05/08/14

Memórias de Guilherme do Amaral, de Camilo Castelo Branco

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O relato de discurso nos últimos romances de Camilo

1. Nos últimos romances de Camilo Castelo Branco, o relato de discurso ganha um recorte e uma mestria semelhantes àquilo a que Eça de Queirós nos habituou nas suas narrativas. Se começa por ser essa uma das zonas de paródia, nos romances facetos, à forma como o autor de O Primo Basílio resolve o problema da construção do discurso das personagens, os mecanismos de relato utilizados por Camilo acabam por se ir tornando, progressivamente, um modo assumido, sem intenção paródica notória, mas antes de procura de efeito de verosimilhança, de o autor atribuir quer palavras quer presumíveis pensamentos às personagens. Estudámos, sob este prisma, Eusébio Macário (1879), A Corja (1879), A Brasileira de Prazins (1882) e Vulcões de Lama (1886). Relativamente à penúltima obra citada, o confronto entre a primeira versão do início do romance, publicada na revista A Arte, em 1879, e a versão definitiva em livro, permitirá argumentar em favor da convicção anteriormente apresentada.

2. O percurso que nos levou ao estudo do relato de discurso iniciou-se, em parte, quando, nos anos oitenta, procurávamos algumas partículas modais (Duarte 1989) em palavras relatadas em discurso directo em O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queirós e Balada da Praia dos Cães, de José Cardoso Pires. Tais partículas foram também encontradas quer em segmentos de discurso indirecto livre, quer em sequências de discurso relatado de forma menos canónica e mais híbrida do que os previsíveis discursos directo e indirecto. Esta indagação conduziu-nos a uma outra, mais alargada, em torno do discurso indirecto livre e, com fronteiras ainda mais latas, sobre o relato de discurso na ficção narrativa. Levámos igualmente a cabo duas tentativas tímidas de estudar o relato de discurso em textos mais antigos, nomeadamente na I Parte da Crónica de D. João I, de Fernão Lopes (Duarte 2003a: 185-198) e na Crónica da Tomada de Ceuta de Gomes Eanes de Zurara (Duarte 2002: 207-215). Mas foi, principalmente, no realismo oitocentista e especificamente em Eça de Queirós que a nossa investigação se centrou (Duarte 2003b).

3. Para a nossa convicção do papel central que a Eça de Queirós coube na configuração do discurso indirecto livre na Literatura Portuguesa e no apuro das
formas de relatar discurso em geral, concorreu o modo genial como Camilo, sobretudo em Eusébio Macário e A Corja, parodiou, no que diz respeito ao discurso relatado (mas não só), o autor de Os Maias. A problematização da paródia (um tipo particular de “citação” irónica) reveste-se, em Camilo, de complexidade e de ambiguidade porque o escritor utiliza, de forma exímia, as técnicas que, em diferentes momentos, agradavam ao público-leitor, mas sem aderir, pelo menos explicitamente, às concepções teóricas das escolas ou movimentos literários em que essas técnicas mais ou menos ridicularizadas se filiavam (Alves 1999: 40). Assim aconteceu com o romance-folhetim no início da sua carreira e assim volta a suceder no final dela, com o romance naturalista.

4. Em idêntico sentido ao da nossa convicção, vai a opinião de Lopes / Saraiva (1976: 881) para os quais o discurso indirecto livre de Camilo constituiria uma evidente “imitação de Eça”. Defendemos que, em Eusébio Macário e A Corja, não é, exactamente, de imitação que se trata, porque o discurso relatado das personagens, nomeadamente o discurso indirecto livre tinha, a nosso ver, uma intenção caricatural vincadamente paródica. Mas Camilo, lentamente, nos romances posteriores, foi-o incorporando de forma cada vez mais convincente e subtil, fazendo quase desaparecer o seu carácter hiperbólico e parodístico.

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Fonte:
Isabel Margarida Duarte (Faculdade de Letras da Universidade do Porto - Centro de Linguística da Universidade do Porto): “O relato de discurso nos últimos romances de Camilo”. Repositorio da Universidade da Coruña. Disponível em: http://ruc.udc.es

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