22/03/14

Os Brilhantes do Brasileiro, de Camilo Castelo Branco

 Os Brilhantes do Brasileiro - Camilo Castelo Branco - Iba Mendes
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Personagens caricaturais: um retrato bem-humorado da hipocrisia social.

“Numa tragédia desta ordem,  como se  vê,  o cômico  está  sempre  negaceando  a gente  por  trás  daquele  Fialho,  o  qual,  apesar  dos  chacoteadores,  tinha ares  de  bom  homem,  e  talvez  desse  de  si  um  marido  regular, se se ajoujasse a uma fêmea da sua espécie.” 

CASTELO BRANCO, Os brilhantes do brasileiro.  

O  núcleo humorístico desta  narrativa  tem  como personagem  principal  o brasileiro Hermenegildo  Fialho Barrosas. O  fato de  desempenhar  o  papel  deste  português  de  torna-viagem  que, em  geral, ascende  socialmente  por  conta  da  conquista  do dinheiro, já  se  mostra, em  Camilo, um  elemento negativo. Em  geral, os  brasileiros  encontrados  nos  romances  camilianos  são  vistos  como sujeitos  grotescos, alvos  de  ridicularização e de crítica.

Vale aqui destacar que essa imagem negativa do brasileiro, entretanto, não é  exclusividade  de  Camilo. No quase  totalmente  desconhecido  romance  Ouro e  crime!  Mistérios  de  uma fortuna ganha no Brasil  (1855), Eduardo Tavares  constrói  um  personagem  brasileiro, Sr. Thimoteo Rodrigues, que  encarna  todas  as  características  negativas presentes na descrição de grande parte dos brasileiros de Camilo. A presença  desta imagem caricata parece ser, portanto, não uma visão exclusiva do autor de Amor  de  perdição, mas  sim  uma  imagem  difundida  na  época, como bem  podemos  notar  a  partir do prefácio ao romance de Eduardo Tavares, assinado por Julio César Machado, nome respeitado e conhecido no círculo intelectual do período.   

Neste prefácio, Machado aponta para a freqüente imigração dos portugueses ao Brasil  em  busca  de  fortuna. Ironicamente, o crítico afirma  que  “um  pai  honesto e  meditador, destina um de seus filhos para cirurgião, outro para padre, e o terceiro para ir  para  o Brasil”  (TAVARES, 1855, p. 01). A  fortuna  alcançada  na  terra  prometida, entretanto, segundo Machado, é  conquistada  sempre  de  forma  escusa, o que, inevitavelmente, atribui  ao seu portador  uma  imagem  negativa:  “No Brasil  há  apenas  duas  formas  de  fazer  fortuna:  a  falta  de  brio, e  o instinto da  usura. Querer  alcançar  fortuna  nessas  terras  com  honra  e  boa  fé, é  simplesmente  uma  louca  puerilidade  [...]”  (1855, p. 04). Nesse  sentido, podemos  entender  a  postura  de  Camilo com  relação à  figura do brasileiro, não como uma característica particular, mas, de certa forma, como  integrante  de  um  ponto de  vista  comum, partilhado pelos  intelectuais  em  meados  do século XIX. Encerremos este parêntese e voltemos ao romance camiliano.   

Como bem notou Maria Saraiva Jesus, no estudo já aqui amplamente citado, o narrador  camiliano utiliza, como instrumento  para  alcançar  seu objetivo crítico, a  descrição física do personagem. Segundo Jesus, através da descrição grotesca dos traços  do brasileiro, “procura-se criar um efeito cômico que produza um maior distanciamento  afetivo da parte do leitor” e acentuar “ainda mais a repulsa moral provocada por essas  personagens” (1986, p.177). 

E é, de fato, o que acontece. Vejamos um exemplo suficiente para elucidar o caso. Dá-se início ao romance com um capítulo intitulado “Aflições sudoríferas”:

Em um frigidíssimo dia de janeiro de 1847, por volta das nove horas  a manhã, o sr. Hermenegildo Fialho Barrosas, brasileiro grado e dos
mais  gordos  da  cidade  eterna, estava  a  suar, na  rua  das  Flores,  encostado  ao balcão da  ourivesaria  dos srs. Mourões. As  camarinhas  aljofravam  a brunida testa  de  Fialho Barrosas, como se  a  porosa  cabeça  deste  sujeito filtrasse  hidraulicamente  o estanque  de  soro  recluso no bojo não vulgar do mesmo. (BB, p.885, grifo nosso). 

Reelaboremos  a  cena  e  notemos  o humor  adotado pelo narrador. Estamos  situados em um “frigidíssimo” dia. O brasileiro, não simplesmente gordo, mas sim “dos  mais  gordos”, encontra-se  encostado em  um  balcão, transpirando descontroladamente. Este é o primeiro contato do leitor com o personagem. As referências  fisiológicas não  param por aí, seguindo uma evolução que culmina na morte do brasileiro causada por  “demasias de gulodice” (BB, p.987) que findam por lhe agravar a doença no fígada.

A linguagem fisiológica adotada pelo narrador irá, de certa forma, estender-se à caracterização moral dos amigos de Hermenegildo, através do objetivo de elucidar  o leitor acerca das “proeminências morais” (BB, p.896) destes personagens. 

Tais  personagens  são  apresentados  aos  leitores  no capítulo terceiro intitulado “Retratos  do Natural”. Aqui, é  interessante  destacar  as  possíveis  conotações  presentes neste título. Maria Saraiva Jesus defende que há um 

[...]  atributo  de  objetividade  fotográfica  presente  nos  ‘retratos’, que  além do mais são tirados ‘do natural’, isto é, da realidade do dia-a-dia,  em que as pessoas são vistas nas suas ações normais, autênticas, sem  poderem para o efeito assumir ‘poses’ artificiais. (1986, p.193). 

Concordando com  a  interpretação de  Jesus, acredito que  há  ainda  outra  possível  conotação implícita:  ao adotar  a  palavra  “Natural”  o narrador, para  além  de  sugerir o retrato de personagens que não se podem disfarçar, parece utilizar tal definição como sinônimo daquilo  que  é  socialmente  comum  ou ainda  o verdadeiro, o que  estenderia  as  “denúncias”  dirigidas  aos  personagens  a  todos  os  outros  presentes  nesta mesma sociedade.

Durante  a  descrição  dos  amigos  de  Hermenegildo, o narrador  camiliano transmite ao seu leitor duas visões divergentes dos mesmos personagens: por um lado, a  descrição real  ou ainda  “Natural”  de  cada  um  deles  e, por  outro,  a  visão hipócrita  da  sociedade diante destes personagens. 

Atanásio José da Silva, segundo o narrador, “é capitalista, casado, sócio que  foi de molhados com o Sr. Fialho, bom vizinho, cidadão pacífico e aos costumes disse  nada” (BB, p.896). Esta seria, pois, a descrição inicial do personagem. E, logo a seguir,  o narrador acrescenta: 

Porém, o povo reza  que  ele, apanhando em  flagrante  a  esposa  numa  excursão filarmônica às esferas sonorosas com um caixeiro, tão duro e  miúdo tocara o compasso no caixeiro com a batuta de uma tranca, que  o rapaz, expulso a  couces,  chegou à  terra  natal  e  expirou oito dias  depois, contando o segredo a sua família. (BB, p.896, grifo nosso).

Em decorrência deste caso, segundo o narrador, a esposa de Atanásio, após  quinze  dias  de  reclusão  em  seu quarto, é  perdoada  pelo marido. Ainda  de  maneira  bastante  irônica, a  voz  narrativa  completa:  “Pecadora  que  passe  por  ela  é  visão que  a  enjoa e adoenta. As filhas, quando a escutam discretar em virtudes, cuidam que sua mãe  é uma mulher da Bíblia” (BB, p.897). 

Este movimento irônico é, ainda, agravado no momento em que o narrador, após afirmar que Atanásio é contrabandista, completa: 

[...] conforme à justiça e às manhas do Porto, a firma de Atanásio é das mais acreditadas na praça, e as gazetas, quando escrevem Atanásio  José da Silva, antepõem-lhe ao nome os adjetivos honradoprobo e,  se  acontece  ir  para  caldas  ou praias  com  a  mulher, vai  sempre  “o  honrado capitalista  com  sua  virtuosa  esposa”. (BB,  p.897, grifo do  autor).

Ora, temos  presente  aqui  um  movimento descritivo muito bem  estruturado  que  claramente  denuncia  a  hipocrisia  social. Após  descrever  todo o histórico negativo do personagem, o narrador  aponta  para  a  caracterização deste  sujeito diante  da  sociedade. 

Não seria irônico ou contraditório (ainda que crítico) o narrador afirmar que,  apesar de seu passado, Atanásio é bem visto pela sociedade. O que torna, portanto, esta  descrição bastante irônica e denunciativa é o fato de que não é a voz narrativa onisciente  que aponta para este passado negativo, mas sim a crença do povo (segundo o narrador, como vimos, “o povo reza  [...]”). Ou seja, o narrador  deixa  claro ao  seu  leitor  que  a  sociedade  que  reconhece  Atanásio como “honrado e  probo”  e  sua  esposa  como “virtuosa”, é a mesma que conhece a fundo seu passado imoral, denunciando claramente  a hipocrisia presente nesta sociedade.

Já a caracterização de Pantaleão Mendes Guimarães centra-se na descrição  de  sua  esposa  Francisca  Mendes, anteriormente  conhecida  como Francisca  Ruiva. Segundo o narrador, Pantaleão, apaixonando-se por Francisca,   

[...]  trasladou do bordel  às  alcatifas  de  sua  casa  a  Ruiva, saudosa  do  lundum  chorado, investiu-a  da  governança  da  despensa, e  mais  tarde  esposou-a, no intento de condecorar socialmente a lama que trouxera  do alcouce (BB, p.897).   

Pois, esta personagem “já logrou a satisfação de se ver também caluniada de  ‘esposa  virtuosa’  nas  gazetas”  (BB, p.897,  grifo nosso).  Temos  aqui  dois  movimentos  irônicos  distintos:  o primeiro, como no exemplo anterior  é  o da  contraposição entre  a  origem  de  Francisca  Ruiva  e  o tratamento dado a  ela  nas  gazetas;  o segundo torna-se  bastante  claro através  da  utilização do termo “caluniada”. Sendo a  calúnia, segundo o Dicionário Aurélio, “ato de  procurar  desacreditar  publicamente  alguém,  fazendo-lhe  acusações falsas; difamação” (1977, p.89), há aqui, claramente, uma inversão completa  de  valores, pois  chamar  Francisca  Ruiva, uma  mulher  advinda  de  um  bordel, de  “virtuosa” é uma inusitada forma de calúnia. 

O  movimento irônico – e  crítico –  é  ainda  agravado pelo uso do  advérbio “também” que  finda por estender  aos personagens descritos  anteriormente (Atanásio e  sua esposa), a idéia da adjetivação presente nas gazetas como calúnia. 

O  terceiro e  último  amigo do brasileiro, Antonio Joaquim  Bernardo,  “estúpido perversíssimo, antigo  gandaieiro [...] casou-se  com a mais desbragada polha  que  deu a  Maia”  (BB, p.897). Esta, apesar  de  nomeada  “ilustre”  e  “distinta”, “não  a  tratavam de virtuosa, porque o localista receou que o termo, revendo ironia, lhe fechasse  as portas do próximo baile” (BB, p.898). 

Aqui  é  interessante  notar  que  a  ironia  do  narrador  se  dá, não no  fato  de  a  personagem  ter  sido tratada  como distinta  ou virtuosa, mas  sim  em  uma  espécie  de  mostra de que até a sociedade, claramente hipócrita, possui um certo limite de aceitação  – mais hipócrita que a própria hipocrisia mostrada – condenando aquilo que julga como  exagero.  

Como forma  de  reafirmar  sua  crítica, o narrador  inicia  o capítulo seguinte  intitulando-o “Tribunal  de  honra”. Mais  uma  vez  há  um  movimento irônico. Após  mostrar, através  de  suas  descrições  que,  de  fato, estes  personagens  não possuem  “proeminências  morais”  dignas  de  participarem  deste  “pleito de  honra”, o narrador  reutiliza a palavra, contradizendo assim tudo aquilo que já havia mostrado no capítulo  anterior, ou seja, mesmo após  denunciar  claramente  personagens  pouco honrados, o  narrador retoma o termo, criando assim um movimento cíclico que reitera sua ironia e, por conseguinte, sua crítica. 

São estes, portanto, os  personagens  que  figuram  o núcleo humorístico da narrativa:  sujeitos  que, como vimos, embora  moralmente  desqualificados, são vistos  positivamente  por  uma  sociedade  hipócrita,  uma  vez  que  possuem  dinheiro suficiente  para “pagar” tal respeito.  

Inicia-se, pois, o “Tribunal  de  honra”, no qual  os  quatro personagens (Hermenegildo, Atanásio, Pantaleão e  Joaquim), discutem  o justo destino de  Ângela,  uma vez que a esposa do brasileiro não confessa o que fez com o dinheiro da venda dos  brilhantes. 

Tal discussão, repleta de cenas hilárias, evidencia, cada vez mais, os valores  adotados pela sociedade  que vem sendo retratada: uma sociedade que tem como valor  primordial o dinheiro e o reconhecimento social, em detrimento de qualquer sentimento verdadeiro que possa existir. É o que fica bastante claro na cena em que Hermenegildo lamenta-se  de  seu destino e  da  perda  de  sua  esposa  – e  ainda  mais  de  sua  honra.

Desconsiderando qualquer possibilidade de existência de um sentimento verdadeiro, os  amigos do brasileiro ironizam: 

– Pois você ainda está nessa!...Matar-se por causa de mulheres! Está a  ler o nosso homem! [...] Com que então você, com amigos e fortuna,  era capaz de tomar veneno pr’amor duma desaustinada de mulher que  se portou mal! Ela que se mate, se quiser; e você viva regaladamente  com cento e noventa contos que tem. Faça de conta que ela morreu e  trate de arranjar outra... – Ou duas que é melhor – emendou Atanásio.  – Ou três, que  é  mais  peitoral  – ampliou Pantaleão  [...]  – Quatro,  quatro, para não ser pernão...O dado é sete fêmeas para cada macho.  (BB, p.912, grifo nosso).

É  importante  notar  aqui  que, para  além  da  crítica  à  subordinação dos  sentimentos  em  relação ao poder  argentário, há  também  a  partir  deste  momento, de  forma  bastante  interessante, uma  espécie  de  jogo com  as  expectativas  dos  leitores  através da crítica irônica dos expedientes tão caros às chamadas novelas passionais.   
[...]


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Fonte:
Juliana Yokoo Garcia: “Amores contrariados, puros e abnegados?” (Dissertação apresentada  ao Programa  de  Pós-Graduação em   Literatura     Portuguesa  do  Departamento de  Letras  Clássicas  e  Vernáculas  da  Faculdade  de  Filosofia, Letras  e  Ciências  Humanas  da  Universidade  de  São Paulo para  obtenção do título de Mestre em Letras.  Orientador:  Professor  Doutor  Paulo  Fernando  da  Motta de Oliveira). São Paulo, 2008.

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