17/05/14

Lendas do Sul, de José Simões Lopes Neto

 Lendas do Sul -  João Simões Lopes Neto
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Simões Lopes Neto e o nome do Rio Grande do Sul no cenário nacional

João Simões Lopes Neto não pode ser chamado “um homem do campo”. A partir dos anos, órfão de mãe, criou-se em Pelotas, cidade que crescia economicamente graças às charqueadas.

Afora os poucos anos em que estudou na capital da província, teve sua história ligada à cidade de Pelotas, mas nunca como neto de um latifundiário. Estudou, mas não se formou; foi jornalista, abriu e fechou vários negócios; escreveu comédias, fez conferências, mas, apesar de admirado no âmbito municipal, seu reconhecimento em vida não passou disso. Foi um talento municipal, porém somente muito tempo depois de seu desaparecimento despertou o interesse da crítica pela sua obra.

A família Simões Lopes iniciara com seu avô visconde da Graça e encerra-se com o escritor, que, sendo o último herdeiro varão, não teve filhos. O latifúndio dissipou-se em vinte e dois filhos do avô e mais quatro filhos do pai do escritor, também único filho homem do visconde Simões Lopes. Lopes Neto nunca se interessou pelos negócios com gado e, apesar de seu avô ser um dos grandes charqueadores de Pelotas – chegou a abater quinhentas mil reses em uma safra –, sempre foi um homem das letras. Gostava da palavra: escrita, falada, publicada, representada. Seus amigos diziam que, apesar de João Simões ter estado poucos anos matriculado em instituições de estudo, era um “grande conhecedor das coisas.” (REVERBEL, 1981, p. 38). É um legítimo autodidata e produziu uma obra tão grandiosa que seu tempo não pôde compreender. No dizer de Flávio Loureiro, “sua pequena/grande obra escapou ao presente do autor. Era um legado para o futuro.” (1994).

Não conheceu a glória em vida e, ao falecer, em 1916, tinha publicado apenas três obras e somente a primeira delas com mais de uma edição: o Cancioneiro guasca (1910), Contos gauchescos (1912) e Lendas do sul (1913). “Não se sabe de nenhum escritor digno deste nome que tenha morrido com menos pompa literária.” (VELLINHO, 1960, p. 90). Werneck Sodré acredita que o motivo primeiro do desconhecimento de sua obra é a linha mais popular de literatura que seguia, já que Maya, nesta mesma época, publica com aclamação o seu livro de contos Tapera, com cenários e tipos da mesma roupagem, mas uma linguagem formal. (1995, p. 409).

De acordo com Reverbel, a estreia propriamente literária de João Simões é com Contos gauchescos, já que o Cancioneiro guasca é, na verdade, um resgate de poesias populares recolhidas da memória do povo, um importante trabalho de registro de ditos e cantigas utilizando a linguagem popular. Apesar de ser o organizador, não o autor, esta obra “insere com clareza a personalidade intelectual de Simões Lopes Neto na raiz popular que viria a ser a fonte vital para a redação dos Contos gauchescos.” (CHAVES, 1981).

Os Contos Gauchescos tem sua origem no Cancioneiro Guasca, são típicos gaúchos populares, originários das histórias do povo da campanha, das tropeadas, das batalhas.

“Cancioneiro guasca deixa de ser apenas uma valiosa contribuição para a história cultural; passou a ser, também, a matriz do protótipo que Simões Lopes irá privilegiar em sua ficção e constitui sua legitimidade, isto é, o fundamento de sua origem popular e coletiva. (CHAVES, 1981).

Queria, no dizer de Moysés Vellinho, realizar-se no âmbito da inteligência e, para tanto, teve uma intensa atividade intelectual: cultivou o teatro, ficção, folclore, palestras literárias, jornalismo e até um pouco de investigação científica, mas tudo com muita timidez.

A cronologia não mente uma trajetória de quase meio século entre o anonimato e o reconhecimento de grande regionalista. Depois da primeira tiragem de Contos gauchescos em 1912, a obra somente iria ganhar uma nova edição em 1926, juntamente com as Lendas, quando alcançou, pela primeira vez, vários pontos do país. Uma edição crítica de Aurélio Buarque de Hollanda, que aparece em 1948, despertaria a “sensibilidade nacional.” (VELLINHO, 2001, p. 92). Outros críticos, como João Pinto da Silva, Augusto Meyer e Lúcia Miguel-Pereira, fixam o seu nome na história geral da nossa literatura. A inclusão do nome de João Simões em antologias como a d‘O conto brasileiro de Herman Lima e Nossos Clássicos de Alceu Amoroso Lima e Roberto Alvim Corrêa foi decisiva para que o pobre e esquecido escritor municipal de Pelotas pudesse ser classificado, já na metade do século passado, como um dos “mestres do conto brasileiro.” (VELLINHO, 2002, p. 93). “A importância literária de Simões Lopes desbordou das limitações do regionalismo. Sua classificação hoje entre os mestres do conto brasileiro é matéria pacífica.” [no sentido de transbordar]. (VELLINHO, 1960, p. 92-93).

Segundo Moysés Vellinho, João Simões vai anteciparia a colaboração gaúcha para a revolução das letras brasileiras de 1922, quando se manifestou o desejo de integrar a literatura brasileira com a sua origem e as demais culturas através de uma nacionalidade com roupagem diferente daquela pregada pelos românticos. João Simões já estava à frente de seu tempo quando passava para a literatura uma expressão legítima de uma região muito particular. Diferentemente do Romantismo, isso acontece sem idealização e, por isso mesmo, sem falsificação. A simplicidade das personagens simonianas, bem como a do narrador, que se envolve de tal forma na narrativa que o leitor imagina que ele esteve mesmo lá, separa com nitidez o regionalismo do princípio do Romantismo e este da sua obra Contos gauchescos. É uma literatura tão diferente que se duvida de que ambas pertençam ao mesmo grupo.

Todas as análises confirmam o pertencimento da obra Contos gauchescos ao regionalismo, Chaves reconhece na obra “característica documentária que vai da linguagem dialetal aí incorporada até a fixação de um código ético específico, passando pelo registro histórico e a fotografia duma tipologia social. Tudo isto concorre para a definição do texto dentro do regionalismo.” (CHAVES,
1994).

Guilhermino Cesar, ao comentar o tom dado as personagens simonianas, estabelece uma relação com o tempo da narrativa e conclui que, por utilizar a memória, o autor retirou suas personagens da era “continentina” como aparece em Negrinho do Pastoreio: “naquele tempo os campos eram abertos, não havia entre eles nem divisas nem cercas”. O mesmo tom evocativo “persegue e vitaliza toda a sua obra de prosador.” (1955, p. 329). Continua dizendo que os termos utilizados pelas suas personagens-peões são esquecidos, são do tempo em que as fronteiras gaúchas estavam nas mãos ora de portugueses, ora dos castelhanos, “passado, coisa morta, mas com graça força e poesia.” (1955, p. 329).

Se as referências históricas e alguns dos hábitos típicos pertencem ao passado, as técnicas narrativas, a presença do narrador-personagem, a poesia da linguagem e a força das sensações, das emoções e da vida destas personagens pertencem a um futuro bem distante da sua publicação, ou, ainda, a qualquer tempo, numa dimensão tão gaúcha quanto universal. Prova é que João Guimarães Rosa, com seu único romance, Grande sertão: veredas (1956), 44 anos depois da publicação de Contos gauchescos, produziu uma forte narrativa de um jagunço mineiro, na mesma linha que as narrativas de Blau Nunes. Apesar de ambos estarem ambientados em seus estados típicos, de se vestirem, falarem e cultivarem hábitos típicos de sua região e seu tempo, suas narrativas ampliam a leitura para questionamentos da existência humana que qualquer alma mais aberta afeita à leitura poderia compartilhar.

Por outro lado, mesmo reconhecendo que os contos de João Simões Lopes Neto se prendem a outros tempos, seus escritos demonstram que “o escritor nunca se deixa dominar pelo sentimento de depressão nostálgica.” (2001, p. 93). Lopes Neto renova, rejuvenesce a tradição, até mesmo utilizando uma ou outra expressão que se poderia chamar de “modismos”, como os castelhanismos. Moysés Vellinho vê no estilo do autor uma harmonia entre imagem e sentimento, que, ao invés de fragilidade, dá força ao texto, porque ele unifica o “meio físico, a gente, os bichos, as coisas, com os mitos populares, com o fundo histórico e as peculiaridades tradicionais da província”. (2001, p. 93)

Na visão de Vellinho, há uma espontaneidade que afasta Simões do regionalismo acadêmico. Sua autenticidade é “genial”, já que não teve modelos, nem influências diretas, “se nutria de seus próprios dons”. (p. 94).
Por ser um homem das letras e ter se dedicado a várias atividades ligadas à escrita, demonstra em seus textos o gosto e a tendência para produzir obras relacionadas a este universo: “um sujeito de espírito jornalístico e verve literária.” (FISCHER, 1998, p. 14). Impressiona o quanto Lopes Neto consegue manter o caráter documental e cronístico de seus contos, sem abandonar qualidade ficcional, que é indiscutível.

Assumindo que o personagem Blau Nunes tem a idade que o texto lhe atribui, ele deve ter nascido por volta de 1820 e vivido até os primeiros dez anos do século 20. Isso o posiciona num percurso histórico de particular relevância a respeito do sul do país: teria ele, assim, visto ao vivo os primeiros anos da Independência, a Guerra da Cisplatina (1825-28), a Guerra dos Farrapos (1835-45), as turbulências das guerras contra Rosas e Oribe (1851-2), a Guerra do Paraguai (1865-70) e ainda os vários movimentos políticos e militares da instauração da República (1889), os quais, no Rio Grande do Sul, levaram a uma guerra civil conhecida como Revolução de 93 (1893-5). (FISCHER, 1998, p. 17).

O narrador  De acordo com Fischer, Lopes Neto “realizou uma pequena revolução no arranjo de sua narrativa”. (1998, p. 8). O crítico está se referindo à autonomia dada ao narrador dos Contos gauchescos, Blau Nunes, o que torna a obra quase uma contação de história. Foi dada voz a um campeiro, antes só objeto de literatura, “ao contrário de todos os que já haviam tentado o milagre, o autor dos Contos gauchescos descobriu que não bastava falar sobre o gaúcho: era preciso que ele próprio tivesse voz.” (FISCHER, 1998, p. 14).

Chaves diz que os mandamentos da vida de gaúchos como Blau Nunes seguem uma “ideologia francamente regionalista, a inscrição de um código ético particularizado e inconfundível.” (1994). Essas regras do viver gaúcho, seguidas pela maioria das personagens simonianas, manifestam-se nas lidas campeiras, nas apostas, nas batalhas e em qualquer missão que pretendam cumprir. São exemplos desta ideologia o jeito brincalhão, mas honesto, dos tropeiros que encontram a guaiaca de Blau recheada com “Trezentas onças”; as apostas de honra confiando na destreza do cavalo preferido do conto “Negro Bonifácio”; o temperamento do gaúcho, que não se curva diante de a uma proibição e cuja palavra dada é honrada até a morte, como se dá em “Contrabandista”, em que Jango Jorge promete trazer o vestido de noiva da filha.

E é essa criação muito especial de uma personagem que ora é protagonista, ora secundária, ora narrador e, às vezes, só um contador de casos que traz uma das maiores marcas da genialidade deste escritor pré-modernista, o qual cumpriu muito bem a função crítico-regional desta fase, mas avançou, antecipando a participação do sul no Modernismo e até na Contemporaneidade. Desde o momento em que João Simões entrega a palavra a Blau - “Patrício, escuta-o!” _
está criando a presença de um narrador-personagem único na literatura, que não podia ser compreendido numa Pelotas do longínquo Rio Grande do Sul de 1912. Sem imposição nem moralismos, sem idealizações nem heroísmos, o autor consegue, página a página, ir delineando indelevelmente o perfil de um povo que estava começando a aparecer timidamente nas páginas da literatura brasileira. É Schlee quem nos ajuda a encontrar as palavras para descrever com mais precisão a vida e as características de quem encontramos nestas páginas: “não podemos ter a ilusão de conhecer propriamente a sua vida; porque é Blau Nunes mesmo que passamos a conhecer – como tipo gaúcho e personagem de ficção.” (2000, p. 8).

Quando ele é personagem central, leva o leitor a pensar em valores tão plenos que ultrapassam a dimensão regional, como o tropeiro de “Trezentas onças”, que num ímpeto de dignidade pensa em tirar a própria vida para preservar a honra, mas é acudido pela natureza que se impõe a esse instinto. Quando ele é secundário, problematiza as situações e faz o leitor questionar-se sobre qual será o maior valor na vida de Jango Jorge, personagem de “Contrabandista”: as regras do transporte ilegal de mercadorias através da fronteira, ou a palavra dada à filha de lhe trazer o vestido para o dia mais importante de sua vida? Quando é narrador, como em “Penar de velhos”, Blau “dialoga com o leitor feito gente” (SCHLEE, 2000, p. 10) e compartilha seus sentimentos com ele, fazendo-o repreender o menino Binga em suas peraltices e, depois, chorar junto com os velhos o sumiço do filho.

Blau é uma dessas poucas personagens gaúchas que permaneceram na memória dos leitores há quase cem anos, ou, como diz Schlee, “é o primeiro gaúcho de verdade na literatura brasileira.” (2000, p. 11). Contudo, Blau não é a única personagem insistente a passear pelas páginas dos Contos gauchescos, Fischer nos chama a atenção que, ao lado do narrador, existe um interlocutor que apresenta Blau na abertura do livro. Ele volta em vários contos e parece ser alguém mais velho que o narrador e que não vive no pampa. É referido como “patrãozinho”, é letrado, pois Blau dita-lhe suas máximas – que ele anota a lápis – e acompanha o narrador em suas andanças, interessado pelo universo campeiro gaúcho.

A técnica é a mesma utilizada por João Guimarães Rosa no seu célebre Grande sertão: veredas. Ambas as obras apresentam um narrador simples e interiorano, visivelmente originário do seu estado, que conta suas histórias para alguém mais letrado e que desconhece muito do viver interiorano. E para todos aqueles críticos resistentes em reconhecer o valor do regionalismo, especialmente o gaúcho, aqui fica a apresentação das datas de uma e outra publicação: Contos  gauchescos foi publicado em 1912 e Grande Sertão, em 1956. Se um autor leu outro, foi o mineiro que teve a obra gaúcha como inspiração.

O narrador Blau, por ser um velho peão, apesar de sua origem pouco letrada e humilde, é experimentado e sábio e nos apresenta narrativas que fazem uma análise contrastando o passado e o presente. Na maioria dos contos, o narrador lembra que o fato aconteceu “há tempos”, costurando tempos remotos com o presente da narrativa. Um exemplo aparece no conto “Contrabandista”, quando Blau revela ao seu interlocutor que conheceu o eneagenário Jango Jorge “desde moço até a hora da morte.” (LOPES NETO, 2000, p. 128). Ao lado da vida e da morte do protagonista, o contrabando associado ao Rio Grande é historiografado em três das sete páginas do conto, desde antes da tomada das Missões. Quando o deslocamento no tempo não se dá pela história do Rio Grande, é pela história de alguma família gaúcha, como acontece na insinuação da origem de Tudinha, principal personagem feminina de “O negro Bonifácio”. Aqui Blau apresenta o Capitão Pereirinha e suas posses nos Guarás, ao lado da descrição do rancho onde a morena morava com Sia Fermina, que “tinha de um tudo”. (LOPES NETO, 2000, p. 32).

Talvez a realidade narrada por João Simões, Maya e, mais tarde, por Cyro Martins, não permaneça na memória deste tempo. Uma grande mudança ocorre principalmente a partir de 1945, quando veio, “no lugar da estância, o comércio urbano, a fábrica e a colônia imigrante.” [...] “no lugar do gaúcho livre, soberano, monarca das coxilhas e centauro dos pampas , que vivia de seu trabalho e, embora pobre, transitava altaneiro naquele meio, o empregado, o operário, o proletário.” (FISCHER, 1998, p. 24). Este gaúcho distante do meio rural, empurrado para a cidade, destino da maioria que vivia no campo, não é nosso alvo de estudo, pois nos interessa entender e investigar onde foram parar os “Blaus”. Faraco consegue ilustrar um pouco sobre o gaúcho que insiste em ficar no campo pobre e abandonado, de um espaço bem especial do Rio Grande, a fronteira; porém, lá não encontramos mais Blau Nunes, nem sua descendência. Aliás, pensamos que, a exemplo de seu criador, ele foi o último exemplar de sua raça, decerto por não ter tido nenhum filho varão.



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Fonte:
Nara Marley Aléssio Rubert: “Em que espécie de hombre o gaúcho se transformou? (O regionalismo nos contos gaúchos do século XX). ( Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade do Rio Grande do Sul como requisito parcial para obtenção do grau de Doutor em Literatura Brasileira. Orientadora: Prof. Dra. Jane Fraga Tutikian. Porto Alegre, 2010.
Notas:
A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese. As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra. Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da tese em sua totalidade. Disponível digitalmente em: www.lume.ufrgs.br

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