espectadores que dão o cavaquinho por tramóias e peloticas são os mesmos que assistem às representações das mágicas, revistas, operetas e dramalhões com que os nossos teatros nos empanzinam, mas infelizmente só por acaso um ou outro dentre eles corre ao teatro para admirar e aplaudir um artista notável como Novelli6. A estes espetáculos excepcionais assiste um grupo de famílias e indivíduos, sempre os mesmos, cuja lista eu poderia publicar neste folhetim, sem lhe roubar grande espaço. Esses indivíduos e essas famílias raramente aparecem nos espetáculos das ruas do Espírito Santo e Lavradio. Eles não fazem parte do público, mas da sociedade, e a diferença é enorme entre a sociedade e o público.

O público – tenho me cansado de o repetir – só se afasta do teatro quando as peças não o atraem. A sociedade, sim, não há que contar com ela, mas o público vai e há de ir ao teatro, contanto que não seja para se enfastiar.

Investidas no sentido de atrair a “sociedade” para o teatro regular aconteciam
esporadicamente entre artistas amadores e profissionais. Elas, todavia, dificilmente alcançavam um retorno financeiro satisfatório e acabavam arrefecendo. A companhia portuguesa de Lucinda Simões, por exemplo, responsável por trazer ao Brasil dramas europeus inéditos, como A Casa de Boneca, de Ibsen, realizou uma dessas tentativas ao promover, em 1900, espetáculos às quartas-feiras, reservados aos membros da elite econômica. A experiência não conseguiu o resultado almejado e durou poucas semanas.

Esses espetáculos podem ser freqüentados, necessariamente, por todo aquele ou aquela que comprar o seu bilhete e esteja trajado, ou trajada, com certa decência; mas a empresa destina-os especialmente “às mais distintas famílias da elite da nossa sociedade”, e conta que o seu teatro seja, às quartas-feiras, um ponto de reunião para as damas e os cavalheiros do monde, como dizem os franceses, ou do high life, como dizem os ingleses. A tentativa é inteligente e simpática, mesmo porque talvez consiga fazer as pazes entre a boa sociedade e o teatro, que há muito se desavieram.


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Fonte:
Larissa de Oliveira Neves: “As Comédias de Artur Azevedo – Em Busca da História”. (Tese apresentada ao programa de Teoria e História Literária do Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas, como requisito para a obtenção do título de Doutor em Letras na área de Literatura Brasileira. Orientadora: Profa. Dra. Orna Messer Levin). Campinas, 2006.

Nota:
A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese. 
As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra. O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho. Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da tese em sua totalidade

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