09/07/14

A velhice do padre eterno (Poesia), de Guerra Junqueiro

 A velhice do padre eterno (Poesia), de Guerra Junqueiro PDF
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A fase realista de Guerra Junqueiro

Imbuído de ideais cientificistas, Junqueiro havia planejacto compor uma trilogia: A Morte de D. João, atacando o tipo romântico do conquistador devasso; A Velhice do Padre Eterno, verberando o Clero, que considerava corrupto, e por fim o Prometeu Libertado, que seria a vitória do Homem, salvo por Jesus Cristo; a última parte ficou incompleta, sendo publicados apenas dessa trilogia os dois citados poemas. A Morte de D. João foi editada em 1874.
Falando precisamente desse poema, escreveu Fidelino de Figueiredo: "Guerra Junqueiro, fundindo o lirismo épico de Vítor Hugo e o satanismo de Baudelaire, pelo arrojo das suas imagens, praticava esta novidade tão mal recebida duma parte do público literário e tão entusiasticamente apoiada por outra, de meter a prosa na poesia. Cães vadios, a prostituição, a nudez gangrenosa, a vala comum, os hospitais, a valeta, tudo que até então, na poesia portuguesa, fora sistematicamente afastado do âmbito dos temas literários, era acolhido no poema de Guerra Junqueiro, que nos seus alexandrinos vibrantes extraía a essas podridões belezas imprevistas.

Justa observação: com efeito, antes do poema de Junqueiro havia certo preconceito com relação a alguns vocábulos, apesar da presença de túmulos e sudários na poesia ultra-romântica; as podridões teriam de esperar pelo Realismo-Naturalismo de Cesário Verde ("E o peixe podre gera os focos de infecção") ou o Decadentismo de Antônio Nobre ("Em uma chaga a supurar gangrena") ...
[..]
A Velhice do Padre Eterno (1835) se compõe de sátiras ainda mais violentas, muitas vezes descambando para o cômico ou o grotesco, haja vista a "Ladainha Moderna" ou a "Circular". Mas, a.o tratar dessa obra contundente, já que nos interessa unicament2 seu aspecto literário, cumpre-nos fazer o que Coleridge chamou de suspension of disbelief; é que, numa obra de arte, pouco importa nossa descrença no que o autor quer pregar ou impingir. Assim, a transcrição de alguns versof) de ataque ao Clero não vai implicar absolutamente em concordância (ou mesmo em repúdio) esse ataque, o que nos parece extraliterário. Embora possamos lembrar o fato de Guerra Junqueiro sempre haver demonstrado crença em Deus e no Cristianismo, chegando, com relação à Igreja católica, a abrandar sua posição, a ponto à de confessar: "Eu tenho sido, devo declará-lo, muito injusto com a Igreja. 'A Velhice do Padre Eterno' é um livro da mocidade. Não o escreveria já aos quarenta anos."

Ele achava que o clero era composto ao seu tempo por indivíduos corruptos. "Daí que o seu anticlericalismo deva ser compreendido como indignação contra o religioso devasso, não contra o realmente vocacionado. "

No soneto "Parasitas", temos a presença do Realismo­Naturalismo, no que tange à pintura dos seres aberrantes:

No meio duma feira, uns poucos de palhaços
andavam a mostrar, em cima dum jumento
Um aborto infeliz, sem mãos, sem pés, sem braços,
ASborto que lhes dava um grande rendimento.

Os magros histriões, hipócritas, devassos,
Exploravam assim a flor do sentimento,
E o monstro arregalava os grandes olhos baços,
Uns olhos sem calor e sem entendimento.

"A Vala Comum", longo poema de 80 estrofes, repete as abjeções já mencionadas anteriormente: são lençóis de hospital, já rotos e cheios de vermes, crânios de heróis, carcaças decompostas . ..

Mas o ponto alto do Realismo n'A Velhice do Padre Eterno, está nos versos descritivos de "A Sesta do Sr. Abade", onde se pode ver a mestria do artista numa pintura que lembra os romances da escola:

O meio-dia bateu já na torre da Igreja.
A aldeia é silenciosa e triste. O Sol flameja.
Entre o surdo murmúrio abrasador da luz,
Como num grande forno, os grandes montes nus
Recozem-se, espirrando as urzes dentre as fragas.
Um mendigo, demente e coberto de chagas,
Dorme estirado ao sol numa modorra espessa;
E o mosqueiro febril nas lepras da cabeça
Enterra-lhe zumbindo o cáustico das lanças.
Andam só pela rua os porcos e as crianças.
Fome, desolação, luto, viuvez, miséria
Na aldeia morta.

É tipicamente realista a descrição, com o vezo de retratar somente o lado negativo da vida; além do que foi apresentado acima, fala-nos o poeta da terra calcinada cuspindo "o cardo torcido, epilético, ardente", enquanto silvam as cobras, o ar carboniza as árvores; os rebanhos "são como um pulular de vermes"; grassa a epidemia, e os velhos decadentes agonizam, ouvindo os lamentos fúnebres dos bois magros, a mugir abandonados "Junto ao velho esqueleto inútil dos arados".

Chega a ser grotesca a descrição do abade dormindo (e não era outro o objetivo do poeta):

O cura, espapaçado, esbanclalhado, ronca.
Inunda-lhe o suor oleoso a testa bronca,
O cachaço taurino e as papeiras, que vão
Desde o queixo ao umbigo, em crassa ondulação.
A boca comilona, erótica, sensual,
Traz à lembrança o fauna obsceno e o canibal.
E a dentadura podre, esse armazém de guano,
É qual desmantelado aqueduto romano.

E raia deliberadamente ao mau-gosto:

As vezes, um fragor rouco de temporal
Quer bramir através do Himalaia nasal
Do abade, mas achando os dois túneis do monte
Entupidos de esterco infecto e de simonte,
Retrocede e lá vai por outro sorvedoiro
Expluir - com profundo e tremebundo estoiro! ...


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Fonte:
Sânzio de Azevedo
: “A Face Romântica da Poesia de Guerra Junqueiro”. Disponível em www.ceara.pro.br

Um comentário:

  1. É SEMPRE PRÓDIGO E MARAVILHOSO ENRIQUECER A ALMA, COM VERSOS FEITOS POR GUERRA JUNQUEIRA.

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