20/06/14

Hamlet, de William Shakespeare

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A ironia dramática em Hamlet


“Segundo Bárbara Heliodora, o dramaturgo inglês, depois que enxuga sua linguagem, começa a abrir mão de comentários explícitos a respeito das ações e, ao mesmo tempo, adota o hábito de oferecer ao espectador dois pontos de referências diversos, criando “um contraponto de situações essencialmente irônicas”. Bárbara Heliodora afirma que a forma preferida de uso da ironia dramática “será a do desnível de informação entre o que dois ou mais personagens sabem ou não, entre o que o público sabe mas os personagens não, e entre o que um mesmo personagem diz e uma realidade que ele mesmo ignora”. Cada uso diferente dessa técnica cria pontos de referências diferentes que auxiliam na construção do todo dramático.

A estratégia de oferecer contrapontos de situações, bastante utilizada por William Shakespeare nas suas peças, aponta para um certo amadurecimento do escritor. A esse respeito, Bárbara Heliodora afirma que o uso da ironia dramática coincide com o momento em que ele “enxuga” a linguagem. Além disso, a intenção nessa criação de contrapontos de situações parece ser o de permitir ao espectador que faça suas próprias observações sobre o todo dramático e, ao mesmo tempo, tire suas próprias conclusões, num jogo dialético de aproximação e distanciamento entre o público e as situações encenadas.

Através da ironia dramática, a obra de Shakespeare possibilita ao espectador assistir aos enganos e à relatividade do conhecimento de alguma personagem e se sentir confortável porque, naquela ocasião, conhece mais do que o próprio personagem. Por outro lado, a técnica também possibilita que a platéia reflita sobre o seu próprio saber que, por mais amplo e privilegiado que possa parecer, está sempre à mercê da precariedade do conhecimento e da parcialidade do saber humano. De certa forma, as peças surtiam o efeito de desnudamento daquilo que o espectador supõe ser e conhecer.

É essa a noção de Hamlet quando ele pede a Horácio: “Mostra-me um homem que não seja escravo de suas paixões e eu o colocarei no centro de meu coração; sim, no coração de meu coração...”. O príncipe sabe que o homem é sempre escravo de suas paixões, e que nunca pode se livrar de seus desejos, de suas necessidades, de seus interesses. Essa combinação de paixões determinaria, ou influenciaria de forma contundente, as ações humanas e o modo de percepção do mundo.

A ironia dramática torna um espetáculo ambíguo e rico em significação, e Shakespeare a emprega utilizando a técnica de desnível de informação, na concepção de Hamlet, personagem que quer vencer a limitação inerente ao conhecimento humano, ao mesmo tempo em que encarna a limitação da condição humana.

O crítico Harold Bloom discorda dessa ambigüidade acima mencionada, a de que o personagem busca a onisciência e, ao mesmo tempo, mostra-se limitado em face dela. Para Bloom, esse desnível de informação, que de alguma maneira atinge todos os personagens na peça, não chega a atingir o príncipe. O crítico defende que Hamlet jamais é abordado através da ironia dramática, estará sempre em situação privilegiada e conclui que a relação singular entre Hamlet e o público é a de que “ele sabe que sabe mais”. Obviamente que, em relação às revelações do espectro, Hamlet realmente possui informações que ninguém mais conhece. Além disso, quando o rei, a rainha e Polônio tramam testar se a loucura tem motivação amorosa, ou seja, se o motivo é a falta de receptividade de Ofélia, o príncipe, mesmo sem saber da estratégia montada por eles, desconfia da moça e aparenta loucura diante dela. Em certos momentos, ele parece mesmo onisciente demais, como se não pudesse ser enganado ou como se pudesse prever as intenções e as ações daqueles que o rodeiam.

A ambigüidade do conhecimento de Hamlet, no entanto, está nos detalhes, mesmo a consciência do “herói da consciência” tem limites. Na morte de Polônio, por exemplo, o público e a rainha sabem exatamente quem se esconde atrás da tapeçaria, pois Polônio declara que irá se esconder lá. Hamlet entra em cena e, julgando ser Cláudio, mata-o por engano. O episódio aparentemente não é importante, mas sugere que a onisciência do príncipe é limitada:

Polônio – (Atrás da tapeçaria.) Que aconteceu? Oh! Socorro! Socorro!
Hamlet – (Desembainhando a espada.) Que é isto? Um rato? Aposto um ducado como está morto! Morto! (Dá uma estocada na tapeçaria.).
Polônio – (Atrás da tapeçaria.) Oh! Mataram-me! (Cai e morre.)
Rainha – Ai de mim! Que fizeste?
Hamlet – Eu não sei. Não é o rei?

O príncipe cerca-se de recursos para confirmar que sua vingança é justa e necessária. A peça inicia-se quando o príncipe precisa lidar com o fato de que, sobre a morte do rei, o que sabia não era a “verdade”. A partir daí, ele se torna desconfiado e certifica-se, de todos os modos possíveis, de que o rei foi assassinado e o trono usurpado. Nesse sentido, Hamlet é o personagem que nega a parcialidade do conhecimento, ele quer vencer a limitação de sua consciência e, para tanto, lança-se numa batalha pelo saber. Mas o que ele não percebe é que qualquer ponto de referência que ele adote, a partir das informações novas que possui, será sempre um dentre outros pontos de referência.

Hamlet é, ao mesmo tempo, o herói que busca uma totalidade sobre o saber e também o exemplo mais claro de que essa totalidade é impossível, pois a cada cena esbarra em sua própria limitação. Ele é o personagem que encena a luta contra a limitação inerente ao conhecimento humano e, ao mesmo tempo, é o exemplo de como não se pode vencer o subjetivismo a que todos estão submetidos.

Em razão da desconfiança de Horácio sobre as intenções do fantasma, e também por perceber que as revelações do espectro são importantes para o destino da Dinamarca, Hamlet afirma: “Há mais coisas no céu e na terra, Horácio, do que pode sonhar a tua filosofia”. Essa afirmação revela o desnível de informação que existe entre o que sabe o príncipe e seu amigo desconhece, e, claro, entre o que sabe Hamlet e o resto do mundo. Existem ainda níveis diferentes de informação entre o espectador e Horácio, pois a conversa entre o príncipe e o fantasma se deu apenas entre eles dois – na presença da platéia –, e Horácio só saberá o teor da revelação algumas cenas depois.

Como podemos ver, Shakespeare utiliza a ironia dramática a cada cena, criando camadas de significação capazes de criar ambigüidades e de manter o público alerta e dependente de cada revelação. Além de representar o desnível de informação, a fala do príncipe marca o início de sua mudança: ele passa da desconfiança para o começo de uma certeza. Sua fala ao amigo Horácio revela o peso desse conhecimento, pois, enquanto a filosofia de Horácio é restrita, a filosofia de Hamlet o faz perceber que “o mundo está fora dos eixos” e que seu destino é colocá-lo em ordem."

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Fonte:
Alessandra Mara Vieira: "A presença de shakespeare na obra de Machado de Assis: A construção das dimensões trágica e cômica em Quincas Borba". (Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras: Estudos Literários da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais, como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Letras – Literatura Brasileira. Orientadora: Marli de Oliveira Fantini Scarpelli). Belo Horizonte, 2007.

Notas:
A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese. As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra. O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho. Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da tese em sua totalidade. Disponível em: www.dominiopublico.gov.br

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