06/04/14

Poemas (Sonetos) de Florbela Espanca

 Poesias de Florbela Espanca
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Apenas um olhar: a dor na obra de Florbela Espanca.

ABISMAR-SE

Onda de aniquilamento que
 sobrevém ao sujeito amoroso
por desespero ou plenitude.

(BARTHES, 2003, 3)

Segundo Maria Lúcia Dal Farra (2002, 11), a dor é, nos escritos de Florbela Espanca, tanto em prosa quanto em verso, um dos ingredientes mais íntimos e, certamente, uma recorrência muito poderosa, o leitmotiv mais tocante. O tema é retomado em vários dos seus poemas e vem acompanhado de imagens várias, como iremos ver mais adiante.

MENDIGA

Na vida nada tenho e nada sou;
Eu ando a mendigar pelas estradas
No silêncio das noites estreladas
Caminho, sem saber para onde vou!

Tinha o manto do sol... quem m’o roubou?!
Quem pisou minas rosas desfolhadas?!
Quem foi que sobre as ondas revoltadas
A minha taça de oiro despedaçou?!

Agora vou andando e mendigando,
Sem que um olhar dos mundos infinitos
Veja passar o verme, rastejando...

Ah, quem me dera ser como os chacais
Uivando os brados, rouquejando os gritos
Na solidão dos ermos matagais!...
(ESPANCA. In: Charneca em flor, 1999, 225)

O poema acima é uma representação perfeita do sentimento de dor recorrente nos escritos de Florbela. O eu-lírico é um ser vazio, nada tem e nada é,

Na vida nada tenho e nada sou;
Eu ando a mendigar pelas estradas 
No silêncio das noites estreladas
Caminho, sem saber para onde vou!

e implora, pois, através da imagem da mendiga, o olhar dos outros:

Agora vou andando e mendigando,
Sem que um olhar dos mundos infinitos
Veja passar o verme, rastejando...

Nessa mendicância ele se assemelha a um verme, ou seja, um ser desprezível, sem valor, peçonhento, um parasita. O eu-lírico não se reconhece, pois, em alguém. A causa da dor:

Tinha o manto do sol... quem m’o roubou?!
Quem pisou minas rosas desfolhadas?!
Quem foi que sobre as ondas revoltadas
A minha taça de oiro despedaçou?!

“Roubaram-lhe” os seus bens. Agora lhe resta o vazio, acompanhado pela dor. A dor é decorrente do objeto perdido. Para Freud: “Nunca estamos tão mal protegidos contra o sofrimento como quando amamos, nunca estamos tão irremediavelmente infelizes como quando perdemos a pessoa amada ou o seu amor".

ESQUECIMENTO

Esse de quem eu era e que era meu,
Que foi um sonho e foi realidade,
Que me vestiu a alma de saudade,
Para sempre de mim desapar’ceu.

Tudo em redor então escureceu,
E foi longínqua toda a claridade!
Ceguei... tateio sombras... Que ansiedade!
Apalpo cinzas porque tudo ardeu!

Descem em mim poentes de Novembro...
A sombra dos meus olhos, a escurecer...
Veste de roxo e negro os crisantemos...

E desse que era meu já não me lembro...
Ah, a doce agonia de esquecer
A lembrar doidamente o que esquecemos!...


(ESPANCA, In: Reliquiae, 1999, 293)

O poema acima possui como tema dominante a dor, mas a dor causada pelo abandono do objeto de amor. O eu-lírico aparece como uma figura esquecida pelo objeto de amor, dor irremediável:

Esse de quem eu era e que era meu,
Que foi um sonho e foi realidade,
Que me vestiu a alma de saudade,
Para sempre de mim desapar’ceu.

O objeto de amor é visto como esse ser ideal, que está entre o sonho e a realidade. Possuir o objeto é o maior desejo, e a sua perca é a maior dor, dor que, por muitas vezes, não pode ser remediada. E provoca a aniquilação da alma, já que esta é representante do sujeito.

As imagens de escuridão, trevas e cinzas fazem parte da relação e da construção da imagem do objeto relacionando-a com a morte, com o fim:

Tudo em redor então escureceu,
E foi longínqua toda a claridade!

A escuridão é o oposto da claridade provocada pelo olhar do objeto de amor, claridade que já remetida foi em versos de algumas poesias aqui explicitadas e como nos que seguem:
[...]
Meu coração, inundado
Pela luz do teu olhar,
Dorme quieto como um lírio,
Banhado pelo luar.
*
quando teu olvido vier
teu amor amortalhar,
quero a minha triste vida,
na mesma cova, enterrar.
*
(ESPANCA. In: Trocando olhares, 1999, 31-32)

A escuridão se opõe, então, à claridade: a claridade é o olhar do objeto de amor, a escuridão é a representação de sua falta. O tatear sombras pelo eu-lírico é a representação dessa finitude do amor, as cinzas apalpadas são o resto, pois quase nada sobrou: Tudo em redor então escureceu,

E foi longínqua toda a claridade!
Ceguei... tateio sombras... Que ansiedade!
Apalpo cinzas porque tudo ardeu!

Os seus olhos entristecem porque não mais conseguem “olhar” o seu objeto de amor, de desejo:

Descem em mim poentes de Novembro...
A sombra dos meus olhos, a escurecer...
Veste de roxo e negro os crisantemos...

E a dor de esquecer o objeto de amor é reinante:

E desse que era meu já não me lembro...
Ah, a doce agonia de esquecer
A lembrar doidamente o que esquecemos!...

É necessário esquecer o objeto de amor, ele já está perdido.

Duas posições em relação ao objeto de amor pelo eu-lírico podem ser percebidas na poesia de Florbela Espanca: a que tenta esquecer o objeto, como vimos acima e vamos prosseguir com o próximo tópico e a que prefere viver “nas sombras” desse amor, se conformar com a dor:

AMIGA

Deixa-me ser a tua amiga, Amor;
A tua amiga só, já que não queres
Que pelo teu amor seja a melhor
A mais triste de todas as mulheres.

Que só, de ti, me venha mágoa e dor
O que me importa a mim?! O que quiseres
É sempre um sonho bom! Seja o que for
Bendito sejas tu por m’o dizeres!

Beija-me as mãos, Amor, devagarinho...
Como se os dois nascêssemos irmãos,
Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho...

Beija-mas bem!... que fantasia louca
Guardar assim, fechados, nestas mãos,
Os beijos que sonhei pra minha boca!...
(ESPANCA. In: Livro de Mágoas, 1999,147) 

O soneto acima deixa claro o sentimento de dor causado por um olhar não correspondido, olhar, este, associado ao amor. O desejo de quem ama é ser amado, o sonho toma o lugar da realidade para levar o sujeito a imaginar/viver/concretizar mentalmente uma situação em que este olhar é correspondido, em que o amor surge. Estar próximo do objeto amado é o desejo de qualquer amante, mesmo que o paradoxo perto/longe esteja mais presente que nunca:

Deixa-me ser a tua amiga, Amor;
A tua amiga só, já que não queres
Que pelo teu amor seja a melhor
A mais triste de todas as mulheres.

O eu-lírico não se importa com o desprezo recebido do objeto de amor, se conforma com a dor da rejeição, com a frustração do encontro, exemplificando também, desta forma, a relação de servidão:

Que só, de ti, me venha mágoa e dor
O que me importa a mim?! O que quiseres
É sempre um sonho bom! Seja o que for
Bendito sejas tu por m’o dizeres!

E de fantasia vive o sujeito, de fantasia consegue forças para amenizar a dor. Implorar a atenção ou um mísero sentimento também é característica da servidão presente nos versos de Florbela:

Beija-me as mãos, Amor, devagarinho...
Como se os dois nascêssemos irmãos,
Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho...

Beija-mas bem!... que fantasia louca
Guardar assim, fechados, nestas mãos,
Os beijos que sonhei pra minha boca!...

A conformação com a dor é por si só, também, uma dor:

O que dói não é perder o ser amado, mas continuar a amá-lo mais do que nunca, mesmo sabendo-o irremediavelmente perdido.
(...)
O dilaceramento não se situa mais entre contração e esvaziamento, mas entre contração – isto é, amor excessivo dedicado a uma imagem – e o reconhecimento agudo do caráter irremediável da perda.
(NASIO, 1997, 30)

A dor não é o único elemento que remete à perda na poesia de Florbela. Existe a presença do elemento angústia. A angústia nasce na incerteza de um perigo temido; ao passo que a dor é a certeza de um mal já realizado22. A angústia, na obra de Florbela, consiste no medo de perder o objeto de amor, pois essa dor já fora vivida anteriormente.

SEM REMÉDIO

Aqueles que me têm muito amor
Não sabem o que sinto e o que sou...
Não sabem que passou, um dia, a Dor,
À minha porta e, nesse dia, entrou.

E é desde então que eu sinto este pavor,
Este frio que anda em mim, e que gelou
O que de bom me deu Nosso Senhor!
Se eu nem sei por onde ando e onde vou!!!

Sinto os passos da Dor, essa cadência
Que é tortura infinda, que é demência!
Que é vontade doida de gritar!

E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio,
A mesma angústia funda, sem remédio,
Andando atrás de mim, sem me largar!...

(ESPANCA, In: Livro de Mágoas, 1999, 159

O soneto acima expõe muito bem o significado da angústia – sentimento causado pela apreensão de reincidência de um evento traumático, ou seja, evento doloroso. O eu-lírico sofre com esse sentimento, e admite a sua origem na Dor. Entretanto, pode-se observar que o vocábulo aparece em maiúscula, o que pode representar um sujeito:

Aqueles que me têm muito amor
Não sabem o que sinto e o que sou...
Não sabem que passou, um dia, a Dor,
À minha porta e, nesse dia, entrou.

A dor apareceu em sua porta e entrou, desde esse momento o eu-lírico não mais teve paz, e vive angustiado, perseguido pela Dor:

E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio,
A mesma angústia funda, sem remédio,
Andando atrás de mim, sem me largar!...

Dor, angústia e luto são imagens comuns, como também a vassalagem, observada em várias poesias, na obra de Florbela. A imagem da tentativa de superação do luto também se faz presente em muitos dos seus versos. Como Florbela trabalha essa superação do luto é o que vamos ver no tópico seguinte. Por ora, fiquemos com as considerações de Barthes:

No luto real, é a “prova de realidade” que me mostra que o objeto amado cessou de existir. No luto amoroso, o objeto não está nem morto nem afastado. Sou eu quem decide que sua imagem deve morrer (e esta morte, irei talvez ao ponto de escondê-la dele próprio). Durante todo o tempo que durar esse estranho luto, terei que sofrer duas desgraças contrárias: sofrer pelo fato de o outro estar presente (continuando, sem querer, a me ferir) e me entristecer o fato de ele estar morto (tal, pelo menos, como eu o amava). (BARTHES, 2003, 186)


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Fonte:
Michelle Vasconcelos Oliveira do Nascimento: “Trocando olhares: o desejo, o amor, a angústia e a dor na poesia de Florbela Espanca.”. (Dissertação apresentada à Universidade Federal do Rio Grande do Norte, como requisito de conclusão do Mestrado em Literatura Comparada, sob a orientação do Prof. Dr. Marcos Falchero Falleiros). Natal, 2005. Disponível em: ftp://ftp.ufrn.br/

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