30/08/14

Maria da Fonte, de Camilo Castelo Branco

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O Portugal camiliano: um mundo imerso nas relações de trabalho e dinheiro


─Vamos à fábrica [...]. Tenho lá dois
teares de pano, que só tu podes governar. De
hoje em diante ficas sendo meu contra-
mestre, ganhando oito tostões por dia.[...].
Amanhã, se quiseres casar com a filha do
Manuel da Severa ou com a Felizarda do
Cabeço de Cima, não te dizem que não.
Podes-te estabelecer, quando quiseres, que
eu dou-te abono, e dinheiro para meia dúzia
de teares. Anda daí, Francisco...
Camilo Castelo Branco
Onde está a Felicidade?

A partir das reflexões feitas até o momento, é possível perceber que a sociedade portuguesa oitocentista é um foco marcante dos comentários do narrador camiliano. Resumindo o que ficou posto nas páginas precedentes, trata-se de um espaço social movido por dois eixos centrais: o desejo e o dinheiro. Isto porque, tanto o interesse financeiro quanto a motivação mimética do desejo ditam o rumo das narrativas camilianas Onde está a Felicidade? e Um Homem de Brios, bem como a trajetória das personagens nelas inseridas. Duas dinâmicas que findam por compor os traços de um Portugal que não dá margem a idealizadas histórias de amor: os caracteres camilianos, como vimos, são entes sociais que, muito antes de viverem de juras de amor, comem, bebem, dissimulam, desejam, praticam o orgulho e a avareza, trabalham etc.

No que concerne aos dois vetores mencionados, vejamos o que já foi apreciado. Quanto à questão do desejo, no terceiro capítulo desta análise procuramos detectar a dinâmica mimética que o rege, uma propriedade que denota seu caráter nada espontâneo. No que tange ao interesse argentário, no segundo capítulo, ao apreciarmos a utilização de alguns recursos literários pelo narrador camiliano, a ironia e o jogo com as expectativas de leitura, acabamos por tecer comentários a propósito do dinheiro enquanto fator que sobreleva nas relações interpessoais.

No presente capítulo, para além da questão do interesse pecuniário já abordado, complementaremos nossas considerações acerca do que é veiculado sobre a constituição da sociedade portuguesa oitocentista por meio do levantamento de mais alguns aspectos relacionados à imagem do Portugal concatenado por Camilo Castelo Branco nas obras selecionadas.

De fato, vale notar que este é um tema ainda praticamente inédito, visto que a crítica que versa acerca da ficção camiliana somente resvala na temática da imagem da nação portuguesa, como em breves observações tecidas em alguns escritos acerca dos núcleos sociais que figuram em uma trama, mas sem aprofundamentos, uma análise que conduza a uma percepção mais completa do Portugal oitocentista que perpassa o legado camiliano.

Nesse sentido, o objetivo deste capítulo é o de promover um exame, de cunho sociológico, dos traços que compõem esta imagem da nação portuguesa do século XIX, tal como a concebeu literariamente Camilo em Onde está a Felicidade? e Um Homem de Brios. Ainda, intencionamos analisar qual é o diálogo que esta concepção camiliana de Portugal estabelece com seu período literário, mais especificamente, com a geração de 70, tida como expoente máximo da Literatura Portuguesa oitocentista, e com a produção ficcional de Honoré de Balzac, literatura paradigmática no século XIX. Deste modo, procuraremos vislumbrar quais são as semelhanças e/ou as dessemelhanças que este país nascido da pena de Camilo possui frente à representação de Portugal propalada por esta geração e confrontá-la, também com a imagem da França oitocentista existente em alguns romances balzaquianos. Para tanto, comecemos pela imagem de Portugal elaborada pela geração de 70.

Como sabemos, essa geração foi uma das que mais marcaram a história da Literatura Portuguesa. Segundo Óscar Lopes e Saraiva, no clássico História da Literatura Portuguesa,

O sulco deixado pela ‘Geração de 70’ na cultura portuguesa foi profundo e duradouro. O estudo dos epígonos e continuadores deste grupo levar-nos-ia de fato à atualidade. (1985, p. 876)  Com efeito, ao buscarmos informações sobre esta geração literária tão cara a Portugal, em manuais de historiografia literária, podemos perceber uma constante: a maioria dos críticos, para conseguirem definir e conceituar as suas principais contribuições, primeiramente fazem um panorama histórico do período, não só português, mas europeu. Como exemplo, tomemos a já mencionada obra de Saraiva e Lopes. No capítulo que trata da geração de 70, encontramos o seguinte início:

Os homens da chamada ‘Geração de 70’, cujas primeiras manifestações literárias datam, aliás, de meados do decênio anterior, acabaram de se formar já depois de institucionalizado e consolidado o liberalismo em Portugal. Encontraram instituições parlamentares funcionando com regularidade, uma ideologia oficial que acentuava a noção de ‘progresso’ (identificado com os melhoramentos materiais) e, uma comunicação com o exterior cada vez mais intensa, quer técnica, quer econômica,
quer cultural.[...]
Mas, outros problemas também se punham. [...] As novas instituições inseriam-se numa sociedade que sob o ponto de vista tecnológico, econômico e mesmo social estagnava, comparativamente [ao resto da Europa]. [...] A intensificação da comunicação com o exterior tornava cada vez mais patente, por contraste, esta situação. [...]
Importa com isso atentar um pouco nos acontecimentos europeus e nas leituras estrangeiras que parecem ter dado a esta geração o sentimento de se chocar frontalmente com a sociedade dentro da qual vivia.” (1985, p. 863-865)

Dessa forma, a partir deste excerto, podemos notar que não é possível falar desta geração sem enquadrá-la em seu momento histórico: ambos se tornaram indissociáveis, visto que uma das maiores e mais recorrentes preocupações destes autores ao tomarem a pena nas mãos era a sociedade portuguesa do período, ou ainda, a imagem de Portugal do século XIX, um Portugal que ao ser defrontado com o resto da Europa lhes parecia um país absolutamente decadente, à esquina do progresso que impulsionava o mundo moderno.  

Dentre os mais reconhecidos escritores desta geração, como Eça de Queirós e Oliveira Martins, Antero de Quental “aparece-nos como o principal mentor da Geração de 70” (1985, p. 885), justamente no que concerne a este topus literário, o decadente Portugal oitocentista. Nas    Conferências Democráticas, que tiveram lugar no Casino Lisbonense, em 1871, Antero publicou sua mais famosa conferência, Causas da decadência dos povos peninsulares nos últimos três séculos, um projeto que pertencia a um “largo e ambicioso, embora vago, plano de reforma da sociedade portuguesa” (1985, p. 870). A fim de observarmos como se constituiu a imagem do Portugal oitocentista para esta geração, deter-nos-emos brevemente sobre este discurso de Antero, um exemplo conciso e objetivo do quadro português assim como essa geração o concebia.

Logo no começo de seu discurso, ainda no “Programa das Conferências Democráticas”, Antero de Quental, enumera quais são os intuitos últimos de sua fala:

Ligar Portugal com o movimento moderno, fazendo-o nutrir-se dos elementos vitais de que vive a humanidade civilizada: Procurar adquirir a consciência dos fatos que nos rodeiam, na Europa; Agitar na opinião pública as grandes questões da Filosofia e da Ciência Moderna; Estudar as condições de transformação política, econômica e religiosa da sociedade portuguesa. Tal é o fim das Conferências democráticas.” (1987, p. 08)

Nesse sentido, podemos perceber que Antero começa seu discurso construindo a imagem de um Portugal que, mesmo estando, geograficamente, na Europa, está completamente estanque dos movimentos da modernidade que impulsionam outras nações européias. Desse modo, o autor passa, já durante o seu discurso propriamente dito, a elencar os motivos pelos quais Portugal se tornou, nos últimos três séculos (XVI, XVII e XVIII), um país, incontestavelmente, decadente, ou seja, um país que não conseguiu “nutrir-se” (1987, p. 08) de modernidade.

Em resumo, segundo o escritor, foram três os “fenômenos capitais” (1987, p. 30) da decadência portuguesa: “um moral, outro político, outro econômico” (1987, p. 30). O primeiro concerne à transformação do catolicismo pelo Concílio de Trento, que levou o povo português a uma total opressão do “exame e [d]a consciência individual” (1987, p. 31), visto que, para o Concílio, “a razão e o pensamento livre são um crime contra Deus” (1987, p. 31). O segundo deles é a monarquia absolutista que refreou “a elevação da classe média, instrumento do progresso nas sociedades modernas” (1987, p. 31, grifo do autor). Por fim, o último e determinante fator da estagnação portuguesa foi o colonialismo e a conseqüente falta de investimento nas “indústrias, [...] verdadeiro fundamento do mundo atual, que veio dar às nações uma concepção nova do Direito, substituindo o trabalho à força, e o comércio à guerra de conquista” (1987, p. 31, grifo do autor).


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Fonte:
Ana Luísa Patrício Campos de Oliveira: “A ficção camiliana para além de histórias de amor”. (Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Literatura Portuguesa do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, para obtenção do título de Mestre em Letras. Orientador: Prof. Dr. Paulo Fernando da Motta de Oliveira). São Paulo, 2008.
Notas
A imagem inserida no texto não se inclui na referida obra. As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra. O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho. Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da obra em sua totalidade. Disponível em: www.teses.usp.br

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